Por Eliara Santana (*)
Na madrugada de segunda, 01, para terça-feira, 2, o Brasil foi surpreendido por uma nova decisão do governo norte-americano de impor taxação a produtos brasileiros. O tema, como era previsível, sacudiu as redes e mobilizou a campanha de Flávio Bolsonaro e o séquito de apoiadores, que já estava de sobreaviso para a mobilização em torno da construção de uma contranarrativa preventiva.
Antes de o assunto ser oficialmente publicado, o jornal O Estado de S.Paulo fez uma matéria, em 31 de maio, informando que “Empresários esperam que EUA apliquem novas tarifas contra o Brasil nesta semana”. Era ainda o rescaldo da viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA, e a campanha e os apoiadores festejavam a inclusão, pelo governo norte-americano, das facções criminosas PCC e CV como terroristas.
Em resposta à matéria, o blogueiro e influenciador Paulo Figueiredo, amigo de Eduardo Bolsonaro, que também está morando nos EUA e é um defensor do tarifaço, respondeu, fazendo aquilo que sabem fazer muito bem, que é corroer a credibilidade da imprensa e desacreditar o trabalho jornalístico:
“Segundo todas as minhas fontes, a reportagem é FALSA. Eu acho minhas fontes nos EUA melhores que a do @Estadao. Quem eles ouviram? Trump? Fontes na Casa Branca? No Dept de Estado? No USTR? Não! Ouviram apenas dois empresários brasileiros anônimos! E ainda assim publicaram uma reportagem com esta gravidade que movimenta até bolsa e dólar! Chegaram a dizer que tarifas vem HOJE!! Cadê o rigor jornalístico? A responsabilidade do jornal que paga de baluarte do moralismo? Será para tentar criar cortina de fumaça pela excelente semana que teve a campanha do @FlavioBolsonaro? Ainda nesta semana saberemos e voltarei aqui para cobrar o veículo e estes repórteres. Uma coisa que deixamos claro na visita à Casa Branca: não há necessidade de tarifas porque Flavio vai ganhar e faremos um acordo comercial bom para os dois países que o atual governo incompetente é incapaz de fazer. E, se for necessário, Flavio tem todos os canais e credibilidade para reiterar este pedido”.
Escondido pela verborragia de Paulo, um certo pânico de que aquilo fosse mesmo verdade. Mas era. E o tema caiu como uma grande bomba para Flávio Bolsonaro, que já ganhou nas redes a alcunha de “TariFlávio”. Outras hashtags, no decorrer das horas, também apareceram com força, como “o Pix é nosso” e “Bolsonaros inimigos do Brasil”.
Monitoramentos que estão sendo realizados mostram o impacto da associação da guerra ao Pix à figura de Flávio Bolsonaro. Segundo levantamento da Palver, empresa de inteligência de dados que faz monitoramentos em tempo real de centenas de grupos abertos de WhatsApp e do Telegram, o nome ‘Flávio” e o sobrenome “Bolsonaro” apareceram em cerca de um terço das mensagens sobre a discussão do novo tarifaço, e as menções negativas relativas ao senador do PL, sobre o tema, são cerca de 75%.
Ainda segundo a empresa de monitoramento, 81% dos internautas consideram que Flávio Bolsonaro tem relação direta ou indireta com o tarifaço proposto novamente pelo governo norte-americano.
As mensagens monitoradas mostram associações entre o filho 01 de Jair Bolsonaro e a ideia de prejuízos para o Brasil, ameaças ao Pix e à soberania nacional. As mensagens averiguadas mostram até uma associação simbólica muito potente: de Flávio Bolsonaro a Fernando Collor ou, mais especificamente, à memória traumática do confisco da poupança que o ex-presidente fez logo que assumiu o governo, em 1990. De fato, a lembrança dos falsos profetas ainda assusta muito as pessoas.
De acordo com levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados divulgado quarta-feira (03/6), “a expressão BOLSONAROS INIMIGOS DO BRASIL esteve em 3º lugar nos Trending Topics Brasil das últimas 24 horas. TARIFLÁVIO apareceu em 12º, enquanto O PIX É NOSSO ranqueou na 12ª posição. Obrigado Bolsonaro, utilizada tanto por apoiadores quanto por opositores sarcásticos à família, ficou na 21ª. Destaque ainda para “BOLSONAROS TRAIDORES DA PÁTRIA” em 23º lugar, e “Trump“, em 25º”.
Outro monitoramento, da plataforma AtivaWeb DataLab, contabilizou quase 9 milhões de menções ao tema entre os dias 2 e 3 de junho, logo após o anúncio do USTR sobre a proposta de aplicação de tarifas sobre mercadorias nacionais. Nessa amostragem, ficou evidente a predominância de manifestações negativas ao anúncio norte-americano (67,8%), em relação às tarifas (81% de teor negativo) e na associação da família Bolsonaro ao tema (69% de viés negativo). Ainda segundo o levantamento, a narrativa de defesa da soberania nacional apresentou 74,2% de sentimento positivo.
O que interessa observar, para além dos números em si, são os eixos narrativos a partir dos sentidos que se impõem. Temos, portanto: 1) os Bolsonaros são traidores da Pátria; 2) Falam em patriotismo, mas agem para prejudicar o Brasil e os brasileiros; 3) Flávio só defende interesses próprios; 4) Flávio é responsável pelo tarifaço.
E há os enquadramentos em oposição: a ideia de traição e de defesa da soberania, o jogo entre ameaça e defesa – quem defende o país e quem o ameaça. Nesse sentido, a vinculação da persona Flávio Bolsonaro ao traidor Joaquim Silvério dos Reis, que entregou Tiradentes aos portugueses, é interessante. A figura de Joaquim Silvério evoca a imagem do personagem pequeno que trai grandes causas e homens para tirar proveito próprio, e esse imagético sociodiscursivo é bem forte.
A traição não é uma estratégia bem-vista na política, e ela desperta emoções contrárias bem fortes – o traidor não é alguém confiável.
Portanto, todos esses eixos são potentes e capazes de revigorar memórias discursivas como a do confisco da poupança – lembrando que Collor prometia caçar marajás, mas caçou de fato o dinheiro dos brasileiros.
Disputa por soberania
Avançando mais um pouco para além das questões que estão sendo expostas e bem problematizadas pela imprensa e por vários analistas, há dois grandes eixos de sentido nessa nova investida dos EUA contra o Brasil, mas ainda estão aparecendo ainda tangencialmente. O primeiro é macroeconômico, e o segundo é político-comunicacional. E envolvendo todo esse conjunto, a disputa por soberania.
O primeiro eixo, macroeconômico, já começa a transparecer e envolve os interesses das empresas de cartão de crédito norte-americanas em barrar o Pix. É enganoso dizer que o sistema de pagamentos brasileiro incomoda os EUA – precisamos dizer do modo certo, para ficar claro: isso incomoda as gigantes norte-americanas que controlam o uso de cartões de crédito e não querem o Pix, e como elas são apoiadoras com grandes doações, isso se tornou um assunto de governo.
Portanto, o Pix brasileiro incomoda as megacorporações administradoras de cartão de crédito norte-americanas, que dominam o mercado mundial e o governo Trump. Talvez, um pouco mais adiante, vamos descobrir que a conversa de Flávio Bolsonaro com Trump tenha servido para levar de bandeja o Pix do Brasil e entregá-lo a Trump. A ver.
O segundo eixo nessa questão ainda está sendo pouco explorado, apesar de muito importante. Ele é explicitado pelo que o comunicado do governo norte-americano fala abertamente contra as medidas do governo brasileiro e do Supremo Tribunal Federal de combate à desinformação. Segundo o documento do USTR, tribunais brasileiros emitiram “ordens secretas” para que empresas americanas de mídia social removessem conteúdos políticos e suspendessem perfis de residentes nos EUA — em alguns casos, com alcance global —, além de proibirem a divulgação dessas decisões.
Isso se refere às medidas adotadas especialmente pelo ministro Alexandre de Moraes para impor algum limite à produção e circulação de desinformação aos redes. No cerne da questão, a defesa da “liberdade de desinformação”. É isso o que o governo norte-americano e a trupe de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo querem: manter garantida a liberdade de desinformação, para que eles possam operar a construção de uma realidade paralela e se manterem no poder.
Vamos repetir sempre: a arquitetura da desinformação é vital para esse projeto da extrema direita. E o Brasil é uma vitrine para esse grupo, para a consolidação mundial de um projeto que até podemos chamar de “macropolítica da desinformação”.
Nesse momento, essa arquitetura desinformativa impõe ao Brasil um novo estresse e a perda de foco naquilo que realmente interessa num momento de eleição, que é saber quais são os projetos para o país que estão em disputa. E a desinformação, com essas estratégias cada vez mais complexas, cumpre a função de jogar a cortina de fumaça.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
