A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, afirmou nesta quinta-feira, 7, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trata o fim da escala 6×1 como prioridade para garantir mais dignidade aos trabalhadores que ocupam postos mais precarizados no mercado. Durante o programa “Bom dia, Ministra”, do Canal Gov, Rachel Barros afirmou que a medida deve trazer mais qualidade de vida sobretudo à população negra, que acaba ocupando boa parte dessas vagas de trabalho mais precário por conta do racismo estrutural que, infelizmente, se mantém no Brasil.
“Nós sabemos que é a juventude negra que está nos serviços de aplicativos e que a população negra que está majoritariamente no trabalho de serviço e no comércio. Por que não conseguir que essas pessoas tenham tempo livre, tempo para estudar, para suas famílias e para se qualificar?”, questionou a ministra.
Para Barros, a medida representa uma política de justiça social e racial. “Reduzir a escala de trabalho é garantir direito para as famílias brasileiras e, principalmente, para aqueles que estão em situações mais precárias de trabalho, porque eles serão os mais beneficiados”, afirmou, completando que o fim das jornadas exaustivas trazem benefícios tanto para a qualidade de vida das pessoas como do próprio trabalho.
Trazendo dados do Ministério da Previdência Social de 2025, que afirmam que no ano passado o Brasil registrou mais de 500 mil afastamentos do trabalho feitos por questões de saúde mental, a ministra ressaltou que o a redução da jornada é um caminho para evitar esses valores.
“Só vemos vantagens com o fim da escala 6×1 sem redução de salário. Para nós, essa é uma prioridade de governo muito importante, e o Ministério da Igualdade Racial está acompanhando todo esse processo de tramitação porque sabemos que a população negra é a maioria dessa população do país”, concluiu.
Programa Juventude Negra Viva, o protagonismo da periferia
Rachel Barros apresentou algumas políticas públicas adotadas desde a criação do Ministério da Igualdade Racial. Entre elas está o Plano Juventude Negra Viva (PJNV), classificado pela ministra como “o maior pacote de políticas para juventude negra já criado no Brasil”.
O plano reúne 217 ações coordenadas entre 18 ministérios e soma mais de R$ 800 milhões em investimentos. O objetivo é enfrentar a violência contra jovens negros por meio de políticas públicas integradas de educação, saúde, cultura, esporte e trabalho, buscando a redução das vulnerabilidades que afetam a juventude negra brasileira e a violência letal fruto do racismo estrutural.
“A gente sabe que para combater a violência não é preciso só tirar armas ou reduzir a letalidade. Significa também garantir dignidade, uma vida com qualidade e direitos assegurados para a juventude”, afirmou.
Rachel Barros explicou que o PJNV articula ações como o Pé-de-Meia, políticas de cultura, formação profissional e iniciativas de segurança pública voltadas prioritariamente à juventude negra. “Na prática, isso gera melhoria da qualidade de vida para a juventude naquilo que a gente sabe que é o mais importante. É colocar na pauta de cada ministério a priorização da juventude enquanto política”, destacou a ministra.
Casas da Igualdade Racial: atendimento de qualidade
Outro destaque da entrevista foi a expansão das Casa da Igualdade Racial, consideradas pela ministra uma das prioridades da pasta em 2026. As unidades estão em fase inicial de trabalho, mas já oferecem atendimento psicológico, jurídico e social à população negra, além de ações de inclusão produtiva, formação cultural e acolhimento de vítimas de racismo.
Segundo Rachel Barros, já foram inauguradas casas no Rio de Janeiro, em Fortaleza e em Pelotas. Outras unidades devem ser abertas em Salvador, Itabira e Contagem até o final do ano.
“A Casa da Igualdade Racial é um equipamento que promove atendimento qualificado para a população negra e ajuda a construir uma rede nacional de promoção da igualdade racial”, explicou.
A ministra afirmou ainda que o governo pretende ampliar o projeto para todas as regiões do país por meio de editais e parcerias com estados e municípios nos próximos anos.
Defesa das cotas e combate ao racismo
Rachel Barros também fez uma defesa enfática da Lei de Cotas e afirmou que o Governo Lula seguirá atuando contra qualquer tentativa de enfraquecimento das políticas afirmativas.
“A gente sabe que o racismo permanece na nossa sociedade e que as políticas de ações afirmativas ainda enfrentam resistência. Mas os resultados das cotas são incontestáveis”, declarou.
A ministra destacou que, entre 2013 e 2022, mais de 55 mil jovens entraram nas universidades públicas por conta da política pública. Ela lembrou ainda que o governo Lula renovou e ampliou a lei de cotas em 2023, incluindo estudantes quilombolas e ampliando as ações afirmativas também para a pós-graduação.
“Vamos seguir atuando firmemente para garantir que nenhum aceno contrário às ações afirmativas se firme no Brasil”, afirmou.
Socióloga, nova ministra dialoga com periferias e jovens
Doutora em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rachel Barros assumiu o cargo de ministra da Igualdade Racial em abril, com a saída de Anielle Franco do cargo. A segunda mulher negra a chefiar o ministério era a secretária-executiva da pasta e tem experiência de gestão em grupos de pesquisas e estudos científicos envolvendo as dinâmicas de poder, território e gênero. Tem atuação social e política junto aos segmentos de juventudes, mulheres negras, favelas e periferias.
Carioca, a socióloga cresceu na comunidade de Novo Palmares do Rio de Janeiro e diz que sua trajetória é resultado das políticas afirmativas implementadas no Brasil a partir de 2003.
Ao encerrar a entrevista, Rachel Barros afirmou que os próximos meses serão dedicados à consolidação das políticas inéditas construídas pelo Ministério da Igualdade Racial e à ampliação da presença do Estado nos territórios. “O nosso trabalho é garantir que todas as ações que nós fizemos sejam entregues e que todos os desdobramentos delas aconteçam”, concluiu.