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‘Lula deu um passo espetacular ao reconhecer indígenas como gestores públicos’

Joenia Wapichana, que presidiu a Funai, está no PT e aposta na ampliação da bancada indígena. Ela diz que 22 milhões de hectares foram regularizados

Joenia Wapichana presidiu a Funai e destaca avanços sob Lula, com 22 milhões de hectares regularizados.

Primeira mulher indígena eleita deputada federal na história do Brasil, Joenia Wapichana iniciou um novo capítulo em sua trajetória política ao se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT) no início de abril. Após um mandato parlamentar e três anos intensos na presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), onde atuou na linha de frente da reconstrução da instituição, Joenia traz na bagagem a experiência de quem “arrumou a casa” após um cenário de desmonte institucional e crises humanitárias urgentes, herdadas de gestões anteriores, sobretudo de Jair Bolsonaro.

Com o olhar voltado para as próximas eleições, Joenia reafirma seu compromisso com a reeleição do presidente Lula. Ela destaca que a presença de indígenas no Congresso é essencial para garantir que os direitos dos povos originários sejam tratados como uma pauta central da democracia. Para ela, “para ter um Brasil justo, é preciso ter inclusão e participação”.

De acordo com a pré-candidata a deputada federal, o conhecimento técnico e tradicional indígena é uma potência para todo o Estado brasileiro. “É importante garantir que os povos originários continuem fazendo o que já fazem sem serem vistos como despesa, mas como investimento”, afirmou.

Com a força dos ancestrais e o entusiasmo de quem já foi voz solitária no Congresso, Joenia projeta agora um futuro de bancadas fortalecidas e diálogos diretos com o alto escalão do governo. Em entrevista à Rede PT de Comunicação, Joenia Wapichana compartilhou suas expectativas para as urnas e fez um balanço de sua gestão na Funai. Ela afirma que os povos indígenas não querem apenas ser ouvidos, mas ocupar definitivamente os espaços de decisão no Brasil.

Rede PT de Comunicação: Quais são suas motivações para este novo ciclo no PT? 

Joenia Wapichana: Venho com todo o gás, com muito ânimo e muito motivada para poder trabalhar nesse período para que o nosso presidente Lula retorne em 2027 para a Presidência do Brasil. A minha prioridade hoje, retornando e participando desse processo eleitoral em Roraima, é justamente trabalhar ao lado do presidente Lula na reeleição dele. Ao mesmo tempo, também trabalharei para os povos indígenas e por Roraima, que tem um histórico de protagonismo e de pioneirismo, já que fui a primeira mulher indígena a ser deputada federal eleita no país, representando esse estado.

Naquela época eu estava sozinha, era a única deputada do meu partido e a única indígena no Congresso Nacional. Como acredito que a questão indígena é suprapartidária, trabalhei junto com o PT e os outros partidos da esquerda progressista e consegui fazer com que a temática e a voz dos povos indígenas fosse incluída nas pautas. 

Dá para fazer muito mais agora dentro do Partido dos Trabalhadores. Se consegui trazer mudanças estando sozinha dentro de um partido e sozinha no Congresso Nacional, imagina o que eu posso fazer com a bancada que existe hoje dentro do Partido dos Trabalhadores.

Presidente Lula com a ministra Sônia Guajajara e Joenia Wapichana, que foi presidenta da Funai.

Que projeção faz e o que espera de representatividade indígena no Congresso e na política? 

JW: Há muito tempo os povos indígenas têm tentado estar nesse espaço. Eu creio que depois do [Mário] Juruna, e 30 anos depois, comigo, os indígenas perceberam que é possível assumirmos esse espaço e com apoio, inclusive, não indígena. Por muito tempo quem representava politicamente os indígenas era o não indígena. Então, por que o indígena não pode representar o não indígena? Muitos indígenas estão preparados, não apenas eu.

No próprio movimento indígena nós vemos grandes lideranças que são sábias, tanto da questão local e tradicional, como técnica também. Eu acredito que existe toda essa capacidade e potência dos povos indígenas participarem desse processo eleitoral. Espero que nós tenhamos um aumento da bancada indígena e que possamos somar a essa força em 2027.

Depois de mim vieram mais três deputadas indígenas e a gente sabe que ainda é pouco. Nós temos uma população de 1,7 milhão de indígenas no país. 14% do território brasileiro está sob a responsabilidade dos povos indígenas. Para ter um Brasil justo, é preciso ter inclusão e participação. Não somente ouvindo, mas uma participação plena e efetiva de indígenas, assumindo esse espaço de tomada de decisão.

É justo e respeitoso aos povos indígenas deste país. Os povos indígenas têm toda a competência e responsabilidade de assumir espaços de poder. 

Você presidiu a Funai em um momento crítico. Qual o balanço que faz deste período? 

JW: Em três anos nós fizemos muito. Primeiramente, eu agradeço muito essa oportunidade oferecida pelo presidente Lula, porque ele me deu toda a segurança de fazer o que tinha que fazer.

A gente só não fez mais porque pegamos uma Funai totalmente sucateada, desmantelada. No primeiro ano, tive que ajeitar a casa, arrumar uma Funai quase extinta. Cuidamos de toda a questão dos servidores públicos do órgão, tivemos que fazer uma reestruturação total mesmo. Imagina uma instituição como a Funai, com 56 anos, sem um plano de carreira indigenista.

As pessoas são acostumadas a não respeitar a Funai. Parecia que éramos invisíveis, mas na hora de cobrar, o peso de uma demarcação era muito grande. E mesmo assim, com toda essa fragilidade que eu a encontrei, conseguimos retomar o processo da demarcação das terras indígenas. O presidente Lula homologou 20 terras, o ministro da Justiça assinou 21. Criamos 31 reservas em todo o país. Esses resultados somam quase 22 milhões de hectares regularizados. 

Fizemos toda essa diferença para a vida dos povos indígenas em pouco tempo, mas isso precisa continuar. Por isso a prioridade de continuidade de governo. Lógico que é preciso melhorar muito o orçamento da Funai, porque ela tem uma responsabilidade muito grande em suas costas. Mas tivemos muitos avanços.

O que ainda precisa avançar na relação entre o Governo Federal e os povos originários? 

JW: O presidente Lula deu um passo espetacular ao nos reconhecer como gestores públicos no Ministério dos Povos Indígenas, na Funai e na Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena]. O que precisamos agora é de um orçamento condizente com nossa obrigação institucional, já que a Funai tem o menor orçamento do governo e cuida de 14% do território brasileiro. 

É preciso ter mais recursos voltados para o apoio dos povos indígenas. E a economia do país também. Temos muitas iniciativas dos povos indígenas, como as artes, biojóias e artesanatos. A própria comercialização de produtos orgânicos e a agricultura. É importante colocar isso na mesa. 

Precisamos de canais de diálogo diretos com quem toma as decisões, para que nossas demandas sejam acolhidas, e não apenas ouvidas. Não é só ouvir, depois esquecer e deixar para lá. Eu acho que esse é o nosso grande desafio hoje.

Por fim, é preciso apoiar nossas iniciativas e os parlamentares indígenas. Nós queremos colaborar. Nós queremos fazer parte porque temos opinião.

Pietra Hara, para a Rede PT de Comunicação.