Siga nossas redes

‘Sim, as eleições brasileiras estão sob ataque. E a arma central é a desinformação’

Deepfakes, enxame de IA, ataque cibernético, guerra de algoritmos, mentiras: sem bombas e sem exército, estratégia moderna de interferência é cada vez mais sofisticada

Foto: Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*) 

Campanhas permanentes e coordenadas de desinformação, uso ostensivo de deepfakes, tentativas de intimidação a autoridades, enxames de IA, ondas de desinformação para deslegitimar o sistema eleitoral, manipulação tecnológica, planejamento de ataques a bomba, ataques cibernéticos, guerra de algoritmos, pressão política com embalagem de guerra comercial.

Esse conjunto de elementos – onde cabem, infelizmente, mais exemplos – mostra claramente que as eleições brasileiras estão, sim, sob ataque. Sem exércitos e bombas, mas contando hoje com estratégias de interferência política muito modernas e bastante fortalecidas pelo ecossistema de desinformação.

Essas estratégias reproduzem padrões de desinformação eleitoral, que se configura como “o conteúdo falso ou enganoso gerado e disseminado deliberadamente para influenciar o público e gerar atitudes e comportamentos negativos relacionados à condução das eleições e ao resultado eleitoral”, de acordo com a pesquisa “O ambiente da desinformação em torno das eleições”, publicada em março de 2023 pelo International Institute for Democracy Electoral Assistance (IDEA). 

Há um conjunto de manifestações promovidas pelo ecossistema de desinformação que causam impactos severos não somente aos processos eleitorais, mas à democracia como um todo: disseminação de fake news pelas redes sociais impacta seriamente a democracia,  poder político das plataformas interrompe ações de integridade eleitoral , há muitas ações de impedimento para conter o Judiciário (EUA x Alexandre de Moraes), exploração da religião por grupos diversos com amplificação pelas redes sociais, e ações coletivas que são fortemente organizadas a partir dos aplicativos de mensagens.

Todos esses elementos foram devidamente analisados no livro Democracy Under Attack (VON BÜLLOW, Marisa.; AVRITZER, Leonardo.; SANTANA, Eliara), publicado pela editora Springer em 2024.

No passado, governos norte-americanos alinhados à ditadura militar enviaram para o Brasil “formadores” para instruírem os agentes do regime, como ocorreu com Dan Mitrione. Hoje, o refinamento é bem maior e mais complexo, com muitas estratégias envolvidas – e também muitos atores. E quando pensamos em ameaças externas, como se configuram agora no Brasil, somos talvez levados a imaginar  grandes ações mirabolantes – que existem, claro –, mas elas não são as únicas e são, na verdade, o resultado de uma costura fina que envolve três elementos fundamentais:

  • a) ação coordenada com agentes políticos internos;
  • b) disseminação sistemática de dúvida sobre o processo eleitoral e as eleições como um todo;
  • c) uso cada vez mais intenso da IA. 

Em relação ao primeiro ponto, a imposição do tarifaço ao Brasil pelo governo norte-americano é um exemplo bastante claro. Houve uma articulação perniciosa de atores políticos brasileiros – como Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e o próprio Flávio Bolsonaro – com ilações sobre o governo do presidente Lula e mentiras sobre perseguição a Jair Bolsonaro, entre outras abordagens para forçar medidas contrárias à economia brasileira como forma de pressionar pela libertação de Bolsonaro e pelo apoio a Flávio.

O segundo aspecto é muito importante porque leva a uma grande corrosão do processo eleitoral, com disseminação de mentiras sobre as urnas eletrônicas, por exemplo, e narrativas falsas de perseguição e censura, entre outras estratégias.

Por fim, o uso de IA simulando contextos, discursos e personagens políticos contribui não apenas para a disseminação de mentiras, mas para a criação de realidades paralelas, ampliando as desconfianças e as dúvidas dos eleitores. Além disso, a inteligência artificial também amplia enormemente a capacidade de atuação dos candidatos e o alcance daquelas distorções que são produzidas.

Desinformação eleitoral cresce no Brasil

“Nos últimos dez anos, a desinformação eleitoral no Brasil deixou de ser apenas um conjunto de mentiras sobre candidatos e partidos e passou a operar como um sistema mais sofisticado, capaz de distorcer o debate público e corroer a confiança no próprio processo democrático.”

Essa avaliação consta do levantamento Anatomia da Desinformação Eleitoral 2026, realizado pelo Observatório Lupa. A pesquisa analisou o acervo de checagens e verificações da Agência Lupa durante os cinco últimos ciclos eleitorais brasileiros – 2016, 2018, 2020, 2022 e 2024 –, tendo sido revisadas 632 publicações, que reuniam 3.366 unidades de informação.

O estudo detectou uma baixa qualidade do debate público no país. Além disso, o relatório mostra, como uma de suas principais conclusões, uma transformação no perfil da desinformação eleitoral brasileira.  

Destaco alguns dados:

  1. Desde 2016, apenas 34,4% das declarações de atores políticos analisadas pela Lupa foram classificadas como integralmente verdadeiras;
  2. Aproximadamente seis em cada dez afirmações levadas ao debate público continham algum grau de inverdade – da omissão de contexto e do exagero à falsidade mais explícita e absurda;
  3. No discurso de atores políticos identificáveis, a mentira explícita passou a dividir espaço com formas mais complexas de manipulação. Exageros, omissões, recortes seletivos de dados, comparações inadequadas e disputas de contexto tornaram-se recursos recorrentes. Em vez de simplesmente inventar fatos, atores políticos passaram a utilizar informações verdadeiras ou parcialmente verdadeiras para induzir interpretações falsas;
  4. No mundo dos boatos virais, de autoria difusa e baixa rastreabilidade, a falsidade explícita permaneceu predominante. Seu alvo, porém, mudou. Ao longo dos ciclos eleitorais analisados, os conteúdos enganosos deixaram de se concentrar prioritariamente em candidatos, partidos e propostas e passaram a atacar a credibilidade das urnas eletrônicas, da votação, da apuração, dos resultados eleitorais e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
  5. A desinformação migrou das redes abertas para ambientes mais fechados. Em 2018, o Facebook aparecia em 76,5% das verificações eleitorais da Lupa. Em 2022, o WhatsApp já estava presente em 92,4% dos casos e, em 2024, em 100%;
  6. Entre 2016 e 2024, conteúdos produzidos por IA ainda não constituíam um padrão relevante nas checagens e verificações da Lupa. Predominavam declarações falsas, distorções de contexto, boatos virais, imagens reaproveitadas e mensagens de autoria difusa. A campanha de 2026, no entanto, tende a inaugurar uma nova etapa da desinformação eleitoral, marcada pela produção em larga escala de imagens, áudios e vídeos sintéticos capazes de tornar a manipulação ainda mais sofisticada e convincente.

Em relação ao contexto do processo eleitoral brasileiro sob o espectro da desinformação, há dois eixos que o explicam muito bem:

A ideia equivocada de que sempre existiram mentiras nas eleições

1 Não se trata de mentiras escancaradas. O processo de desinformação eleitoral não pode ser inserido no rol de mera disseminação de mentiras. Portanto, aquela ideia equivocada e propalada por muitos de que “sempre existiram mentiras em eleições” é bobagem, porque, hoje, vivem num cenário completamente distinto, complexo e repleto de nuances e estratégias desinformativas. Trata-se de falseamento e manipulação, uma distorção deliberada de elementos do real, o que tem potencial grande de criar confusão, dúvida e medo. 

Produzir confusão e caos

As estratégias de desinformação trabalham para alterar a percepção do eleitor em relação ao processo e aos atores envolvidos, provocando confusão e caos. E isso é importantíssimo porque a percepção é o modo como coletamos informação e as processamos. Se isso está comprometido, também está comprometido o modo como formamos nossa avaliação em relação aos processos e aos atores envolvidos. 

O fenômeno da desinformação sistematizada cresce, se consolida no Brasil e fica cada vez mais sofisticado.

Nesse processo, perde o país, perde a democracia.

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).