Deputada petista recebe ameaça de morte, aciona PF e Câmara
Os crimes incluem: ciberterrorismo, injúria racial e de gênero, ameaça qualificada, ameaça de estupro, violência política de gênero. PT pede apuração imediata e rigorosa
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Na madrugada do domingo, a deputada federal Carol Dartora (PT-PR) recebeu em seu e-mail institucional uma mensagem com ameaça de morte e estupro, conteúdo de ódio, racista, misógino, LGBTfóbico e abusiva. O texto, com tom ameaçador, partiu do endereço eletrônico lb.martins10@protonmail.com, e o remetente é identificado como Lucas Bovolini Martins. As agressões contra a parlamentar petista começam já no assunto do e-mail, que estampa a frase “Você vai pagar, sua negra vagabunda”, evidenciando um ataque com a intenção de deslegitimar sua atuação política e parlamentar.
“A carta tem um plano detalhado de violência sexual, tortura e homicídio, motivado pela minha atuação parlamentar na defesa de direitos humanos, minha condição de mulher negra e minha posição política”, diz a parlamentar.
Com auxílio de sua assessoria jurídica, a deputada Carol Dartora comunicou oficialmente a agressão e as ameaças à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República, ao Departamento de Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados, ao Ministério da Justiça, à Liderança do PT na Câmara, à Presidência da Câmara e também à Liderança da Bancada de Mulheres da Câmara. Foram solicitadas a instauração de inquérito policial, medidas protetivas, perícia digital e denúncia criminal. Os crimes configurados incluem: ciberterrorismo, injúria racial, injúria de gênero, ameaça qualificada, ameaça de estupro, violência política de gênero.
No corpo do e-mail, o autor se refere à deputada com expressões de baixo nível, relata com detalhes o planejamento de tortura e de assassinato da deputada. Ele ainda descreve como pretende estuprá-la, com uma narrativa explícita, ressaltando objetificação sexual racializada, reduzindo o corpo negro feminino a instrumento sexual para homens brancos, com afirmação de inferioridade baseada simultaneamente em raça e gênero.
O agressor anuncia na mensagem que vai “comprar uma passagem só de ida para a sua cidade”, para matá-la, mas não sem antes fazê-la “sentir cada segundo de agonia”. Diz, ainda, que vai “arrancar os olhos, cortar a língua”, “cuspir no cadáver” e assassinar a parlamentar com um tiro.
O criminoso avança e ataca a atuação do mandato, que, de acordo com o texto, trabalha para “direitos ridículos de minorias”, referindo- se à população LGBTQIA+, desqualificando a atuação de Carol Dartora em defesa dos direitos humanos. Ele afirma que “os viados e travestis não são normais”, que são “uma abominação” e que “deviam ser queimados vivos”.
Democracia não tolera o ódio, reage presidente do PT
“A democracia brasileira não pode tolerar que o ódio, o racismo e a violência tentem silenciar vozes eleitas pelo povo”, reagiu o presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva. Em nota publicada em sua rede, ele manifestou solidariedade à deputada federal Carol Dartora.
“É fundamental que as autoridades atuem com rapidez e rigor. Defendemos a apuração completa dos fatos, com a identificação e responsabilização dos autores dessas ameaças. Também é necessário garantir a segurança e a proteção da deputada, para que possa exercer plenamente seu mandato, livre de intimidações”, pede Edinho Silva.
A nota classifica o e-mail como inaceitável e uma violência política de gênero que atinge não apenas a parlamentar, mas também a própria democracia. As ameaças dirigidas à deputada, complementa o documento, carregam elementos de misoginia, racismo, LGBTfobia e violência política de gênero. De acordo com o partido, todas são práticas criminosas que merecem investigação e punição.
PT presta solidariedade e repudia autoritarismo e ódio
A Comissão Executiva Nacional do PT, diante dos fatos, divulgou a seguinte nota de solidariedade:
“Manifestamos nossa solidariedade à deputada federal Carol Dartora (PT-PR) diante das graves ameaças de violência política, racismo e misoginia que vêm sendo dirigidas contra sua atuação parlamentar através de e-mails.
Tais ataques não são fatos isolados. Eles fazem parte de uma estratégia de intimidação contra mulheres negras que ocupam espaços de poder e que se posicionam na defesa dos direitos humanos, da população negra, das mulheres, da população LGBTQIA+ e dos setores historicamente marginalizados. Trata-se de uma tentativa de silenciar vozes comprometidas com a transformação social e com o aprofundamento da democracia brasileira.
A violência política de gênero e raça é uma expressão do autoritarismo e do ódio que buscam interditar a participação popular e enfraquecer os mandatos legitimamente eleitos. Não aceitaremos que o racismo, a misoginia e as ameaças sejam utilizados como instrumentos de disputa política.
Defendemos a apuração rigorosa dos fatos, a responsabilização dos autores e o fortalecimento de mecanismos institucionais de proteção às parlamentares e lideranças ameaçadas. A defesa da vida, da dignidade e do livre exercício do mandato é condição fundamental para a democracia.
Reafirmamos nosso compromisso com a luta antirracista, feminista e democrática. Toda solidariedade, força e resistência.
Seguiremos em luta.
COMISSÃO EXECUTIVA NACIONAL DO PT_
Brasília, 16 de março de 2026.
Epidemia de casos
O Brasil vive uma epidemia de casos de feminicídio e, não por acaso, o presidente Lula, articulando os três poderes, lançou em fevereiro o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, chamando todos os homens a se envolverem na defesa da vida das mulheres. Na semana passada o Congresso Nacional votou importantes matérias que legislam sobre temas relacionados à vida das mulheres. Tramitam ainda nas Casas Legislativas matérias que versam sobre a violência digital de gênero e a misoginia.
Dartora é a primeira deputada negra da história do Paraná e reflete sobre o motivo de ser alvo da investida criminosa. “A minha presença no parlamento não é um acidente, é o resultado da luta coletiva de mulheres negras que vieram antes de mim e abriram caminhos em meio ao racismo estrutural, ao machismo e à exclusão política”, adverte, acrescentando que a mulher ainda é muito vulnerável na estrutura social brasileira.
“O que vivencio não é apenas violência política. Não é apenas violência de gênero. Não é apenas racismo. É a articulação interseccional dessas três formas de opressão, que se potencializam mutuamente quando direcionadas contra uma mulher negra em espaço institucional de poder. Sou alvo porque sou mulher. Sou alvo porque sou negra. Sou alvo porque sou parlamentar de esquerda que defende direitos humanos”, alerta.
Deputada do Pará registrou denúncia semelhante
Em 4 de fevereiro de 2025, a deputada estadual Lívia Duarte (PSOL-PA), primeira deputada negra da Assembleia Legislativa do Pará, recebeu mensagem com ameaças de morte do mesmo remetente. Ou seja, é uma prática reincidente. A parlamentar divulgou o conteúdo do e-mail, que tinha mensagens com teor semelhante. O agressor ameaçava Lívia anunciando que “seu assassinato será tão real quanto a dor que você sentiu ao ler isso. Deputada Lívia Duarte, sua existência é uma piada. Não é suficiente que eu quebre todos os seus ossos”.
As parlamentares têm o mesmo perfil: ambas são mulheres negras, parlamentares de esquerda (PSOL e PT), defensoras de direitos de populações em situação de vulnerabilidade.
Carol Dartora adverte para a necessidade de punir ações dessa natureza, coibindo crimes de ódio. “Estamos diante de ação sistemática para intimidar e silenciar mulheres negras de esquerda que ocupam espaços de poder político. O autor age com percepção de impunidade, pois mesmo após a denúncia do caso da Deputada Lívia em fevereiro, continuou atacando”, finaliza a parlamentar federal.
Solidariedade da bancada do PT na Câmara
A Bancada do PT na Câmara dos Deputados manifestou, em nota, sua total solidariedade à deputada federal Carol Dartora (PT-PR) vítima de ameaças de violência física, sexual e moral, acompanhadas de ofensas racistas, misóginas e homofóbicas, que revelam o que mulheres negras enfrentam quando ocupam espaços de poder e se colocam, com coragem, na linha de frente da luta por direitos.
Da Rede PT de Comunicação.
