Terras raras: o que são e por que defendê-las dos interesses estrangeiros?
Presentes em várias tecnologias do dia a dia, é preciso conhecer melhor sobre as riquezas naturais do país para evitar o ‘entreguismo’ sugerido pelo bolsonarismo
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Os chamados minerais de terras raras tornaram-se peça-chave na economia global e na disputa entre grandes potências. Por isso, o Brasil deve tratar o tema como estratégico, com foco na soberania nacional, industrialização e desenvolvimento tecnológico. O assunto volta à tona com as recente declarações do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que sinalizou a intenção de entregar a exploração desses minerais aos Estados Unidos.
O presidente Lula, por outro lado, tem defendido ferozmente as riquezas naturais e minerais brasileiras dos interesses estrangeiros. “Já levaram todo o ouro, toda a prata e todos os diamantes que o país tinha”, lembrou o petista.
O debate sobre esses minerais deixou de ser apenas técnico e passou a integrar o núcleo das decisões políticas e econômicas no mundo. O domínio sobre a produção e o processamento das terras raras influencia diretamente setores como energia, indústria, defesa e inovação, áreas consideradas centrais para o futuro dos países.
O que são terras raras?
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica. Apesar do nome, não são necessariamente escassas. A denominação está relacionada à complexidade de extração, separação e refino, que exige tecnologia avançada e alto controle ambiental.
A professora Vanessa de Freitas Cunha Lins, do Departamento de Engenharia Química e doutora em Engenharia Metalúrgica e Materiais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que esses elementos formam um conjunto específico dentro da química.
“Os elementos terras raras são um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica. São 15 lantanídeos, mais o escândio e o ítrio”, explica.
Presença no dia a dia e na transição energética
Os minerais de terras raras estão presentes em praticamente todas as tecnologias. Eles são utilizados na fabricação de celulares, computadores, televisores, baterias, veículos elétricos e turbinas eólicas.
De acordo com a professora Vanessa, o uso desses elementos se expandiu rapidamente nas últimas décadas: “Hoje, os elementos terras raras são muito usados em aplicações industriais e eletrônicas, como em celulares, telas, baterias, veículos elétricos e turbinas eólicas”, exemplifica.
Além disso, também aparecem em inovações como tintas inteligentes e são considerados indispensáveis para a transição energética global.
Disputa geopolítica e dependência internacional
O levantamento destaca que a importância das terras raras vai além da economia e alcança o campo geopolítico. Atualmente, a China concentra cerca de 69% da produção mundial, além de dominar o refino e a fabricação de componentes de alto valor agregado.
Esse cenário cria uma dependência internacional e amplia a disputa entre potências. “Os elementos terras raras se tornaram importantes na disputa entre China e Estados Unidos, porque a China detém quase 70% da produção mundial”, afirma Vanessa Lins.
Diante dessa concentração, países como os Estados Unidos buscam diversificar fornecedores, o que aumenta o interesse estratégico sobre nações com grandes reservas, como o Brasil.
Potencial brasileiro e desafio da industrialização
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial conhecida de terras raras, com depósitos em diferentes regiões. Apesar disso, ainda não desenvolveu uma cadeia produtiva capaz de transformar esse potencial em riqueza industrial.
Hoje, o país exporta principalmente matéria-prima bruta, sem realizar etapas mais lucrativas como refino e fabricação de produtos tecnológicos.
Para a professora Vanessa, da UFMG, esse modelo limita o crescimento econômico. “É muito importante o Brasil controlar a produção e o processamento dos elementos terras raras. Se o Brasil exportasse já os produtos acabados, o lucro seria muito maior”.
Com investimento em tecnologia e beneficiamento interno, o setor pode gerar impacto significativo no PIB nas próximas décadas.
Posicionamento global
Atualmente, a produção global de terras raras é altamente concentrada: a China responde por cerca de 69% da produção mundial, mantendo ampla liderança também no refino e processamento desses minerais. Outros países aparecem com participações bem menores.
Os Estados Unidos, por exemplo, têm pouco mais de 10% da produção global, enquanto o Brasil, apesar de possuir uma das maiores reservas do planeta, ainda tem participação marginal na produção mundial, com pouca inserção na cadeia industrial.
Um recurso decisivo para o futuro
Com o avanço da inteligência artificial e das tecnologias limpas, a demanda por terras raras tende a crescer de forma acelerada nos próximos anos.
Nesse contexto, o Brasil precisa decidir qual papel quer ocupar: continuar como exportador de matérias-primas ou avançar na cadeia produtiva, agregando valor e fortalecendo sua soberania.
Essa resposta passa por um projeto nacional de desenvolvimento que transforme recursos naturais em tecnologia, emprego e autonomia para o país.
Os elementos terras raras são:
Lantanídeos:
1 – Lantânio (La): usado em lentes ópticas, baterias e catalisadores industriais
2 – Cério (Ce): aplicado em catalisadores automotivos e em materiais de polimento
3 – Praseodímio (Pr): utilizado em ligas metálicas e ímãs de alto desempenho
4 – Neodímio (Nd): essencial para ímãs superpotentes usados em motores elétricos e turbinas eólicas
5 – Promécio (Pm): raro e radioativo, com uso limitado em baterias nucleares e pesquisas
6 – Samário (Sm): empregado em ímãs permanentes e reatores nucleares
7 – Európio (Eu): fundamental para telas de LED e televisores (cores vermelha e azul)
8 – Gadolínio (Gd): usado em exames de ressonância magnética e tecnologias médicas
9 – Térbio (Tb): aplicado em telas e dispositivos eletrônicos para melhorar cores e eficiência
10 – Disprósio (Dy): aumenta a resistência térmica de ímãs usados em carros elétricos
11 – Hólmio (Ho): utilizado em lasers e equipamentos médicos
12 – Érbio (Er): empregado em fibras ópticas e telecomunicações
13 – Túlio (Tm): usado em equipamentos portáteis de raio-x
14 – Itérbio (Yb): aplicado em lasers industriais e ligas metálicas especiais
15 – Lutécio (Lu): utilizado em tecnologia médica e em detectores de radiação
Outros elementos do grupo
16. Escândio (Sc): usado em ligas leves de alumínio para a indústria aeroespacial
17. Ítrio (Y): importante em LEDs, lasers e materiais cerâmicos avançados
*Entre parênteses estão como os elementos estão apresentados na tabela periódica.
Da Rede PT de Comunicação