Aos 84 anos, completados neste 26 de abril, Benedita da Silva se reinventa a cada ciclo, sempre apontando para a matéria que moldou sua trajetória: a coletividade. Durante o 8º Congresso Nacional do PT, Bené anunciou que é pré-candidata ao Senado em 2026. Sua fala atravessa o presente com a mesma energia que a fez começar.
“É desse lugar que eu coloco, mais uma vez, a minha candidatura. A velha Benedita, que completará 84 anos, tem ainda força e energia para poder continuar nesse meu partido querido e fazer desse momento mais um momento de entrega para que o povo brasileiro possa reconhecer que nasceu um partido que cuida dele e temos um governo que é quem criou esse partido e que está conosco todos os dias”.
O anúncio aconteceu durante o lançamento do manifesto “Cultura com Lula”. Benedita falou sobre como se inspira em sua vida na favela para atuar na esfera pública. Vereadora, deputada constituinte, senadora, governadora do Rio de Janeiro, ministra dos Direitos Humanos e fundadora do PT, ela relembrou o ponto de origem da sua atuação política.

“Eu me emociono muito porque eu vim desse movimento dentro da favela. Foi ali que eu comecei a representar a nossa própria miséria, a nossa própria desgraça e a nossa própria ideologia de reconhecer a nossa luta de raça, de classe, de gênero”, declarou.
Carioca de Chapéu Mangueira, ela declarou que entrou na política sabendo que precisaria brigar muito para encontrar seus espaços de atuação.
Entrei nessa vida aprendendo a gritar junto com quem veio dar a cara à tapa e porque quem não pode ou foi impedido de estar ali junto na luta. Eu aprendi política assim, brigando para chegar junto. Eu aprendi política porque quem é de favela, quem vem da periferia, sabe que uma voz não é ouvida por ninguém.”
Benedita diz que acredita na política da escuta, com presença e compromisso com aqueles que historicamente foram deixados à margem. Conectada com a vivência contemporânea, Benedita avisa que “para ser visto, tem que aquilombar, para poder falar de igual para igual.”
Neste sentido, ela define que sua atuação partidária é pautada pelo respeito aos princípios fundamentais do Partido dos Trabalhadores, mas reafirma que atua com independência, de acordo com suas convicções.
“Minha disciplina partidária e minha lealdade à unidade política não significam sujeição. Ser companheira é ter horizontalidade, é ter equivalência de posição. Ser companheira não é ter cabresto.”

Ao analisar a conjuntura política, aponta os riscos do avanço da extrema direita e critica a lógica que aposta no individualismo como solução para desigualdades estruturais.
“Enquanto isso, a extrema direita, com o seu pragmatismo oportunista, diz que não é mais para esperar por nada e nem por ninguém, que (…) é chutar o pau da barraca e desenganar de vez políticas públicas inclusivas, reparadoras, que alimentam a mamata, o coitadíssimo de e quem não quer vencer na vida e se encosta no Estado.”
E assim, no presente desigual, a extrema direita prega para cada um se virar sozinho, diz ela, “com uma arma na mão, com matança no atacado para limpar o terreno para a vida sobrevivente, […] com promoção de direitos eletivos, só para os vencedores, com propaganda do precarizado que vira empresário sem meios e financiamentos públicos, com a promessa de riqueza imediata com os jogos de azar.”
E completa, indicando o impacto direto dessas promessas sobre os mais vulneráveis.
“Quem nasceu precário e vive a vulnerabilidade, não tem como esperar mais nada. O futuro para a maioria da população é uma sucessão do hoje e do agora. É uma sucessão de presentes continuados. Falar do fascismo atacando a democracia de forma genérica é dizer, mesmo a contragosto, que instituições e autoridade vêm sempre na frente, vêm primeiro que o cidadão comum.”
A história de Benedita, por ser coletiva, é maior que ela mesma. Um retrato do PT. Benedita não retorna, sempre continua. E, ao continuar, convoca à ação.