A fraude do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, deixou de ser apenas um caso do mercado financeiro para atingir diretamente o núcleo político do bolsonarismo. Investigações da Polícia Federal, operações contra suspeitas de lobby e corrupção, relatórios enviados à CPI do Crime Organizado e documentos revelados pela imprensa mostram uma rede que conecta filhos de Jair Bolsonaro, ex-ministros, operadores de campanha, marqueteiros e aliados do Centrão ao entorno do banqueiro.
A teia passa por financiamento de projetos políticos, campanhas digitais contra o Banco Central, suspeitas de lobby no Congresso, contratos milionários de comunicação e até aplicações bilionárias de fundos públicos estaduais em ativos ligados ao conglomerado Master. A própria campanha presidencial de Jair Bolsonaro recebeu doações de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que também está preso pelas investigações sobre o escândalo bilionário de fraude financeira.
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), resumiu bem o caso:
“Não existe possível ligação entre os Bolsonaro e o Master: é uma coisa só”.
Veja o entorno de Jair Bolsonaro citado no escândalo do Banco Master:
Flávio Bolsonaro: o elo com Daniel Vorcaro
Reportagem do portal Intercept Brasil revelou que o senador, filho 01 de Bolsonaro, negociou recursos milionários com o banqueiro para financiar “Dark Horse”, cinebiografia do pai, planejada para o período eleitoral de 2026. Vorcaro repassou, no início de 2025, R$61 milhões para a produção do longa.
A revelação ganhou repercussão porque o senador havia tentado associar publicamente o escândalo do Banco Master ao governo Lula antes do vazamento das mensagens. Depois, admitiu reuniões com Vorcaro para tratar do financiamento privado do longa. Conversas divulgadas pela imprensa mostram tom de proximidade entre os dois. Em uma delas, Flávio escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
Eduardo Bolsonaro: recursos investigados nos EUA
O ex-deputado e também filho de Jair, Eduardo Bolsonaro, entrou no radar da Polícia Federal. Investigadores apuram se recursos ligados a Vorcaro, oficialmente destinados ao filme “Dark Horse”, foram usados para custear despesas da sua permanência nos Estados Unidos.
A PF suspeita que o financiamento da produção do filme possa ter ajudado a manter o bolsonarista no exterior, visto que os recursos enviados por Vorcaro chegaram em uma conta do advogado de imigração nos Estados Unidos e amigo de Eduardo, Paulo Calixto. O portal Intercept Brasil divulgou novas mensagens e um contrato em que Eduardo Bolsonaro aparece como produtor-executivo do filme.
Ciro Nogueira: ministro da mesada e “Emenda Master”
O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, apareceu nas investigações da Polícia Federal. As suspeitas de que o parlamentar teria recebido pagamentos mensais do banqueiro Daniel Vorcaro colocaram no centro das apurações um dos principais aliados do núcleo bolsonarista. A Polícia Federal também apura a atuação de Ciro na chamada “Emenda Master”, proposta apresentada no Senado para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, medida que beneficiaria diretamente bancos médios como o Master.
Fabio Wajngarten: de ministro a defensor de Vorcaro
O ex-secretário de Comunicação Social da presidência, Fabio Wajngarten, também aparece ligado diretamente ao banqueiro. Documentos enviados à CPI do Crime Organizado mostram que a empresa WF Comunicação recebeu ao menos R$ 3,8 milhões do Banco Master para atuar na defesa pública de Vorcaro. Wajngarten confirmou à imprensa que passou a integrar a equipe de defesa do banqueiro em 2025. Considerado o braço-direito de Jair no governo, o ex-ministro se mantém próximo do clã Bolsonaro até hoje.
Mário Frias: de ministro a produtor de “Dark Horse”
O deputado federal Mário Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e produtor executivo do filme “Dark Horse”, negou qualquer participação financeira de Daniel Vorcaro na produção da cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Depois, porém, recuou e admitiu que o filme recebeu recursos vinculados ao banqueiro preso. À CNN Brasil, o parlamentar afirmou que houve apenas uma “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”, alegando que os contratos teriam sido assinados com a empresa Entre Investimentos e Participações, parceira de negócios de Vorcaro, e não diretamente com o Banco Master.
Flávia Arruda: a ministra casada com o sócio de Vorcaro
Durante o governo de Jair Bolsonaro, Flávia comandou a Secretaria de Governo e se tornou uma das principais responsáveis pela articulação política do Palácio do Planalto com o Congresso Nacional, aproximando políticos do chamado Centrão ao bolsonarismo. Seu marido, Augusto Lima, que foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, foi preso em uma operação da Polícia Federal por suspeitas de corrupção, tráfico de influência e irregularidades envolvendo grupos políticos ligados ao Distrito Federal.
Claudio Castro: desvios no Rio e buscas da PF
O ex-governador do Rio de Janeiro Claudio Castro se tornou mais um foco de preocupação dentro do entorno bolsonarista após o avanço das investigações sobre o Banco Master e o Rioprevidência, o fundo de previdência do estado. A suspeita da PF é que o Rioprevidência tenha direcionado recursos de aposentados e pensionistas para ativos do Master, quando a instituição financeira já era investigada. Castro renunciou ao mandato e foi declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral, em março deste ano, por abuso do poder econômico e político.
Marcello Lopes: o marqueteiro e as redes
O publicitário Marcello Lopes, conhecido como “Marcelão”, foi citado em documentos apreendidos pela PF ligados a um suposto plano de ataques ao Banco Central articulado por Vorcaro. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o marqueteiro, recém-apontado como coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, recebeu R$ 650 mil do empresário Thiago Miranda, apontado como operador do chamado “plano DV”. A investigação aponta suspeitas de campanhas digitais e pressão pública contra dirigentes do Banco Central. Marcello Lopes negou participação em ataques coordenados e afirmou que os valores se referiam a dívidas antigas.