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A escala 6×1: na infância, pai ausente; na maternidade, a luta pra ficar com a filha

Recepcionista conta como escala exaustiva privou seu pai da convivência familiar. Ela vê na redução da jornada a chance de dedicar mais tempo à sua bebê

Aos 22 anos, Gabriela Aguiar, recepcionista de uma clínica médica, concilia os desafios da maternidade com os primeiros passos da carreira profissional. Mãe da pequena Lucy, de apenas um ano, a recepcionista celebra a oportunidade de trabalhar na área que gosta, da saúde, mas sente na rotina o peso da escala 6×1, que garante apenas um dia de folga por semana.

Agora, acompanhando o debate nacional sobre a redução da jornada de trabalho que está acontecendo no país, Gabriela vê a possibilidade de uma realidade diferente para sua filha e para milhões de trabalhadores brasileiros. Ela enxerga também a possibilidade de ter melhores condições para fazer a graduação que tanto sonha: estudar medicina.

“A maior dificuldade que eu encontro nesta escala 6×1 é o tempo com a minha família, com a minha bebê. O fim dessa escala trouxe pra mim a ideia e dignidade”, afirmou Gabriela, em entrevista à Rádio PT.

A falta de tempo com a filha desperta lembranças de sua própria infância, marcada pela ausência do pai, que passava a maior parte da semana trabalhando para sustentar a família e nunca tinha tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos.

“Eu passei a minha infância e adolescência sentindo falta do meu pai em momentos especiais, como apresentações da escola. Não era porque ele não queria estar presente, mas porque precisava trabalhar para garantir uma vida digna para mim e para os meus irmãos”, relata.

Mulheres trabalham mais

A realidade vivida por Gabriela reflete a experiência de milhares de mulheres no país. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, mostram que a soma do trabalho remunerado com as tarefas domésticas e de cuidados chega a cerca de 58 horas semanais para as mulheres. Entre os homens, essa carga total fica em torno de 50 horas.

A diferença ocorre porque, além das atividades profissionais, as mulheres dedicam aproximadamente o triplo do tempo aos trabalhos não remunerados realizados dentro de casa.

Nesse contexto, a redução da jornada é vista por movimentos sociais, sindicatos e parlamentares como uma medida capaz de melhorar a qualidade de vida e reduzir desigualdades históricas.

Avanço histórico na Câmara

Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas.

A deputada federal Jack Rocha (PT-ES), coordenadora da Bancada Feminina na Câmara, comemorou a aprovação da proposta e destacou os impactos da medida para as mulheres trabalhadoras.

Segundo a parlamentar, a redução da jornada e o fim da escala 6×1 representam uma pauta humanitária, especialmente para mulheres que acumulam responsabilidades profissionais, domésticas e familiares.

“A vida não tem hora extra. Para ter vida além do trabalho é necessária uma agenda de recuperação de direitos”, afirmou durante a votação da proposta.

Como fica a nova jornada

O texto aprovado estabelece a adoção da escala 5×2, garantindo dois dias de descanso por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos. A proposta também assegura a manutenção integral dos salários e permite ajustes específicos por meio de negociações coletivas, desde que seja respeitado o limite de 40 horas semanais.

A transição será realizada em duas etapas. A carga horária deverá cair de 44 para 42 horas semanais ainda em 2026, até 60 dias após a promulgação da emenda. No ano seguinte, a jornada passará para 40 horas.

Agora, a proposta segue para análise do Senado Federal e integra as prioridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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