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‘A desinformação golpeia as eleições e a própria democracia’

A política tem se tornado o espaço da circulação de desinformação, da produção de fake news, sendo difícil separar o joio do trigo. Triste realidade para a democracia

Foto: Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

Os temas ligados à política e às eleições são os que os brasileiros mais vinculam às fake news. Esse resultado faz parte de um estudo realizado pelo Aláfia Lab, laboratório independente de pesquisa sobre internet, feito com 1.512 entrevistados de todo o país. A margem de erro foi de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi divulgada em junho pelo jornal O Globo.

Entre os entrevistados, 43% afirmaram que encontram mais fake news sobre política do que sobre outros temas. Ainda de acordo com o levantamento, 58% disseram conseguir identificar notícias falsas, mas  “com dúvidas”; 29% afirmaram que conseguem identificar as fake news “com facilidade”; enquanto 13% disseram não saber identificar desinformação. Pessoas com mais escolaridade, jovens e homens são os públicos que afirmaram identificar fake news com mais facilidade. 

O levantamento do Aláfia Lab revela dois aspectos que considero bastante desafiadores para a democracia. O primeiro é o estabelecimento de uma associação direta entre política e fake news – a política vai se tornando o espaço da circulação de desinformação, da produção de fake news, e isso contamina o campo como um todo, não sendo mais possível separar o joio do trigo. Para a democracia, é uma triste realidade.

O segundo aspecto refere-se aos públicos mais vulneráveis – mulheres, pessoas com menos escolaridade, idosos –, que são aqueles que têm mais dificuldade em identificar fake news. Em contrapartida, são esses os públicos mais expostos aos conteúdos mentirosos e que mais facilmente acreditam neles.  

Desinformação e eleições

Publicado no final do ano de 2022, o estudo “O Ambiente da desinformação em torno das eleições”, desenvolvido pelo International Institute for Democracy and Electoral Assistance (IDEA), abordou os impactos específicos da desinformação nos processos eleitorais.

A pesquisa mapeou mais de 900 casos de desinformação relativos a eventos eleitorais nacionais em diversos países. De acordo com a apresentação da pesquisa, no site do Instituto (https://www.idea.int/theme/information-communication-and-technology-electoral-processes/information-environment-around-elections), foram mapeadas e analisadas “práticas nocivas no espaço de informação online e seu impacto sobre indivíduos, processos e organizações na área de gestão eleitoral, visando embasar políticas, ações e medidas de apoio à resiliência de autoridades e instituições eleitorais em geral — e, em particular, de mulheres e de segmentos vulneráveis ​​e historicamente marginalizados”. 

Os organizadores consideraram como práticas nocivas no ambiente de informação eleitoral “a geração e/ou manipulação de conteúdo com potencial para impactar negativamente a gestão e a organização dos pleitos — afetando indivíduos em seus diversos papéis (muitas vezes sobrepostos) ao longo do ciclo eleitoral, bem como os processos e organizações eleitorais”.

No estudo, a desinformação especificamente voltada às eleições, envolvendo tanto processos, quanto organizações e/ou indivíduos, foi definida como um conteúdo falso ou enganoso, produzido e disseminado para influenciar o público e provocar atitudes e comportamentos negativos em relação à condução das eleições e aos seus resultados. 

De acordo com o levantamento, as campanhas de desinformação eleitoral podem impactar os eleitores e os processos em três frentes:

  1. Percepção que o eleitor tem do processo:

– Essas campanhas alteram a percepção do público em relação à capacidade profissional, imparcialidade e transparência dos funcionários eleitorais e lançam dúvidas sobre a imparcialidade do processo eleitoral e a exatidão dos resultados eleitorais.

  1. Atitudes:

– As campanhas de desinformação geram desconfiança dos eleitores, promovem a  confusão sobre como e onde as pessoas podem exercer seus direitos eleitorais e levam à não aceitação dos resultados das eleições.

  1. Os comportamentos do eleitor perante as eleições:

– A desinformação sistematizada no âmbito eleitoral pode promover violência eleitoral, intimidação, agressão e outros tipos de comportamento maligno direcionados a funcionários eleitorais, resultando em perda de conhecimento e competência organizacional; além de divisão social e agitação.

Em resumo, as campanhas de desinformação nos processos eleitorais: alteram a percepção do público em relação à capacidade e à imparcialidade das autoridades eleitorais; promovem desconfiança e confusão em relação aos resultados; levam à manifestação de violência eleitoral, com intimidação de pessoas que atuam nas eleições e o questionamento em relação aos processos.

De acordo com a pesquisa do Instituto IDEA, no universo dos países pesquisados, o Brasil só perde em desinformação eleitoral para a Índia. Portanto, o ecossistema de desinformação é uma engrenagem complexa e dinâmica que se consolidou no país e que se fortalece a cada eleição, apesar das ações para combatê-lo. Nesse cenário, a desinformação, cada vez mais, é usada como estratégia política.

Educação midiática é o antídoto

Segundo o estudo do Aláfia Lab, a maioria das pessoas entrevistadas acredita que sabe identificar fake news, mesmo com algumas dúvidas. Será que isso é realmente efetivo?

A realidade desafiadora apontada tanto pela pesquisa do Aláfia Lab quanto pelo estudo do IDEA mostra, de modo muito claro, que as pessoas estão cada vez mais vulneráveis, cada vez mais expostas a uma realidade muito nociva, que se dinamiza a cada instante e que potencializa suas estratégias.

E os cidadãos estão nessa arena sem as ferramentas adequadas de enfrentamento, daí a carência e a necessidade de ações estruturadas e dinâmicas de educação midiática, em todos os níveis e grupos da população e abraçando uma grande pluralidade de temas e nichos. 

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).