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‘A escuta das evangélicas, um resgate desse atoleiro da desinformação no Brasil‘

Caminho percorrido pela primeira-dama Janja, em conversas com mulheres evangélicas, é ação que vai na linha oposta dos falsos profetas

Foto: Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

A primeira-dama Janja Lula da Silva deu início, em outubro do ano passado, a um movimento muito importante para a construção de pontes e o estabelecimento de diálogo com um público bem específico. Durante alguns meses, ela viajou por várias cidades de diversas regiões do Brasil para se encontrar com mulheres evangélicas e escutá-las, entender seus medos e anseios, ouvir suas dúvidas e suas angústias, partilhar conquistas. 

Os leitores mais apressados podem estar se perguntando: mas o que, afinal, esse recorte tem a ver com a discussão sobre desinformação? Tudo. Porque a desinformação, ou o ecossistema de desinformação consolidado no Brasil, tem como uma das ações efetivas exatamente o inverso dessa ação, ou seja, a derrubada de pontes e a eliminação do diálogo por meio de várias estratégias como exploração do medo, construção de pânico, disseminação de mentiras, construção da ideia de um inimigo a ser eliminado.

As inúmeras redes de desinformação instrumentalizam a fé e os valores ligados à família para manipularem as mulheres evangélicas, com a divulgação de conteúdos mentirosos, narrativas falsas e medo. 

Além disso, os falsos profetas que dominam os púlpitos usam uma estratégia muito eficiente e poderosa: o silenciamento, o ato deliberado e calculado de impedir que a voz do outro circule, apareça. Outra estratégia poderosa nesse cenário é a alimentação do medo, que impede as mulheres de verem as várias nuances de um tema, um assunto, e de enxergarem seus problemas e as possibilidades de resolução – fica mais fácil, então colocar tudo nas mãos do pastor…

Como vemos, a desinformação é um agente fundamental para a manutenção do poder, e para isso, em muitos cenários, usa o comboio medo + silenciamento + mentiras.  

Um exemplo é a eleição de 2022. Naquele contexto, a então primeira-dama Michelle Bolsonaro usou uma estratégia bastante eficaz para manter o eleitorado evangélico cativo, sobretudo o feminino: a construção da figura de um demônio a ser combatido.

A ideia foi lançada em um culto em Belo Horizonte-MG, ao lado do marido, quando ela disse que havia no Brasil uma “guerra do bem contra o mal” e que o Palácio do Planalto já foi um lugar “consagrado aos demônios”. 

Como discurso se apoia na retroalimentação para circular e se fortalecer, o pastor bolsonarista Marco Feliciano seguiu a linha e disse, naquele momento, que o PT era expressão do mal e que, se Lula ganhasse, iria fechar templos e igrejas e calar os pastores. E para completar as ações naquele ano, também circulou pelas redes sociais um vídeo manipulado que simulava que o ex-presidente Lula conversava com o demônio. Em curso, a estratégia da disseminação do medo e do pânico para conquistar adesão.  

As evangélicas se posicionam contra os falsos profetas

No 4º Encontro de Evangélicas e Evangélicos do PT, realizado em junho, Janja afirmou um ponto muito importante ao dizer que “as dificuldades que as mulheres nos seus territórios sentem são as mesmas de uma mulher progressista e de uma mulher de direita. Não existe essa separação”.

Ou seja, as mazelas de uma sociedade desigual atingem em cheio as mulheres, seja qual for a coloração ideológica; são as mulheres as que mais sofrem em qualquer contexto político, e são também as mais silenciadas, ao longo dos séculos.

A primeira-dama Janja foi convidada a participar do 4º Encontro de Evangélicas e Evangélicos do PT.Foto: Divulgação

No campo religioso, um bom exemplo é a figura de Maria Madalena, resgatada por Jesus, que também evidencia o papel das mulheres na Bíblia. A pastora Andreia Fernandes, da Igreja Metodista do Brasil, em São Paulo, que é teóloga, mestra e doutora em Educação, discute a figura de Maria Madalena em artigo no livro “Jesus Cristo e os direitos humanos”. Entre vários aspectos, ela toca num ponto fundamental ao ressaltar que “para obedecer a lei de Deus, é preciso conhecer, refletir, eliminar os discursos religiosos opressores”.

Discursos opressores que, assim como os falsos profetas, querem silenciar o feminino, querem impedir que as vozes que clamam por igualdade de condições, respeito, fim da violência e mais espaço possam circular livremente, por isso, apelam a estratégias como o medo, o silenciamento e o desmerecimento público.

Foi que fez, por exemplo, o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ao dizer que dava risada dos encontros da primeira-dama com as mulheres evangélicas e reforçar que os encontros de Janja não tinham “nenhuma mulher de expressão no mundo evangélico”.

A primeira-dama rebateu, durante o 4º Encontro de Evangélicos do PT, e ressaltou:

“Ele falou que eu estava conversando com mulheres insignificantes. Insignificante é ele. Porque toda mulher para mim é importante. Não importa se fiz uma reunião com duas, três, duzentas ou mil. O importante é que conversei, ouvi elas”.

O embate gerou reação imediata nas redes sociais. Levantamento da AtivaWeb DataLab, que analisou dados do Facebook, Instagram, X e TikTok, identificou 5,3 milhões de menções ao confronto entre Janja e Malafaia em apenas 10 horas, o que transformou o embate num dos temas políticos mais discutidos das redes.

Segundo o levantamento, divulgado pela revista Veja, as postagens favoráveis à primeira-dama são quase três vezes superiores às postagens relativas ao pastor: 64,3% das postagens foram favoráveis a Janja, 23,9% apoiaram Silas Malafaia, e 11,8% foram neutras. Ainda segundo o levantamento, notou-se a presença ativa de grupos femininos e evangélicos progressistas na disputa de narrativa. 

A verborragia de Silas Malafaia – pastor cuja biografia e ações podem ser compreendidas pelo documentário “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa – contra a primeira-dama ilustra a reação a um aspecto que começa a crescer como uma onda: várias das bandeiras bolsonaristas de extrema direita, como a defesa do uso de armas e a própria submissão aos homens em qualquer situação, mesmo de violência, não estão mais empolgando nem convencendo tanto as mulheres evangélicas, e isso está evidenciado pelas pesquisas de opinião.

Portanto, como reação, a truculência de algumas falas e movimentos aumenta. E é exatamente nesse contexto, e sob inspiração das mulheres que se sobressaem na própria narrativa bíblica, que a construção de um diálogo franco, amplo e verdadeiro ganha muito espaço, como têm provado os encontros da primeira-dama com as mulheres evangélicas pelo Brasil.

Porque o diálogo possibilita, entre outras coisas, o resgate das pessoas – sobretudo as mulheres – desse atoleiro de desinformação e mentiras para o qual o Brasil foi empurrado. A desinformação instrumentaliza as crenças, e isso impacta as mulheres porque não possibilita a elas que tenham consciência da sua importância e do seu papel – para os profetas do apocalipse, o bom é que sigamos como “insignificantes”. 

Há um embate por valores e, mais do que isso, há o desnudamento dos falsos profetas que distorcem e usam os valores cristãos, da verdade e da vida para manipularem, enganarem e manterem seu poder.

Nesse contexto, a escuta é, mais do que nunca, fundamental para pavimentar um caminho verdadeiramente democrático.  

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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