Religioso católico reconhecido, 84 anos, compositor e comunicador, expoente da Doutrina Social da Igreja e que marcou gerações de fiéis com suas canções. Esse é o perfil de Padre Zezinho, alguém que, aparentemente, jamais seria atacado em redes sociais. Certo? Mas, a máquina de moer reputações do ecossistema de desinformação não poupa ninguém e, ao contrário do que seria o razoável, é exatamente o que está acontecendo com Padre Zezinho. Ele tem sido duramente atacado no ambiente digital por campanhas de difamação e ataques de ódio que tentam manchar sua reputação e sua atuação como sacerdote.
Essa conduta, infelizmente, não chega a ser novidade – já no período eleitoral de 2022 ele era atacado exatamente por defender a justiça, combater a desigualdade e se posicionar contra o ambiente tóxico das redes.
Naquele momento, Padre Zezinho chegou a interromper sua página no Facebook e saiu das redes sociais. Passadas as eleições, aos poucos, ele foi retornando às redes e retomando suas ações e as publicações. E os ataques também voltaram e se intensificaram. E ganharam robustez a partir de 9 de maio deste ano, quando Padre Zezinho reproduziu em seu perfil no Facebook um texto do professor Romero Venâncio, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), do Núcleo de Ciências da Religião, que apontou o dedo para os extremistas que usam a religião, ao abordar o tema “A CNBB, a direita católica de plantão e as redes digitais. 10 pontos”.
No texto, o professor Romero critica a escalada de extremistas católicos nas redes sociais e ressalta: “Acredito que a direção principal da CNBB não vai sair de seu lugar para ‘bater boca’ em rede digital com grupos agressivos de católicos tradicionalistas. Vontade até podem ter, mas sabem que esse não é o melhor caminho. Talvez seja o pior. Mas não fazer nada e assistir como se nada estivesse acontecendo não ajuda em nada diante da escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais e já chegando ao tecido social do catolicismo brasileiro. Uma coisa é certa: o estrago é grande devido à agressividade, à estridência e aos ataques de uma extrema direita católica aboletada nestas redes digitais e seu “método” de ação (que chamam equivocadamente de ‘apostolado’)”.
A reação contra Padre Zezinho veio feroz. Ele foi atacado, acusado de ser “comunista”, chamado de “câncer da Igreja”, teve a imagem usada em memes e cards com muitas mentiras. Mas não se calou nem se intimidou diante das milícias: “A internet virou um lugar de xingamento. Quem tem medo dessa gente acaba silenciando. Quem estudou os Evangelhos sabe que Jesus poucas vezes se calou. Em geral, ele respondia. Ele era manso e gentil. Os inimigos é que não eram. Mas quem perdeu acabou vencendo e quem achou que venceu acabou perdendo. Os discípulos agressivos (…) que pedem fogo do céu contra quem os ouve, um dia perderão. Os mansos herdarão a terra (… ) Os radicais perderão. A era do diálogo fraterno virá! Os xingadores perderão!”.
Moer reputações e espalhar discurso de ódio
O caso recente com um expoente importante da Igreja Católica – lembrando que Padre Zezinho não é o único a ser atacado, há muitos exemplos de figuras religiosas alvos de ataques de ódio, como Padre Júlio Lancelloti e Padre Ionilton, duramente atacados nas redes sociais pelo trabalho pastoral e evangélico – mostra a máquina de desinformação em pleno funcionamento.
Sim, porque disseminar discurso de ódio e espalhar mentiras para destruir reputações são estratégias que fazem parte das ações do ecossistema de desinformação, para além de criar e espalhar fake news. E além do resultado óbvio de manchar a imagem de pessoas por meio de inverdades, a disseminação de mentiras para manchar as reputações usam o medo para calar as vozes dissonantes, as vozes que ousam apontar o dedo e dizer “isso não é correto”.
Quanto ao discurso de ódio, ele cumpre a função de impedir o diálogo, a exposição de ideias contrastantes, a oposição saudável. Exposto à calúnia que se dissemina em grande velocidade, o indivíduo fica cerceado, impedido de expor uma ideia, um problema, uma discordância. Tudo o que é saudável numa democracia.
No caso de Padre Zezinho, um canal chegou a criar uma página fake do religioso no Facebook para espalhar mentiras e manchar a reputação religiosa do padre, como ilustram essas peças abaixo:
O exemplo dos ataques a Padre Zezinho e a outros expoentes da Igreja Católica, recentemente, mostra que essa máquina de desinformação não poupa ninguém – é como um Grande Irmão, para lembrar George Orwell e sua obra-prima 1984, que paira sobre todos nós a observar o que estamos dizendo e a apontar a arma contra aquele que ousou falar diferente, e este será duramente atacado.
Por isso, o apelo feito por Padre Zezinho em sua página (a verdadeira) é urgente e necessário:
“O que está vencendo? As Teologias do Domínio, da Prosperidade, do Sucesso. As Teologias da Solidariedade, da Reparação e da Partilha estão perdendo. Discordem se quiserem, mas tentem pensar comigo! É ou não é possível sermos mais fraternos? Seguiremos Trump , Putin e os grupos terroristas que invadem e matam os líderes dos outros povos sob o pretexto de LIBERTAR a outra nação que, por coincidência, tem petróleo e terras raras? Viveremos para sempre em trincheiras religiosas e ideológicas? Ou religiões, igrejas e partidos aprenderemos a VIRTUDE DO DIÁLOGO?”.
Diálogo, infelizmente, é tudo o que esses grupos de extrema direita, que pregam intolerância e eliminação do oponente, não querem.
A religião como canal de eliminação do “inimigo”
Nessa máquina de desinformação em funcionamento, é inquietante pensar que o discurso de ódio usa a fé e a religião, ou a pregação religiosa, para se propagar, difundir mentiras e promover ataques.
Em 2022, o Papa Francisco foi duramente atacado por seu posicionamento em favor da justiça social. Em 2026, o Papa Leão XIV foi duramente atacado e ofendido por se posicionar contra a matança das guerras.
Além deles, bispos, padres e outros religiosos também o foram por se manifestarem contra o ódio e a perseguição e em favor dos mais pobres, e foram atacados por fiéis, pessoas que se dizem religiosas, mas que aderem ao discurso de ódio e às táticas de desinformação para agredir e calar.
Em comum entre todos os religiosos citados, há a defesa da vida e da justiça social. Valores que não estão na pauta dos grupos extremistas que usam as religiões para impor, a ferro e a fogo, suas certezas torpes.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

