(*) Por Eliara Santana
O escândalo do Banco Master e as relações perigosas com a família Bolsonaro ganharam contornos mais escandalosos após nova reportagem do Intercept Brasil informando que o dinheiro dado por Daniel Vorcaro a Flávio não havia ido para o filme, mas sim para um fundo gestor administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro e que o grande administrador era, na verdade, o próprio deputado cassado, foragido nos EUA. Desde então, explodiram memes e piadas dizendo que os filhos de Bolsonaro conseguiram enganar até um banqueiro preso por corrupção.
Todas as especulações são importantes, e os memes são bem engraçados – não fosse essa realidade trágica para a saúde democrática. Mas as pulgas atrás da orelha ficaram ouriçadas demais com fios soltos, conexões e alguns aspectos que acabam passando despercebidos.
Desde 2018, jamais se pode menosprezar o potencial perigoso dessa família. Façamos o exercício da ligação de alguns pontinhos:
Primeiro ponto: há uma articulação da extrema direita no mundo que usa pautas conservadoras, a defesa de valores e o nome de Deus para camuflar o interesse pela disputa política e pelo estabelecimento de um projeto de poder ultraconservador. Esse movimento, fortalecido pelo nacionalismo cristão dos EUA, que blindou Donald Trump e garantiu também sua eleição, nos Estados Unidos, tem os dois olhos voltados para o Brasil. Essa articulação envolve atores políticos, estrategistas que atuam em vários países e têm cartilhas muito orientadoras (como Olavo de Carvalho e Steve Bannon), diversas estratégias de mobilização e criação de mentiras (como campanhas coordenadas de desinformação, campanhas de ódio contra determinadas personalidades, firehose), uso de ferramentas de ponta como IA e disseminação multiplataforma de suas criações.
Segundo ponto: com a instauração do Gabinete do Ódio em 2019, o Brasil se tornou uma vitrine de desinformação para o mundo, gostemos ou não dessa realidade. É um case muito bem-sucedido de produção e disseminação de narrativas mentirosas, discurso de ódio, estratégias de destruição de reputações, narrativas distópicas, um verdadeiro laboratório de realidade paralela. No Consórcio Internacional de Países Produtores de Fake News, o Brasil tem assento cativo e posição de destaque. Exatamente por isso, as eleições brasileiras excitam as nações talvez mais do que a Copa do Mundo. Só para lembrar um dado nesse cenário: segundo a pesquisa “O Ambiente da desinformação em torno das eleições”, desenvolvido pelo International Institute for Democracy Electoral Assistance (IDEA) e publicado no final de 2022, que fez uma abordagem relativa aos impactos da desinformação nos processos eleitorais, o Brasil só perde para a Índia em termos de desinformação eleitoral.
Terceiro ponto: a família Bolsonaro mantém muito viva a interlocução com religiosos cristãos e movimentos conservadores fora do Brasil, sobretudo nos EUA, e marca forte presença na constituição dessa articulação internacional da extrema direita. Em fevereiro de 2023, Jair Bolsonaro teve um encontro com integrantes da Universidade Cristã da Flórida (FCU) e com lideranças religiosas da comunidade brasileira. Na pauta, valores conservadores, valores cristãos e… o futuro da direita no mundo.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, manteve sempre uma fina articulação com líderes religiosos ultraconservadores nos EUA e em outros países. Desde 2023, ele participa de muitos eventos nesse escopo, além de cultos como orador. Em Orlando está localizada a igreja Lagoinha Orlando Church, que se dedica aos brasileiros no exterior e é liderada pelo pastor André Valadão – amigo de Daniel Vorcaro e líder da Igreja batista da Lagoinha. A pauta de Eduardo, nesse espaço religioso vai da guerra cultural a falas sobre valores cristãos e moral conservadora, passando, claro, ela política brasileira, quando ele recebe apoio para tramar contra o país.
Em janeiro de 2022, segundo reportagem de Guilherme Amado no Metrópoles, Eduardo foi convidado por André Valadão a falar na Orlando Church. A igreja já havia recebido o foragido Allan dos Santos, que continua nos EUA arquitetando contra a democracia brasileira. O convite a Eduardo foi feito como preparação para “os tempos de guerra” que viriam, no dizer do pastor Brasil.
Após o segundo turno das eleições daquele ano, segundo reportagem da Agência Pública, Eduardo manteve uma agitada agenda de viagens internacionais e encontros com estrategistas e representantes de plataformas para garantir a narrativa de que as eleições haviam sido fraudadas, levada aos quatro ventos pela hashtag “Brazil was stolen”. Nos EUA, informou a reportagem, ele se reuniu com o então ex-presidente Donald Trump, conversou com o estrategista Steve Bannon e almoçou com o antigo porta-voz de Trump, Jason Miller, fundador da rede social Gettr.
Quarto ponto: esse mix valores conservadores + suposta pregação do Evangelho + defesa dos valores cristãos + religião + prática política é muito bem trabalhado por aqui. Um exemplo é o livro de Nikolas Ferreira, “O cristão e a política” (por favor, não leiam rsrs), em que ele afirma que o cristão deve sim ocupar seu lugar na política porque, se não o fizer, o capeta ocupa. Fica o recado. As articulações feitas não são apenas por afinidade religiosa e com vistas a garantir a observação de valores pelos candidatos. Isso é o que se vende. Na verdade, trata-se de um projeto de poder que passa pelo combo desinformação + religião + política + financiamento.
Talvez mais adiante, com o avanço das investigações sobre o escândalo revelado recentemente, vamos descobrir que o filme sobre Jair Bolsonaro foi usado não apenas como um carinho de filhinho para papai ou para manter Eduardo Bolsonaro nos EUA tramando contra o Brasil e as instituições brasileiras.
O filme, quem sabe, foi uma peça para garantir os recursos iniciais para um Gabinete do Ódio Made in USA. Poderoso e capaz de garantir uma sobrevivência decente e atuante da família Bolsonaro, vinculada a essa articulação internacional de extrema direita.
O que garantiria também a exportação do modelo brasileiro de desinformação para outros horizontes.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).