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‘A mentira do clone do presidente e uma crença longe de ser piada’

Num país altamente conectado como o Brasil, campanhas de desinformação afetam a percepção das pessoas sobre a realidade factual e os temas da vida, como uma eleição

Foto: Arte: João Firpe

(*) Por Eliara Santana

Parte dos eleitores brasileiros acredita que o presidente Lula é um clone ou foi substituído por um sósia. Essa é a mais nova revelação da pesquisa divulgada pelo grupo Meio/Ideia no dia 5 de agosto, que constatou essa “crença” em 12,5% dos entrevistados. Outros 28,5% não sabem ou não responderam; 58,9% acreditam que essa proposição é uma fantasia.

Em suma, os dados da pesquisa revelam que uma parcela da população brasileira acredita firmemente que o presidente Lula não é o presidente Lula, e sim um clone. Ou seja, UM em cada OITO eleitores. A pesquisa também mostrou que os homens acreditam mais na mentira do clone: 15,4% dos homens, contra 9,9% das mulheres. Entre os bolsonaristas, 20,2% consideram que a história é verdadeira; entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 18,3% acreditam.

A mentira do clone do presidente surgiu após a campanha de 2022 e contou com uma série de recursos, como vídeos manipulados, montagens de fotos, áudios, além da narrativa de que seria impossível a um homem com a idade de Lula (quase 80 anos à época) fazer tudo o que ele fazia. A narrativa falsa também conta que Lula teria morrido durante uma cirurgia e que o clone foi produzido em laboratório com a ajuda de chineses e dinheiro de bilionários.

Os dados apresentados pela pesquisa Meio/Ideia podem até suscitar risadas, deboches, podem parecer piada, suscitar memes. Mas essa realidade mostrada pela pesquisa está longe, muito longe de ser engraçada. Por isso, eu quero problematizar esses dados a partir da conexão com outros dados e reflexões.

O primeiro é o conjunto trazido pelo levantamento da PNAD Contínua, que foi divulgado no começo de julho. Ele mostra que, em 2025, a proporção de usuários da internet no país ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais. 

Alguns pontos em destaque da sondagem:

  • Em 2025, na população estimada de 186,4 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade do País, 90,5% (168,7 milhões) utilizaram a Internet no período de referência dos últimos três meses, ultrapassando, pela primeira vez, o patamar de 90% de usuários, na média nacional.
  • Nas Grandes Regiões, verificou-se que a Centro-Oeste (93,6%) se manteve com a maior proporção de pessoas que utilizaram a Internet.
  • No País, 91,1% das mulheres utilizaram a Internet em 2025, um pouco acima do percentual apresentado pelos homens (89,9%).
  • O uso da Internet permanece menor entre os idosos de 60 anos ou mais, com 74,5% de usuários, em 2025. No entanto, tal grupo etário apresenta uma acelerada expansão do uso da internet, com aumento de 4,4 pontos percentuais (p.p.) em relação a 2024.
  • Em 2025, entre as pessoas de 10 anos ou mais de idade que utilizaram Internet no período de referência dos últimos três meses, 95,6% usavam de forma habitual todos os dias.

O segundo aspecto nessa tentativa de estabelecer uma conexão refere-se a uma abordagem que já discutimos envolvendo os impactos dos enxames de IA na democracia. Relembrando, enxames de IA são redes coordenadas de contas autônomas controladas que podem ser usadas para influenciar dinâmicas coletivas e moldar a opinião pública.

Segundo os pesquisadores, que publicaram o artigo na revista Science em janeiro deste ano, “no ambiente de informação fragmentado de hoje, as câmaras de eco ideológicas oferecem terreno fértil para manipulação. Enxames de IA estão singularmente equipados para explorar isso, criando um consenso sintético que aparenta preencher essas divisões. Eles podem disseminar narrativas em nichos díspares, criando uma ilusão de concordância majoritária. Também podem reforçar essa ilusão curtindo publicações, fazendo com que as narrativas pareçam amplamente apoiadas. Os cidadãos, então, atualizam suas opiniões com base em normas de pares, mais do que em evidências. Um coro de vozes aparentemente independentes cria uma miragem de consenso bipartidário popular com maior velocidade e poder de persuasão. O resultado é uma manipulação profundamente enraizada que permite aos operadores influenciar o discurso público de forma quase invisível ao longo do tempo”.

O terceiro aspecto que quero ressaltar é uma constatação apresentada pelo Reuters Institute Digital News Report 2025: muitos brasileiros confiam mais em personalidades e criadores de conteúdo nas redes (influenciadores) do que em veículos jornalísticos tradicionais. 

Um quarto ponto é o trazido pela pesquisa Truth Quest (“Questionário da Verdade”, em tradução livre), que foi realizada e divulgada pela OCDE em 2024. A sondagem avaliou a capacidade de adultos reconhecerem notícias falsas e desinformação online. Foram entrevistados mais de 40 mil adultos em 21 países – O Brasil ficou na última posição do ranking, com uma taxa de acerto de 54%, abaixo da média global de 60%.

Por fim, a afirmação da pesquisa “O ambiente da desinformação em torno das eleições”,  publicada em março de 2023 pelo International Institute for Democracy Electoral Assistance (IDEA): as campanhas de desinformação impactam a percepção que o eleitor tem do processo e lançam dúvidas em relação a diversos aspectos. 

Feitas as considerações, vamos à indagação: de que maneira esses dados se vinculam ao resultado apresentado pela pesquisa Meio/Ideia mostrando que um em cada oito eleitores brasileiros acredita que o presidente da República é um clone?

Infelizmente, há uma correlação muito direta entre todos esses resultados. O Brasil é um país altamente conectado, com mais de 90% de sua população utilizando a internet; essa população se informa prioritariamente pelas redes sociais e acredita piamente mais em influenciadores do que em jornalistas; essa massa está submetida aos enxames de IA e às campanhas permanentes de desinformação e não tem condições de identificar se uma mensagem ou notícia é verdadeira ou falsa; as campanhas de desinformação impactam a percepção dessas pessoas em relação à realidade factual, aos temas da vida – como uma eleição –, comprometendo a capacidade dos eleitores de formular um pensamento minimamente crítico e de decidir livremente o seu voto. 

Um dado que deveria nos apavorar

Ou seja, ao invés de provocar risos ou levar ao deboche, o dados de que 12,5% por cento dos brasileiros acreditam que o presidente Lula é um clone deveria nos apavorar, porque uma parcela expressiva da população está sendo enganada de modo muito eficaz, não consegue discernir entre verdade ou mentira, está formando uma percepção da realidade completamente distorcida e equivocada, sendo profundamente impactada em suas escolhas e sem entender que é manipulada. 

Não há dados, não há evidências, não há rumores de pesquisas, não há qualquer tipo de confirmação de que existam clones em qualquer lugar do mundo. Mesmo assim, a “crença” de que o presidente da República que ocupa o Planalto é na “verdade” um clone permanece firme e forte – e circula com muita capilaridade.

A mesma arquitetura de desinformação que leva pessoas a acreditarem na história do clone também induz a população a acreditar que a vacina inocula um chip em nós para monitorar tudo o que fazemos, ou que, quando a pessoa vota na urna eletrônica e digita um número, ele é automaticamente substituído pelo 13.

Longe de ser piada, tudo isso deveria ser um alerta grave para todo o conjunto da sociedade.   

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).