Há histórias que marcam um país e precisam ser contadas por quem esteve lá, dividiu a esperança e ajudou a construir, com as próprias mãos, o que parecia quase impossível. Djalma Bom, sindicalista aposentado e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, estava ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, no fim da década de 70, nas greves dos metalúrgicos do ABC Paulista, em plena ditadura militar. Em entrevista à Rede PT de Comunicação, ele relembra alguns momentos e reforça a importância da liderança de Lula para um próximo mandato.
O Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, onde Lula liderou os trabalhadores, será, neste domingo, dia 16, mais uma vez palco da história: às 9h, o presidente lança oficialmente sua campanha pela reeleição.
Aos 87 anos, Djalma de Souza Bom, sindicalista aposentado, ex-deputado federal e estadual, ex-vice-prefeito de São Bernardo do Campo e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, carrega na memória parte fundamental da história política brasileira que presenciou ao lado de Lula, do movimento operário ao nascimento de um partido.
Para Djalma, a campanha de 2026 tem um significado especial. “Essa última campanha do companheiro Lula é a sensação de dever cumprido e a certeza que o Lula vai continuar fazendo política no nosso país”, conclui.
Relembrando a amizade com o companheiro sindical e, hoje, presidente, Djalma, define Lula como “uma grande liderança sindical e uma das maiores figuras políticas da história do Brasil”.
Em 1979, a sede do Sindicato dos Metalúrgicos não comportava mais a enorme mobilização dos grevistas. Eram aproximadamente 60 mil operários que foram, pela primeira vez, ocupar o gramado e as arquibancadas da Vila Euclides. Foi ali, sem palco ou equipamento de som, que Lula fez seu discurso em cima de uma mesa, com um megafone, e começou a história de luta do PT.
Um caminhão, uma fábrica e um destino
O companheiro Djalma Bom nasceu em 29 de março de 1939, em Medina, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Ainda criança, deixou o estado com os pais e quatro irmãos rumo a São Paulo. A viagem, conta ele, foi feita em cima de um caminhão basculante.
Era o Brasil de famílias que migravam em busca de trabalho e de uma vida melhor.
Anos depois, Djalma encontraria seu lugar no coração industrial do país. Tornou-se metalúrgico da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, e foi dentro da fábrica que começou sua trajetória de militância.
Em 1975 chegou à diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Entre 1975 e 1980, esteve ao lado de uma geração que transformaria a luta sindical brasileira.
Foi também tesoureiro do sindicato na gestão de Lula. Os dois, operários da mesma região, passaram a compartilhar não apenas as assembleias e as negociações, mas uma visão de que o sindicato deveria ser mais do que uma entidade burocrática.
Deveria ser instrumento de luta. De defesa dos trabalhadores. De reivindicação. E, sobretudo, deveria colocar o trabalhador como protagonista de sua própria história.
Os trabalhadores descobrem a própria força
Entre 1978 e 1980, o ABC Paulista tornou-se um dos principais centros de resistência à ditadura militar.
As greves dos metalúrgicos romperam o silêncio imposto pela repressão e colocaram milhares de trabalhadores nas ruas. O movimento começou com paralisações contra o arrocho salarial e pela autonomia sindical e ganhou força nos anos seguintes, envolvendo outras categorias e ajudando a fazer nascer um novo sindicalismo brasileiro.
Na Vila Euclides, dezenas de milhares de trabalhadores se reuniam para discutir salários, direitos, greves e os caminhos do movimento.
Djalma guarda daquela experiência uma imagem que ajuda a compreender a dimensão daqueles dias:
“É importante lembrar que nós estávamos num campo de futebol com milhares de trabalhadores discutindo os nossos problemas e resolvendo o nosso destino. Um sentimento de muita força e de muita esperança”, rememora.
O estádio que décadas depois receberá Lula para a abertura de sua campanha foi, naquele período, uma espécie de praça pública da classe trabalhadora. Djalma esteve no centro daquele movimento. Participou das negociações trabalhistas e, ao lado de outros dirigentes, levou denúncias sobre a repressão contra o movimento sindical no ABC.
Foi preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) durante a greve dos metalúrgicos. A ditadura tentava silenciar os trabalhadores. Mas a prisão não apagou a luta.
O nascimento de um partido
Aquele movimento sindical produziu lideranças. Lula era uma delas.
Depois da anistia aos perseguidos pela ditadura, os dirigentes sindicais do ABC passaram a conversar com intelectuais, artistas, militantes de movimentos populares e setores progressistas da igreja sobre a necessidade de construir uma nova representação política dos trabalhadores.
Em 10 de fevereiro de 1980, nascia o Partido dos Trabalhadores.
Djalma estava entre seus fundadores. Participou, ao lado de Devanir Ribeiro, da organização e da montagem do diretório paulista do novo partido. Foi o primeiro presidente regional do PT em São Paulo e posteriormente voltou a ocupar a presidência estadual. Também integrou a Comissão Executiva Nacional do PT entre 1984 e 1990.
A ideia era levar para a política a experiência construída no chão das fábricas.
Djalma costuma recordar uma passagem curiosa daqueles tempos. Lula mantinha um viveiro de pássaros. Depois que os dirigentes foram libertados, em 1980, Lula abriu as gaiolas e soltou todos os passarinhos.
Da fábrica para o Congresso
A trajetória de Djalma cresceu junto com PT. Em 1982, foi eleito deputado federal pelo partido. Na Câmara dos Deputados, tornou-se o primeiro operário a presidir a Comissão de Trabalho e Legislação Social e também exerceu a liderança da bancada petista.
Mais tarde, em 1988, foi eleito vice-prefeito de São Bernardo do Campo. Em 1994, voltou ao Legislativo como deputado estadual, sendo reeleito em 1998. O homem que entrou na política vindo da linha de produção passou a ocupar espaços que, durante muito tempo, pareciam reservados às elites políticas tradicionais.
