Artigo: missa no Rosário dos Pretos celebra a força do bem e a união
Em artigo, Gutierres Barbosa, coordenador do Setorial Inter-religioso Nacional do PT, destaca a mensagem de respeito e diversidade na celebração em Salvador
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Nesta última terça-feira de 2025, estive presente na missa celebrada na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no coração do Centro Histórico de Salvador, no Pelourinho. A celebração foi conduzida pelo padre Lázaro, cuja homilia se destacou pelo compromisso com a justiça social, a diversidade e o diálogo entre as diferentes expressões de fé.
Com a igreja completamente lotada, a missa foi marcada por uma mensagem profunda de defesa do amor como prática concreta, de enfrentamento ao ódio e de solidariedade com os oprimidos e com aqueles e aquelas que vivem à margem da sociedade — a população negra, as pessoas em situação de rua, a comunidade LGBTQIAPN+ e tantos outros grupos historicamente vulnerabilizados.
A celebração assumiu um caráter fortemente inter-religioso, reafirmando que o cuidado com a vida e com a dignidade humana atravessa diferentes tradições de fé. Estiveram presentes diversas lideranças religiosas, entre elas a pastora Camila Oliver, titular da Igreja Batista Nazareth, e o pai Raimundo de Xangô, liderança da Umbanda, além de representantes de outras expressões religiosas, em um gesto concreto de convivência, respeito e fraternidade.
Um dos momentos mais simbólicos da missa ocorreu quando o padre Lázaro entoou a música “Deus Cuida de Mim”, do pastor evangélico Kleber Lucas, rompendo barreiras confessionais e reafirmando que a espiritualidade comprometida com a vida não se limita a fronteiras doutrinárias. De forma enfática, o padre afirmou que “Deus não cabe no ódio, mas se manifesta no amor que acolhe”, deixando claro que a fé não pode ser instrumento de exclusão ou violência.
Em tom leve, pedagógico e descontraído, convidou ainda os fiéis a, em 2026, orarem uns pelos outros e a não se deixarem contaminar pelo ódio que tenta dividir a sociedade. Ressaltou que o essencial é entrar no novo ano com os dois pés — não importando se o esquerdo ou o direito —, mas comprometidos com a justiça, o amor, a fraternidade, a coletividade e a solidariedade. Dito isso, arrancou risos dos fiéis ao sugerir que não jogassem fora as sandálias havaianas, em referência bem-humorada à polêmica recente.
A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos carrega um valor histórico inestimável. Criada para acolher negros e negras escravizados que, à época, eram impedidos de cultuar em outros templos, tornou-se símbolo de resistência, fé e identidade do povo preto no Brasil. Hoje, como patrimônio histórico, cultural e nacional, segue sendo referência viva de uma espiritualidade enraizada na luta por dignidade, liberdade e reconhecimento.
Neste período de final de ano, quando práticas e tradições de matriz africana ganham centralidade na vida do povo brasileiro — como vestir branco, pular sete ondinhas e renovar esperanças —, reafirmo a importância de reconhecer o papel cultural, histórico e espiritual das religiosidades do povo preto, sejam elas católicas, evangélicas ou oriundas dos terreiros de Candomblé, da Umbanda e dos povos de terreiro. Essas tradições não apenas resistem, mas sustentam valores fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Como Coordenador Nacional do Setorial Inter-religioso do Partido dos Trabalhadores, e também como alguém de tradição evangélica — recentemente reeleito, em culto realizado na Igreja Batista Nazaré, como vice-presidente administrativo da instituição —, reafirmo meu compromisso com a laicidade do Estado, com o respeito à diversidade religiosa e com a construção de pontes entre as diferentes expressões de fé, sempre a partir do diálogo, da escuta e do cuidado com a vida.
Que 2026 seja um ano marcado por mais solidariedade, mais amor, mais justiça e mais esperança — para o Brasil e para o mundo.
Gutierres Barbosa – coordenador Nacional do Setorial Inter-religioso do Partido dos Trabalhadores (PT)
