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‘A doidice como método – artimanhas da desinformação política’

Zema faz comentários controversos para blindar Flávio Bolsonaro e torná-lo “moderado” aos olhos do público. Narrativa é calculada

(*) Por Eliara Santana

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) voltou a ocupar a cena midiática e a movimentar as redes ao fazer comentários deliberadamente controversos sobre temas complexos e desafiadores para o Brasil. Reforço aqui a nomenclatura “deliberadamente” para me referir aos comentários porque, apesar do conteúdo repugnante, há uma espécie de “insensatez calculada”, uma ação de proferir comentários chocantes para ocupar a cena midiática e roubar a atenção.

É um modus operandi com estratégias e propósito, e nosso objetivo aqui é escancarar essas artimanhas da desinformação política.

Essas declarações aparentemente malucas nada têm a ver com a capacidade cognitiva de Zema – elas têm a ver com método. 

Zema atacou projetos importantes do Governo Federal misturando opinião controversa com análise e proposta política, fazendo confusão de modo proposital, “causando” para ficar em cena. Ao criticar o Bolsa Família, o ex-governador disse que, se eleito presidente, vai reformular o programa e não vai pagar o benefício “pra marmanjo”.

Segundo o astuto ex-governador, homens adultos (os tais “marmanjos”) que estejam aptos ao trabalho e que recusem ofertas de emprego formal serão cortados do benefício. E não parou por aí. Ele também defendeu o trabalho infantil e disse que, se for eleito, “criança vai poder trabalhar no Brasil”. Segundo o ex-governador, pré-candidato à Presidência e um dos cotados para ser vice de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), “a esquerda criou essa noção de que trabalhar prejudica a criança”.

Imediatamente, todo o ecossistema midiático repercutiu as falas. Jornalistas e analistas indignados, memes de deboche, críticas ásperas. E Zema segue ocupando a mídia, todo dia, com todos falando dele – para o bem ou para o mal. Sem dúvida, ele conseguiu pautar o debate público, ainda que de modo bastante enviesado, sobre esses temas.

Vamos juntar algumas peças para compreender esse movimento em sua totalidade. Primeiro, vamos entender as estratégias nessa construção discursiva recente de Romeu Zema. E em seguida, o seu verdadeiro propósito, ou o que essa verborragia esconde. 

Modus operandi

Lá atrás, nos idos de 2016, o linguista e professor George Lakoff  já alertava a imprensa norte-americana para não cair nas pegadinhas de declarações  propositalmente estapafúrdias de Donald Trump. No artigo “Understanding Trump”, Lakoff ressalta que os pensamentos inconscientes trabalham por certos mecanismos básicos:

a)  repetição (as palavras estão ligadas neuralmente aos circuitos que determinam seu significado);

b) o enquadramento (colocar em um quadro de significados aquele assunto ou personagem);

c) os exemplos conhecidos: trazer à memória e às discussões determinados caminhos de sentido ou acontecimentos.

Jogando a lente de Lakoff em Zema, podemos observar um modus operandi bem delineado. Em relação ao discurso, há uma combinação de estratégias para produzir a “doidice” calculada:

1- Cortina de fumaça: um tema aparentemente bombástico desvia o foco do assunto no momento e leva a outras distrações.

2- Narrativas alinhadas ao contexto político-social: os temas do trabalho de “jovens” e crianças e o benefício do Bolsa Família – que empresários e madames adoram criticar – perpassam a sociedade brasileira e são  pontos fortes para certas elites. Por outro lado, explodem críticas aos beneficiários do Bolsa Família. Não são declarações aleatórias, portanto.

3- Campanhas coordenadas: as declarações aparecem em vários meios. 

4- Enquadramento: não é o dito, mas o modo como se diz é o que importa. Após a definição de um tema e a construção de uma narrativa, a moldura onde aquela fala está inserida é o que importa. O enquadramento influencia o seu, o meu, o nosso raciocínio, já alertava Lakoff.

Pense na seguinte composição: o tema é Bolsa Família. Se eu o coloco numa moldura, num quadro que leva ao entendimento de “beneficio para vagabundo” e crio narrativas fáceis e diretas como “não vou pagar pra marmanjo”, ou “marmanjo tem de aceitar o emprego que aparecer”, isso é efetivo e encontra palco e público. 

5- Pauta moral como pano de fundo: com suas declarações, Romeu Zema busca eco no conservadorismo e no preconceito que existem na sociedade brasileira. Essa agenda moral – criança pode trabalhar, “marmanjo” é que recebe Bolsa Família – evidencia assuntos aparentemente deslocados, mas que operam, a partir de varias estratégias, para induzir as pessoas a acreditarem em situações improváveis e deixarem de lado problemas reais.

O objetivo oculto

Com toda essa encenação, o produto “Zema lacrador” não quer apenas se colocar em evidência ou ganhar likes. Na verdade, a verborragia dele e a abordagem bizarra de assuntos tão delicados cumprem uma função muito específica no jogo político do momento: falar loucuras e temas bombásticos ultraconservadores para criar, no imaginário nacional, midiático e empresarial, a ideia (absurdamente equivocada) de que Flávio Bolsonaro, de quem ele é muito próximo,  é uma direita “moderada”.

O jeito aparentemente jeca, a fala exagerada puxando o R, as declarações toscas, tudo em Zema é ensaiado e calculado para o jogo político. E agora, essa encenação certamente ganhou consultoria profissional, de certos influenciadores políticos que são amigos de ambos.

Com o cenário esgarçado dominado por Zema, Flávio não precisa se indispor com o eleitorado tocando nesses temas delicados.

E ao expor o pensamento de modo cru, Zema tira o foco de qualquer manifestação do filho de Jair Bolsonaro, que pensa exatamente como ele, mas não precisa dizer. Numa linguagem popular, Zema é o boi de piranha de Flávio.

Não pense em um elefante 

Essa obra clássica de Lakoff –Don’t Think of an elephant – segue nos ajudando bastante, até hoje, a compreender esses caminhos de percepção e construção de sentido e também como reagir a essas tramoias. Tomando o livro de forma muitíssimo resumida, o que esse comando significa?

Quando você diz “não pense num elefante”, não pense que crianças podem trabalhar, não pense que são “marmanjos” que usam o Bolsa Família, é exatamente nisso que as pessoas vão pensar.

O campo progressista, ao rebater a desinformação e as declarações toscas, acaba reforçando o enquadramento que Zema quis dar e mantém os temas polêmicos vivos no imaginário social.

Segundo Lakoff, ao rebater ou negar uma mentira reforçando aquele quadro (por exemplo, afirmando que o Bolsa Família não sustenta “marmanjo”), nós estamos ativando a moldura dessa mentira (marmanjo não trabalha por causa do Bolsa Família) na mente do público.

Se a imprensa e o campo progressista amplificam as falas preconceituosas e mentirosas de Romeu Zema, a narrativa dele sai fortalecida. E ele e seus consultores já estão ficando craques nessa estratégia.  

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).