Festa da Boa Morte: fé, cultura e resistência afro-brasileira celebradas em Cachoeira
Fundada em Salvador em 1820, a Irmandade se estabeleceu definitivamente em Cachoeira a partir de 1850, após perseguições, mantendo até hoje viva uma tradição que é símbolo da resistência negra
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A Festa da Boa Morte, ou Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, é uma das mais importantes celebrações religiosas e culturais do Brasil, realizada anualmente em Cachoeira, Bahia, pela Irmandade da Boa Morte. De 13 a 17 de agosto, a cidade se transforma em palco de fé, samba, comidas típicas e rituais, com destaque para o dia 15, dedicado a Nossa Senhora. Suas origens remontam ao século IX no ocidente cristão, chegaram ao Brasil via Portugal e se entrelaçaram com a religiosidade afro-brasileira. Para os iorubás, a morte representa a religação entre o Aiê (mundo físico) e o Orum (mundo espiritual), crença que dialoga com a devoção católica à Boa Morte.
Fundada em Salvador em 1820, a Irmandade se estabeleceu definitivamente em Cachoeira a partir de 1850, após perseguições, mantendo até hoje viva uma tradição que é símbolo da resistência negra. Escravizados recorriam à Nossa Senhora da Boa Morte pedindo o fim da escravidão, proteção e uma passagem tranquila. A festa, portanto, guarda um profundo sentido histórico, político e espiritual para o povo brasileiro.
Neste ano, a celebração ganhou ainda mais destaque com a presença da primeira-dama Janja Lula da Silva; das ministras Margareth Menezes (Cultura), Anielle Franco (Igualdade Racial) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos); da primeira-dama da Bahia Tatiane Veloso; e de Maria Marighella, presidenta da Funarte e neta do histórico militante Carlos Marighella. Suas participações reafirmam a dimensão nacional da Festa da Boa Morte e o compromisso do governo com a valorização das tradições afro-brasileiras.
Saudamos toda a comunidade católica e todos os povos de terreiro, das religiões de matriz africana, que preservam essa tradição, essa fé e a força dos Orixás. A Festa da Boa Morte é boa para a democracia, para a soberania nacional, para a cultura e para a valorização da religiosidade no Brasil. É o encontro da mística europeia com as profundas raízes afro-brasileiras — um patrimônio imaterial de fé e cultura que engrandece o nosso povo.
✍🏽 Gutierres Barbosa
Coordenador Nacional do Setorial Inter-religioso do PT
