“Ciência está sendo desrespeitada e atacada”, diz ex-diretor do Inpe

Ricardo Galvão foi exonerado no início de agosto após criticar Bolsonaro, que negou dados do INPE que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia

Arquivo pessoal

Até julho deste ano, Ricardo Galvão foi diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), orgão responsável por divulgar os dados relativos ao desmatamento na Floresta Amazônica. Naquele mês, dados disponibilizados pelo instituto mostraram um aumento histórico do desmatamento no país e geraram críticas de Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que as informações eram mentirosas e acusar Galvão de estar a serviço de ONGs estrangeiras.

Apoiado pela maior parte da comunidade científica brasileira, Galvão defendeu os dados e rebateu as acusações do presidente. Por resistir, foi exonerado do cargo e agora está de volta aos laboratórios e salas de aula da USP.

Ele diz não se arrepender e que acredita ter dado sua contribuição à instituição. Resumindo a volta à academia, Galvão explica que sua função agora é “dar aulas e trabalhar com alunos, consertar equipamentos, tentar arrumar recursos. A vida normal de um professor universitário, o que eu mais gosto de fazer”.

Ricardo Galvão tem 71 anos e é natural de Itajubá, Minas Gerais. Cientista respeitado, foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) desde 1983. De 2005 a 2012 foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a convite do grande físico brasileiro Roberto Salmeron. De 2013 a 2016 presidiu a Sociedade Brasileira de Física.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Galvão afirma temer a perda do prestígio internacional alcançado pela ciência brasileira nas últimas décadas. “Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário”, argumenta.

Confira um trecho da entrevista do Brasil de Fato

Brasil de Fato: Como a gente chegou nesse governo tão desrespeitoso com a ciência e com o meio-ambiente?

Ricardo Galvão: No mundo todo tem havido um movimento obscurantista, talvez até incentivado pelas mídias sociais, porque ali se colocam facilmente acusações supérfluas que não são contestadas de forma profunda como é necessário.

No Brasil, isso foi exacerbado porque círculos próximos do governo têm um pensamento obscurantista e autoritário e um sentimento de que toda a comunidade científica brasileira está dominada pela esquerda.

Na época em que eu ainda estava no governo, [às vezes] era perguntado sobre projetos e recomendava que se consultasse a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo. [Então] eu recebia como resposta que isso não seria feito porque seria uma resposta de gente da esquerda. Infelizmente essa leitura dominou o governo e tornou o diálogo muito difícil.

BdF: Como você recebeu as palavras do presidente de que os estudos eram mentirosos?

Galvão: Fiquei extremamente indignado. Conheço toda a equipe que fez o estudo. São pesquisadores de alto nível, respeitados no Brasil e no exterior, que têm uma dedicação enorme.

Quando eu digo que os dados de uma instituição pública de pesquisa são mentirosos, estou acusando os pesquisadores de falsidade ideológica. Se o presidente da república tinha suspeitas de que os dados eram mentirosos, então ele tinha obrigação de abrir uma comissão de sindicância. Por que não o fez? Pior, ele me acusou de estar a serviço de uma ONG internacional. Isso é uma acusação muito grave.

BdF: A ciência está abalada neste momento por conta desta gestão presidencial?

Galvão: Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário. Isso tem feito com o que governo questione várias vezes resultados científicos consolidados.

O prestígio internacional do Brasil cresceu nas últimas três décadas. Nós somos responsáveis por 2% de toda a produtividade científica mundial.

Confira a entrevista na íntegra

 

Por Brasil de Fato

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