Diagnóstico revela urgência no combate às desigualdades que atingem as mulheres
As informações, compiladas pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, tratam de temas como saúde, violência e ocupação das mulheres nos espaços de poder.
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O Ministério das Mulheres divulgou o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026 , que apresenta um panorama detalhado da situação das brasileiras. Produzido pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, o documento evidencia que, embora sejam a maioria da população – 51,2% (108,5 milhões de pessoas) -, as mulheres ainda enfrentam barreiras estruturais que se aprofundam quando atravessadas por questões de raça, território e idade.
Conforme explicado pelo MMulheres, o Raseam retrata a situação das brasileiras a partir de cerca de 320 indicadores e mais de 380 tabelas de dados. A publicação reúne informações de diversas fontes oficiais e tem como objetivo servir como guia estratégico para a criação de políticas públicas e para o desenvolvimento de pesquisas científicas em diversas áreas.
A obra explora as desigualdades regionais, raciais e sociais, considerando também fatores como localidade, faixa etária e condições de deficiência. Ao todo são sete eixos temáticos: Estrutura Demográfica; Autonomia Econômica e Igualdade no Mundo do Trabalho; Educação; Saúde Integral, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos; Enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres; Mulheres em espaços de poder e decisão; e Mulheres na Cultura, Comunicação e Esporte.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes , destacou a importância da publicação: “O Raseam reafirma o compromisso do Estado brasileiro com a sistematização, análise e ampla divulgação de dados sobre a realidade das mulheres. Os indicadores mostram avanços importantes, mas também evidenciam desigualdades persistentes, especialmente de cor ou raça, território e renda, que habilitam respostas estruturais e intersetoriais. Fortalecer políticas públicas baseadas em evidências é fundamental para garantir direitos, promover autonomia e enfrentar todas as formas de violência contra as mulheres.”
Trabalho, renda e carga do cuidado
A desigualdade salarial permanece como um dos maiores desafios. No setor formal, as mulheres recebem, em média, 21,2% a menos que os homens. No mercado de trabalho geral, essa diferença sobe para 21,4%.
A busca por emprego também é freada pelo machismo estrutural: o trabalho reprodutivo (fazeres domésticas e cuidados) foi relatado por 22,9% das mulheres como o motivo para não procurarem trabalho. No campo, 27,2% dos trabalhadores são definidos como “familiares auxiliares”, ajudando na produção sem receber remunerações diretas.
Educação: o “teto de vidro” na formação
Embora o Brasil esteja próximo de universalizar a alfabetização entre jovens de 15 a 24 anos (99,7%), a evasão escolar ainda tem rosto feminino. O cuidado doméstico é o motivo de abandono escolar para 30,1% das mulheres brancas e 37,5% das pretas e pardas, enquanto entre os homens esse fator não chega a 1%.
Além disso, persiste uma “divisão sexual do conhecimento”: enquanto as mulheres são 92,2% em cursos de Pedagogia, representam apenas 14,2% em Ciência da Computação.
Cor e território: a pobreza tem raça
O Raseam 2026 expõe como a pobreza é racializada. Mulheres pretas e pardas representam 72,4% das moradoras em favelas, evidenciando uma sobrerrepresentação nesses territórios. Nos domicílios chefiados por mulheres negras, 67,3% sobreviveram com rendimento per capita de até um salário-mínimo.
Saúde e violência
O relatório aponta um avanço positivo na redução da mortalidade materna (59,7 óbitos por 100 mil nascidos vivos), mas alerta para a desigualdade: mulheres pretas têm risco 1,5 vez maior de morte materna que as brancas, e as indígenas, 2,5 vezes mais. No campo da saúde mental, houve um salto alarmante: as mulheres representam 71,9% das notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho.
A violência doméstica segue como uma chaga nacional, com 70,7% das agressões ocorridas dentro de casa. No caso de mulheres idosas, esse índice sobe para 86,2%.
Apesar dos desafios, políticas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) mostram resultados positivos, especialmente no Nordeste, onde as mulheres são 50,4% das beneficiárias. A redução da insegurança alimentar (queda de 10,6% entre 2023 e 2024) também sinaliza o impacto das políticas públicas de transferência de renda e combate à fome.
O Raseam 2026 é um instrumento político para que o Governo Federal, mandatos parlamentares e gestores públicos sigam aprofundando políticas transversais que garantam a autonomia econômica, o direito à educação e a vida digna para todos os brasileiros.
Abaixo, panorama dos principais indicadores divididos por eixos estratégicos:
1. Estrutura demográfica
O Brasil mantém uma maioria feminina em sua composição populacional. As mulheres apresentam maior evolução em comparação aos homens, mas os desafios são transformações profundas, como a queda contínua na taxa de fecundidade e o avanço da maternidade. O relatório destaca o aumento significativo de mulheres como as principais responsáveis pelos seus domicílios.
2. Autonomia econômica e igualdade no trabalho
A desigualdade salarial permanece como um desafio central, embora a Lei de Igualdade Salarial seja um marco para combater essa disparidade. Noventa e cinco por cento das mulheres não procuraram trabalho por precisarem cuidar de afazeres domésticas ou de parentes são mulheres, evidenciando a sobrecarga do trabalho de cuidado. Além disso, as mulheres negras seguem sendo as mais afetadas por condições precárias de trabalho e insegurança alimentar.
3. Educação para a igualdade e cidadania
As mulheres apresentavam níveis educacionais superiores aos homens em diversos recortes, mas isso nem sempre se traduz em igualdade no mercado de trabalho. Em 2024, as mulheres representavam 51,1% das matrículas em tempo integral. Mas, ao mesmo tempo, a desigualdade racial ainda persiste, criando um abismo entre mulheres brancas e negras no acesso ao ensino superior e em cargas de docência e pesquisa.
4. Saúde integral, direitos sexuais e reprodutivos
O relatório aponta avanços e alertas importantes como a redução na gravidez infantil, com queda no número de nascimentos de mães com até 14 anos, embora o número de notificações ainda seja preocupante. A implementação de programas de acesso a itens de higiene como a Dignidade Menstrual é celebrada como um passo fundamental para a dignidade das brasileiras em vulnerabilidade. O campo da saúde mental também foi destacado, com detecção de aumento de notificações de transtornos mentais relacionados à sobrecarga de trabalho das mulheres.
5. Enfrentamento a Todas as Formas de Violência
Como tem sido defendido pelo presidente Lula, o enfrentamento ao feminicídio é prioridade máxima com o novo Pacto Brasil entre os Três Poderes, firmado em 2026. Por isso, destaca-se a Ligue 180, que completou 20 anos como serviço essencial de orientação e acolhimento, e alcançou a marca de mais de um milhão de atendimentos em 2025. A Casa da Mulher Brasileira (CMB), que completou ano passao 10 anos, também foi destacada como uma das principais políticas públicas do Brasil voltadas ao enfrentamento à violência contra as mulheres.
6. Mulheres em Espaços de Poder e Decisão
O levantamento revela que a presença de mulheres candidatas tem apresentado aumento significativo desde 2010. Nas eleições gerais, o total de candidatas cresceu de 6.336 em 2014 para 8.935 em 2022, enquanto nas eleições municipais a expansão foi ainda mais expressiva, passando de 147.028 candidatas em 2016 para 174.732 em 2020, com leve redução em 2024, quando o número chegou a 159.005.
Esse crescimento das candidaturas femininas ocorre de forma contínua ao longo do período e está associado a mudanças institucionais e a iniciativas voltadas à ampliação da participação das mulheres na política. Apesar do avanço quantitativo, a composição das candidaturas femininas por cor ou raça revela diferenças relevantes entre os grupos.
As mulheres brancas permanecem como o maior grupo entre as candidatas em todos os anos analisados. No entanto, observa-se uma redução gradual de sua participação percentual. Em 2014, elas representavam 53,5% do total de candidaturas femininas, percentual que caiu para 47,2% em 2024. Essa redução não indica diminuição no número absoluto de candidatas brancas, mas revela que o crescimento das candidaturas foi mais intenso entre mulheres de outros grupos raciais.
Graças à atuação do governo do Brasil, o Poder Executivo passou a liderar mais mulheres para cargos de poder, na Administração Pública Federal. No campo de candidaturas, em 2024, a proporção de candidaturas femininas em partidos como o PT e outras da base aliada mantiveram a tendência de crescimento para atingir a paridade.
7. Cultura, esporte e comunicação
Encerrando o levantamento, o campo de acesso digital apontou que as mulheres ocupam a internet de forma distinta, liderando no uso de redes sociais e chamadas de vídeo, enquanto os homens dominam o acesso a jogos on-line. E no setor cultural a desigualdade salarial também se reflete, com as mulheres recebendo menos que os homens no setor artístico e de comunicação.
Da Redação do Elas por Elas, com informações do MMulheres
