(*) Por Eliara Santana
A estrutura profissional de produção de mentiras, muito bem arquitetada e com altíssimo financiamento, será elemento fundamental para ajudar a reorganizar a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência após a revelação das ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master, a quem pediu dinheiro para, supostamente, financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. A conversa e o pedido foram revelados por reportagem do The Intercept Brasil, na quarta-feira (13/05), e novos capítulos aparecem a cada hora mostrando a irmandade entre Flávio e Daniel, que está preso.
Essa estrutura profissional de desinformação se consolidou no Brasil a partir de 2018 e permaneceu forte e combativa mesmo com Jair Bolsonaro fora do poder a partir de 2023. Esse ecossistema, que começou a aparecer com o chamado gabinete do ódio e ações para encobrir a tragédia da pandemia entre nós, em 2020, ganhou ainda mais corpo ao longo dos anos porque o projeto de poder da extrema direita tem na desinformação uma base de sustentação.
A desinformação compõe o projeto político da extrema direita, ela não é mero detalhe e tampouco é usada somente em ano eleitoral.
Com o bolsonarismo, o Brasil foi palco da organização de um potente ecossistema de desinformação que conseguiu instituir uma sociedade distópica de fazer inveja a Hollywood. Conseguiram arquitetar uma realidade paralela, uma Nárnia Bolsonarista, onde recomendações de saúde são desprezadas, vacinas são questionadas, pessoas bebem detergente, pessoas rezam para pneu, outros não entram em carros chineses e influenciadores são bem pagos para atacarem reputações e manterem vigorosas as crenças em mentiras.
A criação de uma realidade paralela dessa magnitude, para manter esse grau de mobilização e crença, é uma construção efetiva e constante. Para a consolidação da Nárnia brasileira bolsonarista, seus arquitetos mergulharam na produção bem elaborada de narrativas com roteiros mentirosos, mas verossímeis, criação de cortinas de fumaça, ressignificação de assuntos importantes, criação de realidades paralelas. O ecossistema brasileiro de desinformação não é brincadeirinha de criança ou alucinação de momento. É uma organização sênior que envolve alto financiamento, muitos braços, produção e disseminação profissional e grupos de apoiadores também profissionais. Nada é espontâneo.
Com o escândalo batendo na porta da pré-campanha de Flávio, é exatamente essa estrutura que vai garantir a reação e a sobrevida, lançando mão de todos os recursos estratégicos, caros e inovadores de produção em massa de mentiras e de convencimento dos eleitores.
A narrativa imediatamente colocada em circulação foi a de que o caso nada mais era do que a ação carinhosa de um filho que queria fazer um filme sobre o pai para homenageá-lo e que buscou patrocínio e recursos para isso, “não era dinheiro da Lei Rouanet”, ele bradou, e os seguidores reproduziram.
Tudo muito inocente e convincente, de coração aberto. Mas não basta falar e dar declarações, é preciso convencer. E é aí que entra o exército bolsonarista, com seus robôs, influenciadores, páginas de difamação anônimas, as campanhas orquestradas de desinformação.
A “Dona Maria”, por exemplo, aquele perfil fake que todos acreditaram ser obra espontânea de um motorista de aplicativo (fica aqui minha gargalhada), continua em campo, muito atuante e com milhares de seguidores na defesa de Flávio.
Vejam essa peça que estava na página logo depois que as denúncias da relação com Daniel Vorcaro vieram à tona – peça cuja narrativa tem origem em especulações da grande imprensa, importante dizer:
Observem como até a linguagem é cuidadosamente pensada para simular a “simplicidade” de Dona Maria e atingir um público específico. Escrever o nome “Volcaro” propositadamente errado, simulando o modo como pessoas com pouco acesso à educação formal falam nomes de difícil pronúncia, é uma belíssima sacada. E que foi colocada imediatamente em cena logo após um grande escândalo. Isso não é coisa de amador, tampouco de motorista de aplicativo que trabalha 12 horas por dia.
As milícias digitais continuam em ação no Brasil, pois elas integram o ecossistema mantido pela família Bolsonaro para a perpetuidade no poder, e essa arquitetura de comunicação, repito, é essencial para esse propósito. A desinformação e a estrutura de difamação de reputações se tornaram recursos preciosos para gângsters de todas as cepas: Daniel Vorcaro montou uma rede de influenciadores para difamarem o Banco Central; influenciadores foram pagos pelas bets para falarem mal de Lula; páginas de difamação, com criação de personagens como a Dona Maria, são atribuídas a pessoas comuns, mas escondem uma estrutura profissional de dar inveja a muito marqueteiro.
Ontem (14/05), com a prisão do pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, a Polícia Federal revelou uma ORCRIM que tinha dois núcleos centrais: “A Turma”, responsável por chantagear e atacar inimigos de Daniel, e “Os Meninos”. Esse segundo núcleo era composto por hackers e influenciadores que receberam 75 mil por mês e eram responsáveis por ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis em redes sociais e monitoramento ilegal.
Essa estrutura nada tem de amadora ou “espontânea”. Por isso, escândalos que revelam e demonstram uma realidade de corrupção, golpe, mentiras podem não colar pra muita gente – a rede contrafactual é gigantesca e potente na produção de contranarrativas e realidade paralela. Foi exatamente essa rede que levou centenas e centenas de brasileiros, em várias cidades do país, a acamparem em frente aos quartéis do Exército e promoverem reza para pneus na “esperança” de livrarem o “mito” Jair Bolsonaro e tirarem Lula do poder. E que levou pessoas a usarem deliberadamente um detergente contaminado por bactérias. Produção de alucinação coletiva.
Voltando ao escândalo que atingiu a campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro, muitos já estão se apressando em antecipar que a candidatura dele acabou e que Flávio vai desistir por conta dos desdobramentos do caso. Ouso arriscar: não vai. Flávio, na Nárnia Bolsonarista, representa aquele bom filho que vai em sacrifício pelo clã, que recebe a “missão” do pai, daquele “mito” que está impedido por conta de perseguição. Até há pouco tempo, parte da imprensa via nele um “bolsonarista moderado” – realidade paralela envolve todo mundo.
Na vida real, o clã Bolsonaro sabe o espaço político que conquistou e o que isso representa em termos de possibilidade de enriquecimento e não vai abrir mão da prerrogativa de representar a “direita” no Brasil e de ocupar o cenário político e os espaços de poder. É melhor cair atirando e perder pra Lula, mantendo seus 30% do eleitorado e voltar depois, tendo tempo de fazer caixa – com ou sem Vorcaro –, do que abandonar o barco e ser escorraçado do salão.
Hoje, há uma briga intestina no miolo da extrema direita. Parece a quadrilha de Drummond, ao inverso – Flávio, que odiava Michelle, que odiava Eduardo, que odiava Nikolas que só amava a si mesmo… Até o grupo de “amigos de confiança” já discutia substitutos para Flávio. Ricardo Salles, que está em briga aberta com Eduardo Bolsonaro, defendeu o nome de Michelle. E alguém no grupo de “amigos” procedeu ao devido vazamento, que veio à tona e jogou lama no grupo.
Há tempos estão brigando, e chegaram a sinalizar uma trégua, a partir da divulgação de que Michelle faria uma declaração em favor de Flávio. Isso nunca ocorreu. E o que veio foi um beijinho de Michelle no ministro Alexandre de Moraes, na posse de Kassio Nunes Marques no TSE, apenas um dia antes de estourar a denúncia do Intercept sobre as ligações perigosas entre Flávio e Daniel, o que despertou a ira de parte dos bolsonaristas.
Com o escândalo mais recente, há uma turminha que já pula do barco, louca pra roubar o espaço, como o ex-governador de Minas, Romeu Zema. E há os fiéis (poucos) que apoiam incondicionalmente, como Tarcisio de Freitas, governador de São Paulo. Entre os bolsonaristas e afins, já toma vulto a suspeita de que Michelle é a responsável pelo vazamento das informações sobre as relações perigosas de Flávio Bolsonaro.
No Instagram da ex-primeira-dama, na quarta-feira após a divulgação do escândalo, Michelle publicou uma mensagem profética dando recados. Segundo a ex-primeira dama, “o dom da palavra é um maravilhoso presente de Deus. Mas como todos os dons, pode ser corrompido pelo pecado. Quem vive de insinuações foge da verdade sobre si mesmo, afundando em patologias as quais ele recusa admitir que possui. Não busca a cura, mas se empenha em espalhar a doença por meio de palavras afiadas”.
Intrigas e fogo “amigo” à parte, o fato é que Flávio pode continuar no páreo; o pai não vai deixar que ele simplesmente abandone a “missão” e perca o lugar que o bolsonarismo tão astutamente conquistou no cenário político nacional. E essa permanência vai significar também a intensificação de campanhas mais ousadas para as pessoas continuarem bebendo detergente e acreditando na Dona Maria.
Na Nárnia Bolsonarista, vale tudo.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer)
