Falece Geraldo, o balseiro que conduziu Lula em Itinga, berço do Fome Zero

Foi para ele que o ex-presidente prometeu (e cumpriu) construir uma ponte sobre Rio que corta a pequena cidade do Vale do Jequitinhonha

Ricardo Stuckert

Bastaram apenas 10 dias como presidente da República para que Lula colocasse em prática algo que sempre o fascinara: viajar pelo país e ir de encontro aos sonhos do povo brasileiro. Não à toa, o então recém-eleito ao cargo escolheu o Vale do Jequitinhonha para dar início às caravanas oficiais acompanhado de seus ministros: a região carregava o estigma da pobreza como poucas outras e tinha em cidades como Itinga-MG espécie de vitrine às avessas, retrato fiel do abandono do Estado.

A visita, sacramentada em 10 de janeiro de 2003, também era a redenção do ex-presidente, que 10 anos antes já havia prometido aos moradores locais construir novas páginas da história do pequeno município – o local, que possuía um dos piores IDHs da nação, também seria escolhido para ser o berço do programa Fome Zero.

Foi preciso pouco mais de um ano para que a promessa de Lula se materializasse na hoje indispensável ponte que corta o Rio Jequitinhonha e que alterou para sempre a paisagem (e a economia) dos itinguenses.  Entre as testemunhas oculares desta história, estava Geraldo Vieira Sousa, ilustre por conduzir Lula de balsa durante a visita e a quem o ex-presidente garantiu que a ponte sairia do papel.

A trajetória do balseiro, infelizmente, fez a sua última travessia nesta quarta (19), quando veio a notícia do seu falecimento.

Seu Gera, como era conhecido, era também a personificação dos anseios de seus conterrâneos. Ao longo de três décadas, viveu entre as duas margens do Jequitinhonha, conduzindo a todos – do ex-presidente a anônimos – com a mesma alegria.  Foram 14 anos com um barco a remo e ao menos outros 20 com uma canoa a motor. Durante este tempo, foi ele também a face do desenvolvimento da cidade, já que nada nem ninguém atravessava o rio sem a sua ajuda.

A sua morte pegou a cidade de surpresa e muitas têm sido as homenagens por lá. O poeta Jô Pinto, também de Itinga, escreveu nesta quinta (20) : “Antes da ponte, o alimento que chegou as nossas mesas dependeu dos braços fortes de seu Geraldo, se seu carro ia de um lado ao outro, foi também os braços de seu Geraldo que o conduziu a outra margem”.

O reencontro

A árdua labuta do seu Gera só foi interrompida quando a ponte inaugurada por Lula passou a fazer o trabalho que os seus braços fizeram ao longo de décadas. Mas ainda havia tempo para um reencontro: em 2017, o já aposentado balseiro esteve com Lula pela terceira vez durante uma nova etapa das caravanas pelo Brasil.

“O dia que o Lula veio aqui eu atravessei ele numa balsinha nova. Ele viu nosso sofrimento e disse que, se um dia ganhasse as eleições, voltaria aqui para fazer a ponte. Ele voltou e fez. Não consigo nem falar o que to sentindo”, declarou Gera na ocasião.

Naquela data, os papeis se inverteram: era Lula quem fazia questão de reverenciar seu Gera ao pedir ao cidadão ilustre de Itinga que relatasse a ele todos os problemas da cidade.  Foi o último encontro entre dois dos grandes representantes do povo brasileiro.

Por Henrique Nunes da Agência PT de Notícias

 

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