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Flávio Bolsonaro ataca urnas eletrônicas que elegeram sua família por 30 anos

Senador mente sobre o sistema eleitoral em evento com diplomatas e repete feito que tornou seu pai inelegível

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu Flávio com o mesmo texto que usou para desmentir Jair Bolsonaro em 2022Foto: Site do PT

A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de encarnar o pai o fez repetir exatamente o feito que tornou Jair Bolsonaro inelegível. O senador atacou as urnas eletrônicas, levantando suspeitas sobre o processo eleitoral que elegeu ele próprio, em uma reunião com diplomatas na última terça-feira, 21.

Flávio afirmou que as urnas têm a mesma origem das fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic e que um relatório da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, aponta a empresa como parte de uma suposta fraude nas eleições de 2012 no país vizinho. “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, declarou.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu Flávio com o mesmo texto que usou para desmentir seu pai em 2022. “Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”, diz a nota.

A Corte Eleitoral reiterou que a Smartmatic nunca forneceu urnas para as eleições brasileiras, nem atuou na programação delas, mas somente “no treinamento de profissionais que prestaram suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras”.

As declarações de Flávio foram feitas a uma plateia de representantes de quase 50 países e organizações internacionais em um evento reservado da série “Debatendo o Brasil”, promovida pela Novo Selo Comunicação em parceria com o The Brazilian Report, voltada para pré-candidatos e representantes estrangeiros.

O senador negou que estivesse questionando o sistema eleitoral, mas pediu que os países enviem ao Brasil “a maior quantidade de observadores possíveis (sic)”, além de “pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode ter eleições mais seguras e transparentes”.

Estratégia antiga

Há quase exatos quatro anos, em 18 de julho de 2022, Jair Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas em uma reunião com embaixadores. À época presidente da República, ele usou o Palácio da Alvorada e estruturas oficiais do governo, como a TV Brasil, para colocar dúvidas sobre as eleições que seriam realizadas três meses depois. Esse foi o motivo de sua condenação no TSE por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, que o tornou inelegível até 2030.

O ataque ao sistema eleitoral por Bolsonaro e seus seguidores é mais antigo. Em 2019, ele afirmou falsamente que as eleições de 2018 – que o elegeram – haviam sido fraudadas e ele havia ganhado no 1º turno. Já em 2021, antevendo a derrota para o presidente Lula no ano seguinte, que já se mostrava cada vez mais provável, os bolsonaristas tentaram aprovar no Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição determinando um sistema de voto impresso para as eleições seguintes.

Logo após o 2º turno em que Jair Bolsonaro foi derrotado por Lula em 2022, o PL entrou com uma ação no TSE pedindo uma verificação extraordinária do resultado e a invalidação dos votos de mais de 250 mil urnas. O partido usou como base um relatório elaborado por uma consultoria privada, que recebeu cerca de R$ 1 milhão para elaborá-lo, segundo o próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Em novembro daquele ano, o Ministério da Defesa de Bolsonaro divulgou um relatório de fiscalização sobre as urnas eletrônicas feito pelos militares durante as eleições. O documento constatou “a conformidade entre os boletins de urnas impresso e os dados disponibilizados” pelo TSE. Pressionado pelo chefe, já derrotado, o órgão divulgou uma nota no dia seguinte dizendo que o relatório não excluía “a possibilidade de fraude”.

O curioso é que o PL questionou somente o resultado do 2º turno, em que Bolsonaro foi derrotado, mas não o do 1º turno, no qual o partido elegeu a maior bancada da Câmara, com 99 deputados. E é ainda mais curioso que Jair Bolsonaro tenha questionado o 1º turno de 2018, mesmo pleito em que seu filho Eduardo foi o parlamentar mais votado do Brasil e seu partido à época, o PSL, fez a segunda maior bancada, atrás só do PT.

Antes de ser presidente, Jair Bolsonaro foi deputado federal por 7 mandatos consecutivos, 5 deles eleito em urnas eletrônicas. Antes de ser senador, Flávio também foi deputado, por 4 mandatos consecutivos, em todos eleito em urnas eletrônicas. O mesmo com os 3 mandatos de deputado de Eduardo, até ser cassado e condenado por conspirar contra o Brasil nos EUA, os 7 mandatos de vereador de Carlos e o também de vereador de Jair Renan.

“Cultura golpista do pai”

Especialistas brasileiros, observadores estrangeiros e relatórios técnicos apontam que o sistema eletrônico de votação, desde  1996, tem eficácia e a confiabilidade muito superiores às das urnas de papel.

Os impactos da tentativa de levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral ultrapassam a disputa de narrativas. Foi a falsa acusação de fraude que levou milhares de pessoas a invadirem e depredarem as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Era esse discurso que Bolsonaro tentou usar para mobilizar as Forças Armadas para aderirem a um golpe militar que pretendia assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o então presidente do TSE, Alexandre de Moraes.

Em nota divulgada nesta quarta-feira, 22, o presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, afirmou que Flávio provou ter “a mesma cultura golpista do pai”. O texto também diz que o PT “avalia as medidas judiciais cabíveis e reitera que está ao lado da democracia e em defesa das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro, em respeito aos 158 milhões de eleitores e a toda a população do nosso país”.

A deputada Gleisi Hoffmann (PT-SP) disse que a família Bolsonaro não desiste “de ameaçar nossa soberania, nossa democracia e nosso processo eleitoral” e que Flávio “está cavando uma punição”.