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‘Honestino’: filme relembra assassinato de presidente da UNE na ditadura

Misturando documentário e cenas ficcionais, obra mostra a fúria com a qual os militares perseguiram estudantes desde o golpe de 1964

O ator Bruno Gagliasso interpreta o presidente da UNE que foi assassinado em 1973.Foto: Divulgação

“Nunca vai ser suficiente”, respondeu o ator Bruno Gagliasso sobre a quantidade de filmes produzidos no Brasil sobre a ditadura militar, durante coletiva de imprensa e debate no lançamento do filme ‘Honestino’, no Cine Cultura Liberty Mall, em Brasília. A obra retrata a vida, a perseguição e o assassinato de Honestino Guimarães, então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1973.

A obra mistura documentário com cenas ficcionais para contar a história do líder estudantil, de quem quase não há registro fotográfico ou em vídeo. Nascido em Itaberaí (GO) em 1947, Honestino se mudou para Brasília ainda criança, com a família. 

Na capital, iniciou sua militância política ainda no movimento secundarista, em 1963, quando filiou-se à Ação Popular – organização marxista-leninista ligada à Igreja Católica e que rejeitava a luta armada. Também fizeram parte da AP, em momentos diversos, figuras como Herbert de Souza (Betinho), José Serra, Plínio de Arruda Sampaio e Cristóvam Buarque. 

Estudante de Geologia na Universidade de Brasília (UnB) a partir de 1965, ano seguinte ao golpe militar, foi preso quatro vezes por sua atuação no movimento estudantil. A primeira foi em 1967, quando, já preso, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB).

A repressão da ditadura ao movimento estudantil e à UnB foi dura. Militares invadiram a universidade mais de uma vez e prenderam todos os líderes estudantis. Ameaçado de morte, Honestino teve que entrar para a clandestinidade e se mudar, primeiro para São Paulo, depois para o Rio de Janeiro, sempre atuando como podia na AP e no movimento estudantil – sendo eleito presidente da UNE em 1971, já na clandestinidade, cargo que ocupou até a morte.

Contrariando muitos de seus companheiros que fugiram do país, a maioria naquele momento para o Chile de Salvador Allende, Honestino recusou-se a sair do país, mesmo com um de seus irmãos tendo conseguido um passaporte clandestino para ele. E não só continuou no Brasil, como continuou vivendo: frequentava bares, pegava praia no posto 9 de Ipanema e ia ao Maracanã assistir aos jogos do Vasco, mesmo na clandestinidade e sob ameaça de morte.

Depois de sua última prisão, em 10 de outubro de 1973 – curiosamente, a um dia de completar um mês do golpe de Augusto Pinochet sobre Allende no Chile –, Honestino desapareceu, aos 26 anos e com uma filha, Juliana, de 3 anos. Até hoje não se sabe em que condições, onde e por quem ele foi assassinado, e seu corpo nunca foi encontrado.

Estudantes sempre foram inimigos

O filme retrata claramente como a ditadura elegeu o movimento estudantil como um de seus maiores inimigos desde o primeiro dia. Prova disso é o incêndio na sede da UNE, no Rio de Janeiro, em 1º de abril de 1964, quando o golpe ainda não havia sequer se consolidado. Imagens da época e reconstituições mostram a violência que os militares dirigiram diversas vezes contra os estudantes da UnB.

A obra também desfaz as narrativas de que a ditadura só torturou e matou os opositores que aderiram à luta armada e de que a repressão arrefeceu após a aniquilação da maioria das guerrilhas, em 1971.

Honestino Guimarães, mesmo tendo rejeitado até o fim aderir à luta armada, foi preso quatro vezes, torturado e assassinado, assim como tantos de seus companheiros. Na verdade, após desintegrar os movimentos guerrilheiros, foi justamente contra as organizações civis de oposição ao regime, como a AP, que a ditadura se voltou com mais violência.

Direito à memória

Apesar de ter sido um dos inimigos mais perseguidos pela ditadura, o nome de Honestino Guimarães quase não é lembrado. Foi exatamente por isso que o diretor Aurélio Michiles e o produtor Nilson Rodrigues decidiram contar sua história. Para eles, a memória de Honestino foi apagada propositalmente pelos militares justamente por ele ter sido uma liderança fortemente carismática e que não enfrentou militarmente o regime.

Para Bianca Borges, atual presidente da UNE, “a riqueza dessa obra está em devolver a humanidade onde a ditadura tirou”. Ela tem a mesma idade com a qual Honestino foi morto, 26 anos. “Está aí também o potencial que esse filme tem de nos sensibilizar, porque mostra que o Honestino era um jovem como tantos de nós”, afirmou no evento de estreia.

A escolha também teve uma característica afetiva e pessoal. Aurélio e Honestino eram amigos, e quando um foi preso pela última vez, o outro foi sequestrado e também teve que aderir à clandestinidade em seguida.

“Eu sou de Manaus e vim para Brasília com 16 anos. Eu alugava um quarto na W3 Sul e, naquela época, era muito difícil encontrar um lugar onde se pudesse fazer reuniões clandestinas. […] E através de uma amiga em comum, o Honestino me propôs fazer reuniões nesse quarto. A partir daí ficamos amigos. Eu, secundarista, e o Honestino já um grande líder da Universidade de Brasília”, contou o diretor.

Ele conta que a amizade continuou quando Honestino foi para a clandestinidade: “Eu o visitava, era uma das poucas pessoas que sabiam onde ele morava em São Paulo, e acompanhei o nascimento da Juliana.”

“Essa memória me perseguiu de uma forma muito traumática. À medida que eu fui fazendo meus trabalhos pessoais, estava ali o Honestino no horizonte, esperando que eu pegasse essa história e a revelasse – história que eu poucas vezes comentei”, revelou Aurélio.

Ele manteve a amizade com a ex-esposa de Honestino, Isaura, e com a filha do casal, Juliana. E em um dos encontros com elas, vendo uma foto de Lucas, neto do amigo, à época com 14 anos, se emocionou e decidiu filmar a história. 

“Eu tinha me acovardado de enfrentar, porque eu sabia que, entrando na história do Honestino, eu estaria entrando na minha própria história. Era uma forma dilacerante de entrar ali, de pegar, abrir essa ferida e encarar. Mas eu tinha que falar tudo sobre isso, porque o Honestino tinha 26 anos e eu já tinha mais que o dobro da idade dele e estava vivo”, contou, emocionado.

Aurélio disse que ainda pensa no que o amigo estaria fazendo se estivesse vivo: “Estaria pulsando no país, propondo coisas revolucionárias. Com certeza estaria lutando pelas nossas riquezas naturais, ele como geólogo, pelas terras raras, por exemplo. Ele teria sido uma voz atualmente muito pulsante nessa questão, eu tenho certeza.”

Símbolo de luta

O filme termina no evento realizado em 2024 na UnB que entregou postumamente o diploma de geólogo a Honestino Guimarães, que dá nome ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da universidade. “Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil”, cantam alunos e militantes, sob cartazes que estampam uma das únicas fotos do maior líder estudantil da capital federal.

Bianca Borges comentou o projeto de lei protocolado pela UNE no Senado para inscrever o nome de Honestino no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria: “A gente não quer que o Honestino seja lembrado só como vítima. E é essa história que o filme conta: de um Honestino jovem, de um Honestino pai, irmão, marido, amigo, filho.”

Bruno Gagliasso, que interpreta Honestino na obra, se disse aliviado por ter feito o papel de um opositor da ditadura, depois de ter interpretado, em ‘Marighella’ (2019), o delegado Sérgio Paranhos Fleury, uma das figuras mais nefastas e violentas dos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

“Em ‘Marighella’, eu estava do lado da escória da humanidade. […] Eu confesso que sinto um certo alívio de também estar desse lado aqui, porque é o lado que eu acredito, que eu defendo, que eu quero passar para os meus filhos: o lado da luta por democracia, por justiça e por liberdade”, declarou.

Para ele, Honestino Guimarães “está dentro de todo mundo que luta por justiça, igualdade e democracia”.

João Vitor Castro, da Rede PT de Comunicação.