A primeira-dama Janja Lula da Silva reafirmou que o governo do presidente Lula trata a defesa da vida das mulheres como prioridade central para o país. Em entrevista ao programa “Frente a Frente”, do canal Uol, na segunda-feira, 13, Janja detalhou como tem utilizado sua voz para destravar ações de governo e defendeu que a proteção feminina ultrapasse barreiras partidárias, uma vez que a violência atinge toda a sociedade de forma estrutural.
“A questão da violência contra a mulher, a misoginia, ela não tem lado, ela não tem direita nem esquerda conservadora ou progressista. É uma onda que vem para todos os de todos os lados e atinge a todas as nós igualmente”, destacou.
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Janja também classificou como urgente a aprovação do projeto que tipifica como crime o ódio contra mulheres, a misoginia. A proposta, aprovada com unanimidade no Senado, segue paralisada na Câmara.
Plataformas coniventes com o discurso do ódio
Janja denunciou que a extrema direita transformou a violência de gênero em um negócio lucrativo na internet. Para ela, a demora e a conivência das plataformas na retirada de conteúdos misóginos e ataques em rede têm uma explicação clara: o lucro. “Esse discurso de ódio está sendo muito bem rentável, sabe? Não só para quem apresenta, mas para os donos das plataformas”.
Para enfrentar a normalização dessas mortes e dar visibilidade à urgência do tema, ela adotou a postura de nomear as vítimas de feminicídio (morte de mulheres) em seus pronunciamentos.
“Quando eu começo um discurso falando o nome de cada mulher que morreu nos últimos dias é para dar concretude para aquilo. Quando eu começo falando o nome delas, é porque elas têm cara”.
Articulação de bastidores e desafios no Congresso
De acordo com Janja, sua atuação e comprometimento com a função que ocupa é fruto de um compreensão profunda sobre o peso histórico de sua posição. Relembrando o dia da posse presidencial em meio a um cenário de “terra arrasada” deixado pela gestão anterior, a primeira-dama relatou que teve clareza imediata de que não assumiria um papel decorativo, mas sim o de uma articuladora.
“Desde que a gente subiu aquela rampa em 2023, eu entendi a importância do lugar que eu ia ocupar, como esposa de um presidente da República, e de que eu poderia, talvez, usar a minha voz para levar algumas pautas importantes”, afirmou.
Mesmo sem ocupar um cargo formal no governo, a primeira-dama detalhou como atua para destravar ações essenciais, reunindo diferentes ministérios para dialogar. Foi essa articulação que ajudou, por exemplo, a solucionar gargalos na distribuição de absorventes do programa de dignidade menstrual e a promover discussões para o atendimento de crianças autistas nas escolas.
“Muitas coisas que aconteceram foi dessa articulação que eu gosto de promover, de sentar as pessoas para conversar”, explicou. “Porque eu posso não ter caneta, mas eu tenho boca. Eu falo e eu converso”.
Apesar dos esforços do Executivo, Janja fez questão de pontuar os grandes desafios enfrentados na negociação de políticas estruturais com o Legislativo. “A gente precisa passar pelo Congresso e hoje sabemos que temos um Congresso que não é favorável”, ponderou a primeira-dama. Apesar da barreira, ela celebrou a força de articulação da atual gestão: “O presidente Lula governa com no máximo 120 deputados e a gente fez muita coisa”.
Economia do cuidado e autonomia feminina
Ela ressaltou, ainda, que as políticas sociais do governo Lula, como o ensino em tempo integral nas escolas públicas e o atendimento domiciliar de saúde aos idosos, são ações diretas de libertação e autonomia para quem sofre com a sobrecarga da economia do cuidado.
“Muitas meninas deixam de estudar porque têm que cuidar da avó, do avô em casa, porque a mãe tem que sair para trabalhar. Sabe o que é você ter a possibilidade dessa menina não largar a escola porque ele vai ter um atendimento em casa, esse idoso? Isso é importante”, exemplificou.
O aprimoramento da educação infantil segue o mesmo princípio de proteção. “É importante para uma mulher hoje saber que o filho dela de 7, 8 anos vai para uma escola de tempo integral, para ela poder sair de casa e trabalhar sabendo que o filho dela tá seguro”.
Para a primeira-dama, afastar os rótulos ideológicos e focar na concretude da vida real é o único caminho para uma política pública efetiva. Rejeitando estigmas, ela resumiu sua visão de país e o propósito de seu trabalho. “Eu imagino uma sociedade onde as pessoas possam viver com dignidade, trabalhar com dignidade, estudar com dignidade, poder construir seus sonhos com dignidade e não ter todo dia uma batalha para vencer”, declarou Janja.
Solidariedade entre as mulheres
A solidariedade incondicional entre as mulheres também foi apontada na entrevista. Ao comentar sobre o caso de assédio sofrido pela ex-ministra Anielle Franco, Janja falou sobre acolhimento. “Eu simplesmente apoio. Eu não vou questionar ela como muita gente questionou. Num momento desse, você só tem que apoiar, você só tem que dar a mão para ela”. Relembrando momentos em que foi vítima de assédio em espaços públicos durante agendas oficiais, ressaltou que “nenhuma mulher está segura em lugar nenhum”.
A primeira-dama não se esquivou de abordar como o machismo opera de forma invisível nas engrenagens diárias da política. Ao abordar episódios em que foi responsabilizada por decisões rotineiras do presidente, Janja reforçou que a culpar sempre a mulher é fruto de um preconceito histórico disfarçado de normalidade.
“A questão da misoginia é tão arraigada em todas as nossas relações sociais, ela parece ser uma coisa natural, espontânea, sabe? Fogo espontâneo. Parece ser isso, mas não é. Ela é construída, sabe? Ela vem dessas coisas que acontecem no cotidiano. Elas aparecem nessas coisas da onde você menos espera”, refletiu.
Busca por paridade na política brasileira
Outro foco central da entrevista foi a luta por maior representatividade. Trazendo dados sobre a ocupação dos espaços de poder, Janja classificou como “vergonhoso” o fato de o Brasil ter apenas cerca de 19% de mulheres no Parlamento.
Ela propõe uma reforma estrutural em favor da paridade total nas listas eleitorais. “Eu já há dois anos tenho falado que eu não quero mais cota. Eu quero 50% de cadeiras para as mulheres. A gente quer a lista. Um homem, uma mulher. Um homem, uma mulher”, disse.