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Mar Vermelho: Por que as mulheres falam baixo quando precisam de absorvente?

Se até religião e ciência se encontram para ‘amaldiçoar’ um fenômeno natural do corpo, resta menstruar em segredo. Confira primeira matéria da série “Mar Vermelho”, sobre menstruação

30% do Brasil menstrua. São 60 milhões de pessoas, entre jovens e adultes, que lidam com os fluidos dos ciclos de seus corpos em uma sociedade que, em pleno século 21, ainda encara o fenômeno como tabu.

Não é à toa. O livro mais lido do mundo, a bíblia, apresenta a mulher que menstrua como indigna (ou impura) de fazer qualquer coisa:

Uma mulher que tem um fluxo, seu fluxo é sangue de seu corpo. Ela estará sete dias em sua incapacidade cúltica devido à sua menstruação, e quem a tocar, estará impuro(a) até o anoitecer. Tudo sobre o que ela se deitar menstruada está impuro, e tudo sobre o que ela se senta, está impuro. (Levítico 15, 19-22)

Mas não é só o cristianismo. A menstruação sempre foi um tabu para a civilização humana. Antigamente, associava-se o fenômeno à magia. A mulher menstruada não podia fazer pão, porque a massa não cresceria; a geleia nunca alcançaria o ponto, etc.

No islamismo, a lógica cristã se repete: a mulher é considerada impura durante o período menstrual e não é permitido aproximar-se dela até que esteja “limpa”. No Egito, acredita-se que ela é mais suscetível aos espíritos sobrenaturais, alguns países como as Filipinas elas não podem andar sobre os campos agrícolas e assim por diante.

Não é só a religião. A ciência também.

No livro “O Calibã e a Bruxa”, Silvia Federici aponta como, ao longo da Idade Média, as mulheres foram empurradas para fora do chamado “ciclo de reprodução feminino” e sendo substituídas por médicos (homens) e tutores (pais e maridos). O exemplo emblemático é como as salas de parto foram se “masculinizando”, mas o sistema patriarcal se impôs sobre os corpos das mulheres das mais diversas formas — inclusive sobre como encarar, interpretar e codificar os próprios fluxos.  

A antropóloga estadunidense Emily Martin abordou em seu livro A mulher no corpo: uma análise cultural da reprodução como a visão negativa e estereotipada da menstruação atravessou o mundo científico — e como ela foi “adaptada” para a lógica industrializante e capitalista:

Com o processo de industrialização, a concepção do corpo como um sistema de entradas e saídas, que buscava a manutenção do seu equilíbrio, é substituída pela metáfora de um pequeno negócio, que precisa economizar, gastar ou balancear suas contas. […]Nesse novo contexto, os modelos médicos do corpo feminino como “reprodutivo” passaram a ser fundamentais. ” artigo de Daniela Tonelli Manica sobre Emily Martin.

Emily pesquisou uma série de estudos científicos, no final dos anos 80, que tratava do corpo feminino e destacou que eles enfatizavam ideias essencialmente negativas sobre o fluxo menstrual: desintegração, hemorragias, quedas hormonais, necrose do tecido. Nem a renovação do tecido interno do estômago era tão negativamente descrito.

Ainda que sejam parte do mesmo processo de reprodução, Martin observou que a ovulação da mulher tem uma descrição bastante negativa, principalmente se comparada à descrição da produção de espermatozóides, por exemplo.

Os eufemismos evidenciam o silenciamento

Estar de chico, naqueles dias, na altura do mês, de regras, de período, mar vermelho, os eufemismos para menstruação são vários e cumprem um objetivo: convencer as mulheres que afirmar-se menstruada é uma declaração pública de impureza. Daí a origem do constrangimento e do silêncio — das palavras sendo ditas em voz baixa, do absorvente escondido no bolso ou na manga da camisa.

Tecnicamente, não há razão alguma, tampouco é uma ofensa, comunicar ao/à chefe ou colega de trabalho que está menstruada.

Então, de onde surgiu essa cultura?

Além do que já tratamos sobre religião e ciência, há a questão de classe social e relações trabalhistas — de como a menstruação deve ser algo escondido, controlado, invisível em espaços públicos, principalmente em ambientes de trabalho.

A antropóloga Emily Martin problematizou como a organização do tempo e do espaço de trabalho industrial não levava em consideração as especificidades das mulheres, sobretudo do período menstrual. No Brasil, até pouco tempo atrás, não havia banheiros femininos no Senado próximo ao plenário — imaginem as condições das trabalhadoras pelo país afora.

A localização social da mulher também muda a percepção dela sobre a menstruação. Em sua pesquisa, Martin perguntou sobre a ligação entre menstruação e reprodução e encontrou respostas diferentes de acordo com a classe social das entrevistadas.

As mulheres de classe média adotaram um discurso mais científico, sobre o fato da menstruação ser um sinal do “fracasso” do ciclo reprodutivo. Já as mulheres da classe trabalhadora (recorte feito pela autora) abordavam o tema de forma mais fenomenológica, como uma “fase esperada” da vida da mulher.

Do silenciamento ao pesadelo

Diante de um histórico dessa envergadura — religião, ciência e desigualdade social –, lidar com a menstruação no início da adolescência faz o caos parecer ser inevitável.

Menstruar na escola, o espaço público mais frequentado por jovens, se transforma em um pesadelo mensal.

Mas não é só desinformação e novidade, o medo da juventude que menstrua revela um problema social que vai muito além do tabu. Vamos tratar desse tema na próxima matéria  da série “Mar Vermelho”, não percam 🙂

Ana Clara Ferrari, Agência Todas

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