Por Eliara Santana (*)
O relatório “Digital News Report 2026”, divulgado no mês de junho, mostrou um cenário de muitos desafios para a comunicação no Brasil e no mundo. O relatório é produzido anualmente pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade Oxford, Inglaterra. Nesta versão, o levantamento ouviu quase 100 mil pessoas em 48 países.
Em linhas gerais, o relatório mostra um cenário inquietante: pela primeira vez desde que o levantamento é feito, as redes sociais e as plataformas de vídeo ultrapassaram os sites e aplicativos dos veículos jornalísticos como principal fonte de informação. A confiança nas notícias, ou seja, no jornalismo, atingiu o menor patamar desde o início da série histórica. Há um crescimento da preocupação das pessoas com a desinformação, o que é impulsionado pelo avanço da inteligência artificial, mas isso não faz com que elas deixem de disseminar o conteúdo desinformativo. Os criadores de conteúdo ganham muita proeminência na mediação das informações.
Além disso, o relatório também revela que o cenário politicamente conturbado em todo o mundo, aliado às transformações tecnológicas aceleradas, impacta fortemente o modo como as pessoas buscam se informar.
De acordo com Mitali Mukherjee, diretora do Instituto Reuters, há três temas-chave que emergiram no levantamento deste ano envolvendo o acesso estrutural, os formatos de consumo de notícias e os níveis de confiança do público. São eles:
1 – A crescente “plataformização” do consumo de notícias:
Segundo o estudo, as redes sociais e as plataformas de vídeo são, atualmente, as fontes de notícias mais utilizadas em todo o mundo, superando tanto os telejornais quanto as plataformas digitais das próprias organizações jornalísticas em termos da proporção de pessoas que as utilizam semanalmente.
2 – O consumo de notícias marcado pela importância crescente dos vídeos online e pela ascensão dos influenciadores:
O levantamento aponta que “para muitos públicos, essas fontes complementam — em vez de substituírem — o jornalismo tradicional, mas estão redefinindo o formato, o tom e a acessibilidade do jornalismo e a relação com o público. Também estamos testemunhando os primeiros passos significativos rumo à integração da inteligência artificial nas jornadas de consumo de notícias. Essas mudanças apontam para um ambiente informativo no qual os caminhos entre o jornalismo e o público estão se tornando menos diretos e mais fragmentados. O consumo de notícias também se tornou menos intencional”.
3 – Níveis de confiança do público:
A confiança das pessoas nas notícias caiu significativamente em 29 dos 48 países analisados, sendo que os níveis gerais de confiança atingiram o patamar mais baixo desde que o monitoramento começou a ser feito. O estudo também ressalta que, “após um período de relativa estabilidade, essas quedas são significativas e talvez revelem uma fragilidade institucional moldada por forças políticas, sociais e tecnológicas mais amplas”. No Brasil, o panorama comunicacional não é menos desalentador, com questões relevantes que não são meros retratos de um momento e requerem um olhar muito atento, sobretudo em ano de eleição.
Destaco aqui alguns pontos principais:
Poder dos influenciadores
No Brasil, a chamada mídia tradicional continua perdendo terreno como fonte de notícias para as pessoas, ao mesmo tempo que os chatbots de IA ganham popularidade e o uso das mídias sociais para consumo de notícias permanece alto. Os influenciadores ganham muito destaque entre o público como fontes de informação.
Esse “ecossistema de influenciadores” abrange todas as áreas, desde política a entretenimento. Um fenômeno destacado pelo relatório são, por exemplo, os influenciadores do setor financeiro, “que estão ganhando muito espaço e dinheiro num campo antes dominado pela imprensa de negócios, à medida que mais brasileiros buscam seus conselhos sobre investimentos”.
De acordo com o documento, um estudo da Associação Brasileira de Entidades Financeiras e do Mercado de Capitais (Anbima) mapeou 904 perfis ativos de influenciadores financeiros em 2025 – seu público combinado atingiu 310 milhões, refletindo um aumento de mais de quatro vezes em cinco anos.
Imprensa tenta se reinventar
O relatório também destacou que, mesmo num ambiente adverso, marcado pela queda na confiança nas notícias e pela redução da base de assinantes pagantes, o número de veículos de mídia online cresceu em 2025.
Por outro lado, a TV, que historicamente sempre foi forte no Brasil, está ampliando suas redes de distribuição com o lançamento de canais multiplataforma – e aqui vale destacar o domínio do sistema Globo, tanto na TV aberta quanto nos canais digitais.
Os veículos de mídia tradicionais expandiram seus portfólios digitais, adicionando mais conteúdo em vídeo e espelhando formatos e recursos de mídias sociais, salienta o levantamento.
Escândalos políticos e baixa confiança nas notícias
Após três anos com dados relativamente estáveis, o índice de confiança nas notícias caiu para o nível mais baixo em 12 anos. O relatório aponta para “um contexto de polarização partidária persistente, ainda mais alimentada pela eleição presidencial de 2026 e pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado” e ressalta que escândalos políticos e financeiros também podem ter contribuído para essa queda.
No país, a confiança nas notícias caiu seis pontos percentuais, chegando a 36%, o menor patamar registrado no período em que o país participa do levantamento. E quase metade (47%) dos brasileiros diz evitar as notícias às vezes ou frequentemente.
Ao mesmo tempo em que houve essa expressiva queda, o Brasil também foi apontado como o único mercado analisado em que a preocupação com a desinformação apresentou uma queda, de três pontos percentuais, embora a preocupação continue em níveis elevados.
Além disso, os pesquisadores também destacaram a força do ecossistema de criadores de conteúdo no país, que reproduz as divisões políticas presentes no debate nacional.
Uso das redes sociais
As mídias sociais mantêm uma vantagem de 9 pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias no Brasil, sendo que 33% da população obtém conteúdo de influenciadores, e mais da metade da população usa as redes sociais semanalmente para se informar.
Em relação às fontes de notícias preferidas pelos entrevistados no período de 2013-1026, temos:
- Qualquer meio online (inclui sites/aplicativos de notícias, redes sociais/de vídeo, podcasts de notícias e chatbots de IA): passou de 90% para 76%
- Redes sociais:passou de 47% para 53%
- TV: caiu de 75% para 44%
- Impresso: caiu de 50% para 7%
Mercado de publicidade
A mídia digital representou 40,6% dos gastos com publicidade no ano passado, quase igualando a participação da televisão, de 41,3%. A participação da publicidade nos jornais manteve-se estável em 1,4% em relação ao ano anterior.
De acordo com o relatório, isso reflete a circulação média diária paga estável dos dez jornais mais vendidos, em pouco mais de um milhão de exemplares, de acordo com o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), mas levando-se em conta que os números excluem dois dos principais jornais brasileiros, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, que não são mais auditados pelo Instituto.
Os gastos com publicidade na televisão aberta cresceram 4,6% no mesmo período. Esses dados mostram um momento de mudança, com a TV perdendo o domínio do mercado publicitário.
Os dados e análises apresentados pelo relatório “Digital News Report 2026” revelam mudanças expressivas e muitos desafios no cenário comunicacional do Brasil. Mudanças essas que impactam não apenas o modo como a população se relaciona com o consumo de informação, mas também a própria democracia, na medida em que denotam uma perda de força de agentes institucionalmente estruturados, um enfraquecimento do jornalismo e uma relação muito fragmentada com a produção jornalística de fato. Além disso, destaca-se o crescimento poderoso de outros agentes sobre os quais não há qualquer forma de controle ou transparência ou mesmo regulação.
No caso do Brasil, é muito importante estarmos atentos a uma combinação de três fatores que emergem nos dados sobre o país, o que denota uma tendência que é muito danosa.
Essa combinação é: queda expressiva na confiança nas notícias, ou seja, no jornalismo + queda na preocupação com a desinformação + forte ascensão de influenciadores como fontes primárias de informação.
E tudo isso no contexto de crescimento sem controle das ações sistematizadas de desinformação e pouca disseminação de ações amplas de educação midiática consoante à realidade.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).