Siga nossas redes

‘Perdoai as nossas dívidas’: trabalho, desigualdade e o Brasil do endividamento

Da oração do Pai Nosso ao Desenrola Brasil, Luis Alberto Sabanay analisa modelo econômico baseado na exaustão e na dependência financeira

*Luis Alberto de Mendonça Sabanay

Entre as contradições do cristianismo contemporâneo, talvez uma das mais profundas seja esta: milhões de pessoas repetem semanalmente a oração “perdoa-nos as nossas dívidas”, mas raramente refletem sobre o significado social, econômico e espiritual da dívida na tradição bíblica.

No Brasil atual, o endividamento deixou de ser apenas um problema financeiro. Em março de 2026, mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior índice da série histórica, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Além disso, milhões de famílias já não conseguem pagar dívidas em atraso, enquanto parcela significativa da renda mensal é consumida por juros, parcelamentos e renegociações contínuas.

Por trás das estatísticas existem famílias que escolhem entre pagar o cartão de crédito, comprar alimentos ou manter contas básicas em dia. Para grande parte da classe trabalhadora brasileira, o salário termina antes do mês, e o crédito deixou de ser exceção para se tornar condição permanente de sobrevivência.

Foi nesse cenário que surgiu o Desenrola Brasil, programa criado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva para renegociar dívidas e reinserir parte da população no sistema financeiro. Em sua nova fase, o programa prevê descontos significativos, possibilidade de utilização do FGTS e parcelamentos ampliados.

Trata-se de um alívio importante, mas também revelador: sociedades profundamente desiguais precisam criar mecanismos periódicos de proteção social para impedir que milhões de pessoas sejam empurradas para exclusão permanente.

Bíblia: visão atual 

Nos textos do Antigo Testamento, especialmente em Deuteronômio e Levítico, aparecem leis de remissão de dívidas e libertação econômica periódica. O chamado Ano do Jubileu previa cancelamento de débitos, devolução de terras e restauração social. A lógica era simples: nenhuma sociedade permanece saudável quando pessoas são esmagadas permanentemente pela pobreza e pela dívida.

No mundo bíblico, dívida podia significar perda de liberdade, terra, dignidade e pertencimento social. Por isso, a tradição hebraica estabeleceu limites éticos ao poder econômico. A vida humana não poderia ser reduzida a instrumento de exploração.

Esse princípio entra em choque direto com a lógica financeira contemporânea. Hoje, grande parte da economia depende exatamente do contrário: pessoas continuamente endividadas. O sistema financeiro lucra não apenas com produção e investimento, mas também com juros, refinanciamentos, atrasos e dependência permanente do crédito.

Dívida deixou de ser exceção

Jesus também fala frequentemente sobre dinheiro, riqueza, pobres e credores. No Pai-Nosso, a palavra usada no texto grego significa literalmente “dívidas”. O perdão espiritual aparece ligado à libertação de cargas que aprisionam a vida humana.

O problema é que parte do cristianismo contemporâneo acabou absorvendo a própria lógica do mercado. Nas últimas décadas, setores importantes das igrejas passaram a associar prosperidade econômica a favor divino. Em muitos contextos, pobreza e fracasso financeiro passaram a ser tratados quase como falta de fé ou incapacidade espiritual.

A chamada teologia da prosperidade e, em certos ambientes, a teologia do domínio aproximaram excessivamente fé e mercado. O sucesso material ganhou aparência de sinal espiritual, enquanto questões estruturais da desigualdade foram empurradas para segundo plano.

O resultado é preocupante: mecanismos econômicos que produzem sofrimento coletivo acabam recebendo legitimação religiosa indireta.

Mas os profetas bíblicos jamais analisaram a sociedade apenas pela responsabilidade individual. Amós denuncia exploração econômica. Isaías critica concentração de riqueza. Ezequiel condena usura. Jesus confronta a transformação da fé em instrumento de poder econômico.

Tradição bíblica e dignidade humana

A questão atual não é apenas econômica, mas civilizatória. O desafio está em enfrentar modelos de sociedade nos quais a lógica financeira se torna absoluta, subordinando relações humanas, políticas públicas e até a fé aos interesses do mercado.

No Brasil, essa realidade também se relaciona com distorções históricas do próprio Estado e do sistema tributário. Enquanto a classe trabalhadora suporta elevada carga tributária sobre consumo e serviços básicos, grandes estruturas financeiras e parcelas mais privilegiadas da renda frequentemente encontram mecanismos de proteção, isenção ou compensação fiscal. O resultado é um modelo econômico em que desigualdade, endividamento e concentração de renda se alimentam mutuamente.

Trabalho, dívida e direito ao descanso

Essa realidade também aparece nas relações de trabalho. Em um país marcado por baixos salários, informalidade crescente e jornadas exaustivas, milhões de trabalhadores vivem entre o cansaço permanente e a dependência do crédito. O debate recente sobre o fim da escala 6×1, impulsionado por movimentos sociais, sindicatos, setores da sociedade civil e iniciativas em discussão no próprio governo, revela justamente isso: não se trata apenas de organização do trabalho, mas de qualidade de vida, saúde mental, convivência familiar e dignidade humana.

Quando o tempo das pessoas passa a ser inteiramente subordinado à sobrevivência econômica, o descanso deixa de ser direito e se transforma em privilégio. A luta pela superação da escala 6×1 representa, nesse contexto, mais do que uma reivindicação trabalhista. Representa a defesa do tempo humano, do convívio social, da saúde física e mental e da dignidade da classe trabalhadora diante de um modelo econômico baseado em exaustão permanente, baixa remuneração e dependência contínua do crédito.

O Desenrola Brasil não resolve estruturalmente o problema do endividamento. Não altera a lógica financeira nem enfrenta de forma decisiva os juros elevados. Ainda assim, o programa expõe a urgência de repensar uma sociedade baseada no endividamento permanente e na naturalização da desigualdade.

Ao longo da história, diferentes sociedades tentaram reduzir os efeitos destrutivos da desigualdade e do endividamento por meio de regulação financeira, proteção social, fortalecimento dos serviços públicos e iniciativas cooperativas e solidárias. Nenhuma dessas experiências eliminou completamente os problemas econômicos, mas todas partiram de uma percepção comum: a economia deve servir à vida humana, e não o contrário.

Em muitos ambientes religiosos, a fé que historicamente serviu de abrigo aos vulneráveis passou a conviver com discursos que naturalizam desigualdade, individualizam sofrimento e associam valor espiritual à prosperidade material. Quando isso acontece, o risco é transformar o evangelho, que tradicionalmente serviu de crítica ao poder, em mecanismo de adaptação à própria lógica do mercado.

Nesse cenário, o desafio não é apenas religioso, mas ético e social: recuperar a capacidade crítica do cristianismo diante das estruturas econômicas que moldam a vida contemporânea.

Talvez a pergunta mais urgente para o cristianismo contemporâneo seja esta: a fé continuará servindo como consciência crítica diante da desigualdade ou terminará definitivamente adaptada à lógica que transforma pessoas em números, consumidores e devedores permanentes?

**Pastor presbiteriano e teólogo. Membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Religião da Fundação Perseu Abramo.