Milícias digitais e o assassinato de reputações nas eleições

A estrutura de produção de conteúdos desinformativos tem como mentor mundial Steve Bannon, amigo dos Bolsonaro. Há dois princípios: intimidação e financiamento

Arte: João Firpe

(*) Por Eliara Santana

“No mundo digital, as milícias são grupos organizados que atuam nas redes para espalhar desinformação e discurso e ódio, moldar a opinião pública, intimidar instituições e adversários políticos e destruir reputações. Como no mundo presencial, são grupos que dominam o ambiente e exercem um expressivo poder paralelo.

Portanto, as milícias digitais não são meros agrupamentos de pessoas inconsequentes para espalhar fake news. Longe disso.

É preciso entender essa organização porque não estamos falando apenas em redes que disseminam mentiras, boatos, fake news. A estrutura das milícias digitais é de uma máquina potente de produção de conteúdos desinformativos, disseminação de discurso de ódio e intimidação. E esse processo envolve estratégias muito sofisticadas de comunicação e discurso.

Um exemplo recente dá várias pistas sobre o funcionamento bem organizado das milícias. Um deputado federal do partido Cidadania financiou, com recursos do fundo partidário, uma rede de pelo menos 20 perfis falsos usados para atacar adversários políticos. A notícia foi revelada pela Agência Pública, que informou que as contas eram coordenadas pelo próprio gabinete do parlamentar, que orientava o conteúdo das postagens em um grupo chamado “Guerrilha”. O alvo preferencial das mensagens mentirosas era o Governo Lula.

Outro fato que remete a essa atuação muito articulada é a mobilização dos caminhoneiros instantes após o resultado da eleição em 2022. William Bonner nem havia acabado de pronunciar que Lula estava novamente eleito como presidente do Brasil e os caminhoneiros já tinham fechado estradas e organizado a bagunça questionando o resultado das eleições.

Esses dois exemplos servem para ilustrar muito bem um ponto importantíssimo: a ação das milícias digitais corrói a democracia e o funcionamento institucional e influencia os processos eleitorais negativamente.

Como as milícias se organizam

 

Em fevereiro de 2022, a delegada Denisse Dias Rosa, da Polícia Federal, encaminhou ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, um relatório  mostrando, com riqueza de detalhes e de pesquisa, que o Brasil ficou à mercê de uma organização miliciana digital poderosa e destruidora. O relatório menciona crime contra a democracia e relata que, entre 2018 e aquele momento, pessoas se uniram “de forma estruturalmente ordenada, com unidade de desígnios e divisão de tarefas (produção, difusão, financiamento), com o objetivo de obter vantagens financeiras e/ou político-partidárias por meio da produção e divulgação de informações (texto, imagem e vídeo) em meios de comunicação (redes sociais ou canais de comunicação), de notícias fraudulentas, falsas comunicações de crimes, violação de sigilo funcional, ameaças e crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria), lesando ou expondo a perigo de lesão o Estado democrático de direito e a independência e a harmonia entre os Poderes, ocultando ou dissimulando a natureza, origem, movimentação ou propriedades de valores decorrentes da atividade criminosa”.

O relatório desnudava, pela primeira vez no Brasil, a virulência das milícias digitais no país e mostrava claramente o modus operandi do chamado “gabinete do ódio”, institucionalizado durante o governo de Jair Bolsonaro e que consolidava o ecossistema de desinformação no Brasil.

A partir dessa contextualização, há dois pontos muito fortes para pensarmos a organização miliciana digital: intimidação e financiamento.

Em relação ao processo de intimidação, existe um propósito claro nas ações coordenadas das milícias que é o de destruir reputações para pressionar os opositores (sejam indivíduos ou instituições). E essa destruição é operacionalizada pelo aparato da desinformação, com narrativas falsas que vitalizam, memes mentirosos, campanhas virais para manchar reputações e campanhas de cancelamento, com verdadeiros exércitos de robôs e perfis apoiadores para a destruição em rede. Nesse contexto, as campanhas coordenadas e constantes de desinformação cumprem o papel de manterem o “exército” sempre mobilizado.

Steve Bannon com Bolsonaro: auxiliar de Trump é mentor mundial das milícias digitais.

Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, é o grande mentor mundial da organização das milícias digitais e de táticas inúmeras de propagação da desinformação. E ele sempre manteve grande proximidade com o clã Bolsonaro, utilizando seus arsenal desinformativo para golpear as instituições brasileiras. Em 2021, por exemplo, Bannon fez vários ataques ao Brasil e questionou a lisura do sistema eleitoral do país – garantindo a manutenção e a propagação do discurso radicalizado do ex-presidente Jair Bolsonaro. Num evento em agosto de 2022, ao lado de Eduardo Bolsonaro, Bannon disse: “Vocês veem que não é só nos EUA. Esta eleição (de 2022, no Brasil) é a segunda mais importante no mundo e a mais importante da história da América do Sul. Bolsonaro vai vencer, a menos que seja roubado… Adivinhe pelo quê?”. A fala era uma clara referência às urnas eletrônicas.

Em relação ao tópico financiamento, é quase óbvio dizer que a manutenção de tais “exércitos” organizados e mobilizados, com intensa produção de desinformação, custa muito dinheiro. Não há a menor brecha para se pensar em ações ‘espontâneas’ ou de ‘voluntários’. O que existe é um financiamento elevado para que as milícias digitais funcionem. Nesse sentido, aqueles grupos que  detêm maior poder econômico e tecnológico conseguem dominar os fluxos comunicacionais em escala inédita.

As milícias digitais sintetizam, portanto, a captura do espaço público no ambiente digital por atores muito bem organizados que utilizam a desinformação como arma política. Nesse cenário, fica evidente o poderio de grupos econômicos e plataformas nas ações coordenadas cujo propósito final talvez seja a destruição da democracia – lembrando que a extrema direita sempre prospera no ambiente de caos.

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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