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Alegações dos EUA para tarifaço não têm lastro na realidade, rebate ministro

Mauro Vieira diz que medida nasceu da tentativa de interferência no Judiciário brasileiro, contesta ataques ao Pix e afirma que a motivação política é evidente

Mauro Vieira: “O que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas"Foto: Valter/Campanato/Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira, 16, que o novo tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros tem motivação política, não encontra justificativa econômica e foi construído a partir de uma tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro.

Segundo o chanceler, a ofensiva ganhou caráter explicitamente político quando Trump ameaçou elevar as tarifas caso fosse interrompido o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi nessa mesma ocasião que o governo norte-americano determinou a abertura da investigação comercial usada agora para impor uma sobretaxa de 25% ao Brasil.

“Não houve, portanto, racionalidade na aplicação de tarifas”, afirmou Vieira.

O ministro também rejeitou os argumentos apresentados por Washington para justificar a medida. Para ele, as acusações contra o Pix, a política ambiental e outras práticas brasileiras não correspondem à realidade.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade”, declarou.

O chanceler também reagiu às declarações feitas por Marco Rubio contra o presidente Lula e o governo brasileiro.

Para Vieira, o secretário de Estado ultrapassou os limites de uma divergência comercial e atacou diretamente o chefe de Estado de um país amigo.

“As declarações são inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”, afirmou.

O ministro disse ainda que Rubio agiu “de forma grosseira e arrogante” ao atacar Lula. Na avaliação do chanceler, a postura reforça o caráter político da ofensiva promovida por Washington.

Vieira classificou como descabidas as acusações feitas contra o Pix. O sistema é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras autorizadas a operar no país, inclusive empresas estrangeiras.

“Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix”, declarou.

O chanceler também rebateu as críticas à política ambiental brasileira. Ele lembrou que, desde 2022, o país reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Para Vieira, o Pix e o desmatamento são apenas dois exemplos de argumentos utilizados para tentar dar aparência comercial a uma decisão essencialmente política.

Governo Lula buscou o diálogo

O ministro rebateu a versão de que o Brasil teria resistido às negociações. Desde março de 2025, o governo brasileiro realizou mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone com autoridades norte-americanas, nos níveis presidencial, ministerial e técnico.

Somente com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, ocorreram 11 contatos, incluindo reuniões entre os presidentes dos dois países.

“Desde o primeiro momento, o presidente Lula buscou o diálogo e enfatizou sua disposição de negociar qualquer tema”, afirmou.

As conversas começaram antes mesmo do anúncio do primeiro tarifaço. No próprio dia 2 de abril de 2025, antes da divulgação das tarifas, Vieira conversou por telefone com Greer.

O governo brasileiro também apresentou duas defesas escritas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. Nos documentos, demonstrou que as políticas e práticas investigadas são legítimas, não discriminatórias e não prejudicam o comércio norte-americano.

Em abril deste ano, uma delegação brasileira de alto nível ainda participou de consultas governamentais em Washington. Mesmo assim, o governo Trump decidiu avançar com a cobrança adicional.

Pressão sobre o Judiciário brasileiro

Vieira lembrou que, em abril de 2025, o Brasil havia sido submetido inicialmente a uma tarifa de 10%, o menor percentual aplicado pelos Estados Unidos naquele momento. A cobrança foi posteriormente elevada para 50% após uma carta de Trump ao presidente Lula.

No documento, o presidente norte-americano condicionou expressamente a política comercial à interrupção do processo contra Bolsonaro. Na avaliação do chanceler, a ameaça representou uma tentativa direta de interferência em uma instituição independente do Estado brasileiro.

Foi também naquela carta que Trump orientou o representante comercial dos Estados Unidos a abrir a investigação baseada na Seção 301 da legislação norte-americana.

Vieira ressaltou que esse tipo de investigação é um procedimento unilateral dos Estados Unidos e que não há qualquer justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros.

EUA exigiam abertura sem contrapartidas

De acordo com Mauro Vieira, o que desagradou ao governo norte-americano foi a recusa do Brasil em aceitar exigências consideradas desmedidas durante as negociações.

Washington queria a abertura total, irrestrita e exclusiva de setores inteiros da economia brasileira aos Estados Unidos. Em troca, porém, não oferecia condições semelhantes nem vantagens para os produtos nacionais entrarem no mercado norte-americano.

Foi nesse contexto que Vieira afirmou que os Estados Unidos exigiam uma “capitulação” — ou seja, queriam que o Brasil cedesse integralmente, abrisse seu mercado e abandonasse a defesa dos próprios interesses sem receber qualquer contrapartida.

“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”, disse o ministro.

Relação comercial favorece os EUA

Mauro Vieira também apresentou dados que desmontam o argumento de que os Estados Unidos seriam prejudicados nas relações comerciais com o Brasil.

Nos últimos 15 anos, os norte-americanos acumularam US$ 424 bilhões em superávit no comércio de bens e serviços com o país. Em 2025, 76% dos produtos importados dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação.

A isenção alcançou oito dos dez principais produtos vendidos pelos norte-americanos ao mercado brasileiro.

Os números mostram que a relação comercial já oferece amplo acesso às empresas dos Estados Unidos e reforçam a avaliação do governo Lula de que a nova tarifa não possui fundamento econômico.