Nota de repúdio a atitude racista de magistrado na Bahia

Coletivo de Mulheres Inter Religiosas filiadas ao Setorial Inter Religioso Nacional do Partido dos Trabalhadores

“O racismo religioso no Brasil não é um fenômeno isolado, mas sim um ponto de intersecção onde se encontram o racismo estrutural e o machismo. Ao determinar a remoção da imagem de uma mulher com trajes de matriz africana, o sistema judiciário,  não apenas questiona ou deslegitima uma expressão de fé historicamente perseguida, mas também exerce um controle simbólico e punitivo sobre o corpo feminino negro.

Esse tipo de decisão reforça estigmas coloniais que, há séculos, tentam silenciar e invisibilizar as culturas afro-brasileiras no espaço público. Quando se impede arepresentação de uma mulher vinculada às religiões de matriz africana, não se trata apenas de um conflito religioso: trata-se de uma manifestação de racismo religioso que busca restringir a presença, a dignidade e a legitimidade dessas tradições.

Esse atravessamento evidencia que o racismo religioso opera como um instrumento de manutenção das hierarquias raciais e de gênero, deslegitimando a identidade, a fé e a presença de mulheres negras em espaços de cidadania e poder, como os próprios fóruns de justiça.

Esse atravessamento revela que o preconceito religioso é frequentemente utilizado como ferramenta para perpetuar a hierarquia racial e de gênero, deslegitimando a presença e a identidade, a fé e a presença de mulheres negras em locais de poder e cidadania. A intolerância religiosa caminha de mãos dadas com o machismo e o racismo.

Diante desse contexto, o Coletivo de Mulheres Inter Religiosas filiadas ao Setorial Inter Religioso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) vem a público manifestar profundo repúdio ao episódio ocorrido no estado da Bahia, no qual um magistrado solicitou a retirada da fotografia de uma mulher negra utilizando turbante — elemento de identidade cultural e religiosa — exposta em um espaço institucional do fórum local.

A atitude, amplamente divulgada e atualmente objeto de apuração pelo Conselho Nacional de Justiça, evidencia que o suposto racismo religioso e o preconceito contra símbolos culturais e espirituais de matriz africana, ainda se manifestam em espaços que deveriam ser guardiões da justiça, da democracia e da garantia de direitos.

O turbante, assim como outros elementos da estética e da espiritualidade afro-brasileira, carrega significados profundos ligados à ancestralidade, à identidade e à resistência histórica do povo negro. Tentar invisibilizar esses símbolos é, na prática, negar a contribuição civilizatória das culturas africanas e afro-brasileiras na construção da sociedade brasileira.

É importante reafirmar que as religiões de matriz africana constituem patrimônio cultural, histórico e espiritual do Brasil. Qualquer tentativa de deslegitimar ou constranger expressões identitárias vinculadas a essas tradições ,configura uma forma de violência simbólica e institucional que precisa ser enfrentada com firmeza.

O Coletivo de Mulheres Inter-Religiosas reafirma seu compromisso com a defesa da liberdade religiosa, com o combate ao racismo religioso e com a valorização das identidades negras e afro-brasileiras em todos os espaços da sociedade.

Esperamos que a apuração conduzida pelo Conselho Nacional de Justiça, contribua para o fortalecimento de práticas institucionais comprometidas com o respeito à diversidade cultural, religiosa e étnico-racial do povo brasileiro.

Seguiremos vigilantes, denunciando toda forma de racismo religioso e defendendo o direito de existir, expressar e celebrar nossas tradições, nossos símbolos e nossa ancestralidade.

Respeitem nossas culturas.

Respeitem nossas tradições.

Respeitem nossa ancestralidade.

Por liberdade religiosa, dignidade e respeito.”

Coletivo de Mulheres Inter-Religiosas e
Setorial Inter-Religioso Nacional