Nota Pública – Justiça por Mãe Bernadete: contra o racismo, o feminicídio e a violência aos povos de terreiro.
Setorial Inter-Religioso do PT / Núcleo de Axé
Publicado em
Com o coração firme e atravessado pela dor, nós, do Setorial Inter-Religioso do Partido dos Trabalhadores e Trabalhadoras (PT) , através do Coletivo de Mulheres Inter-religiosas e do Núcleo de Axé, nos pronunciamos diante do julgamento ocorrido nesta semana sobre o assassinato de Mãe Bernadete Pacífico, mulher de força ancestral, liderança quilombola, ialorixá e guardiã de seu povo.
Recebemos a sentenca, como um passo importante na travessia contra a impunidade. Ainda assim, é preciso dizer com a voz inteira: o que aconteceu com Mãe Bernadete também é feminicídio. Foi violência dirigida a uma mulher negra, sagrada em sua missão, que sustentava sua comunidade com cuidado, coragem e sabedoria.
Quando tombam mulheres como ela, não é um caso isolado. É o encontro doloroso entre o racismo estrutural, a intolerância religiosa e a violência de gênero. É a tentativa de silenciar aquelas que lideram, que acolhem, que mantêm viva a chama da ancestralidade.
Mãe Bernadete foi atingida por um sistema que insiste em ferir mulheres negras, especialmente aquelas que ocupam lugares de autoridade espiritual, política e comunitária. Sua partida nos convoca a ampliar o entendimento do feminicídio, reconhecendo suas múltiplas camadas, inclusive quando atravessadas pela fé e pela defesa dos territórios tradicionais.
Diante disso, reafirmamos, com a força das nossas mais velhas:
– A necessidade de reconhecer a violência sofrida por Mãe Bernadete como expressão de feminicídio, entrelaçado ao racismo e à intolerância religiosa;
– A urgência de políticas públicas que protejam mulheres negras, lideranças de terreiro e quilombolas;
– O fortalecimento das redes de cuidado e enfrentamento à violência de gênero, com olhar atento às dimensões raciais e religiosas;
– A responsabilização de todos os envolvidos, rompendo com os ciclos históricos de impunidade;
– O compromisso com a memória de Mãe Bernadete, como símbolo vivo de luta, dignidade e resistência.
Não aceitaremos o silenciamento das nossas mães. Não aceitaremos que calem nossas ialorixás, nossas lideranças, nossas guardiãs.
Seguiremos, como mulheres de axé e homens de axé transformando a dor em luta, o luto em movimento, e a memória em caminho. Denunciaremos o racismo, o feminicídio e toda forma de violência contra os povos de terreiro e de matriz africana.
Mãe Bernadete vive em nós.
Hoje e sempre.
Setorial Inter-Religioso do PT
Núcleo de Axé

