Operação mista no Metrô do Recife: reforço de frota ou risco anunciado?
Matéria especial – Transporte e Mobilidade Urbana Autor: Eng. Afonso Carneiro Filho / Setorial de Transportes do PT
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O anúncio do Ministro das Cidades, Jader Filho, de que “técnicos da CBTU” teriam garantido não haver problema em operar no Metrô do Recife trens vindos do Metrô de Porto Alegre (Série 100) e do Metrô de Belo Horizonte (Série 900) pode parecer, à primeira vista, uma solução rápida para aumentar a frota e melhorar o atendimento ao usuário.
Porém, Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do Partido dos Trabalhadores alerta que essa iniciativa pode se transformar em uma operação de risco.
A questão central não é apenas colocar trens nos trilhos, mas assegurar que eles funcionem com segurança dentro das condições específicas do sistema de Recife.
Um trem pode estar conservado externamente e internamente, mas isso não garante confiabilidade técnica. Segurança metroviária depende de compatibilidade entre via, energia, sinalização e características do trem.
A operação conjunta de três tipos de trens diferentes pode até funcionar, porém em condição degradada, exigindo intervalos maiores, distanciamento entre composições e velocidade limitada, o que reduziria a atratividade do metrô e manteria o sistema operando abaixo do padrão esperado para uma capital. Sem contar que o custo para manter essa frota mista, vai jogar o OPEX do Metrô de Recife, nas nuvens.
Além disso, trens não projetados para as curvas, sobre elevações e aclives locais, podem enfrentar problemas operacionais. Há risco de instabilidade em curvas e possibilidade de descarrilamento caso as velocidades máximas e mínimas não sejam rigorosamente controladas.
Pode acontecer problemas elétricos e mecânicos envolvendo pantógrafos, além de quedas de energia frequentes, devido a ajustes de relés que, deverão atender três padrões diferentes de frota e, se alterados, poderão afetar os retificadores e transformadores das subestações.
Outro ponto crítico é o fator humano. Quanto mais complexa e degradada a operação, maior a chance de erro operacional, aumentando o risco de acidente grave. Em transporte público, improviso e insegurança não podem ser tratados como simples fase de adaptação.
Seis questões que também precisam ser esclarecidos publicamente:
O Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do Partido dos Trabalhadores, gostaria também de esclarecimentos objetivos sobre seis questões essenciais que, certamente, serão conferidas pelos órgãos de controle como o TCU, TCE MPF e MPE.:
Como a Trensurb pode fornecer trens ao Recife estando no PND?
Se a Trensurb não pode receber recursos por estar vinculada ao Programa Nacional de Desestatização, como pode fornecer cinco trens e sobressalentes para outra empresa, reduzindo a frota destinada ao atendimento da população de Porto Alegre.
Como a CBTU ou outro órgão ou empresa federal adquiriram os trens de Série 900 do Metrô de Belo Horizonte e os trens Série 100 de Porto Alegre?
Os trens mineiros estavam sendo vendidos como sucata para um ferro-velho no Mato Grosso que teve o contrato rompido, para o envio de 20 carros ao Recife. Os trens de Porto Alegre foram desfalcados da frota que atende o povo de Porto Alegre que ficou prejudicado. A dúvida central é quanto custou e quem autorizou a aquisição desses veículos usados e sobressalentes, a CBTU ou outra empresa/órgão governamental, ou se houve doação sem custos?
Quem pagou o transporte dos trens de Porto Alegre e Belo Horizonte até Recife?
A operação logística exige mais de 80 carretas, guindastes de grande porte, para movimentação de caixas e truques, além do transporte de sobressalentes.
Onde serão incorporados os trens usados, adquiridos de Belo Horizonte e Porto Alegre?
Serão incorporados ao patrimônio da CBTU em Recife, que está sobre as regras do PND, caso não seja, onde seria incorporado esse patrimônio?
Porque sistemas de transportes metroviários privatizados recebem recursos do governo, para aquisição de trens novos e investimentos em novas instalações, enquanto que empresas do ramo estatais, como o Metrô de Recife, recebem trens velhos e ainda desfalcam a frota operacional do Metrô de Porto Alegre?
Quais rubricas orçamentárias essas despesas e investimentos foram lançadas? Os investimentos para aquisição de trens, mesmo que usados, peças sobressalentes e seu transporte, deveriam estar previstos no orçamento do Ano 2025 ou 2026, assim como a ampliação dos custos com manutenção dos trens, sendo assim em quais rubricas orçamentárias essas despesas e investimentos contemplaram esses recursos para CBTU Recife?
O Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do Partido dos Trabalhadores, vem ainda ressaltar e ressalvar que: se houver acidentes, envolvendo trabalhadores e/ou usuários, assim como danos ao patrimônio do Metrô do Recife, a culpa não deve ser apurada junto aos trabalhadores que executaram ordens superiores, para operar de forma insegura e sim junto aos técnicos e dirigentes, que garantiram sua viabilidade, autorizaram e impuseram a operação insegura, sujeita a erros humanos.
Finalizando, metrô não é vitrine, é transporte público com segurança.
O Recife precisa de mais trens, mais oferta e melhor serviço. Porém, não se pode tratar o metrô como laboratório de improvisações. Trens bem conservados e com aparência renovada não resolvem o essencial: segurança operacional, compatibilidade técnica e confiabilidade diária.
Antes de consolidar essa operação mista, é indispensável que as autoridades esclareçam as questões levantadas e apresentem garantias técnicas públicas de segurança nos serviços prestados. Caso contrário, a medida pode se tornar uma aventura perigosa e, se algo der errado, a responsabilidade deve ser atribuída a quem tomou a decisão, e não aos trabalhadores que apenas cumpriram ordens.
Brasília 11 de fevereiro de 2026.
Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do Partido dos Trabalhadores