Rede Nacional de Formação fortalece a ação política do Setorial Inter-religioso do PT
Luiz Eduardo de Souza Pinto[1]
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Na sociedade contemporânea, a religião continua a ocupar um lugar importante na vida social. Ela organiza valores, produz pertencimentos, orienta visões de mundo, molda comportamentos e influencia, de modo direto, as disputas em torno da política, da democracia e dos direitos sociais. No Brasil, essa presença permanece ampla e socialmente enraizada. Os dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que 90,7% da população declarou pertencimento religioso, confirmando que a fé segue como dimensão viva da experiência coletiva no país.
Esse dado impõe um desafio político incontornável. A religião não pode ser tratada como resíduo do passado, nem como assunto estritamente privado, sem efeitos públicos. Ela participa da formação de valores, das formas de sociabilidade e da maneira como milhões de brasileiros interpretam a realidade. Ignorar isso seria desconhecer o país real.
É nesse cenário que a presença organizada do Partido dos Trabalhadores no campo religioso se torna necessária. Sem abrir mão da laicidade do Estado, princípio inegociável de qualquer projeto democrático, o PT reconhece que a fé integra a vida do povo brasileiro e atravessa o cotidiano das classes trabalhadoras. Isso não significa doutrinar igrejas, instrumentalizar crenças ou confundir partido com religião. Significa, ao contrário, construir diálogo com diferentes comunidades de fé a partir de valores comuns, como o combate à fome, a defesa da dignidade humana, a justiça social, os direitos do povo e o enfrentamento de toda forma de violência e exclusão.
O avanço do Setorial Inter-religioso do PT precisa ser lido a partir dessa realidade. O que está em curso não é um movimento passageiro, mas um processo de organização política que ampliou a presença do partido em espaços onde a disputa de valores se tornou central. Em 2025, o Setorial registrou crescimento nacional de 268% e alcançou mais de 9 mil filiados e filiadas, com presença nos 27 diretórios estaduais.
Mas esse crescimento não se resume a números. Ele revela a chegada de novas lideranças comunitárias, militantes de pastorais, jovens religiosos, agentes de base e sujeitos coletivos que antes muitas vezes não enxergavam no partido um espaço para articular fé, compromisso democrático e transformação social. O dado quantitativo, portanto, expressa um movimento político mais amplo: o PT está a criar canais de escuta, acolhimento e organização junto grupos que atuam nas bases e nos diversos espaços sociais.
É justamente por isso que a formação ganha relevo. Nenhum crescimento organizativo se sustenta sem elaboração política. Nenhuma presença nacional se consolida sem conhecimento profundo da realidade. Se a religião ocupa hoje um espaço decisivo na disputa política, torna-se indispensável preparar militantes e lideranças com densidade teórica, leitura de conjuntura, sensibilidade social e vínculo com a vida concreta do povo.
Formar, nesse contexto, não é apenas transmitir conteúdos. É qualificar a ação política, ampliar a escuta, fortalecer a organicidade partidária e preparar quadros para atuar com seriedade em territórios marcados por desigualdade, pluralidade religiosa e conflito de valores.
É nesse horizonte que se constrói a Rede Nacional de Formação do Setorial Inter-religioso do PT. A iniciativa surge para fortalecer, em todo o país, os processos permanentes de formação política, o diálogo inter-religioso e a organização popular nos territórios. Seu objetivo é articular militantes e lideranças que atuam no campo religioso e que estejam dispostos a contribuir nos estados, municípios e comunidades, conectando experiência de base, reflexão política e ação formativa contínua.
A Rede não deve ser compreendida como uma agenda interna ou restrita ao partido. Ela amplia a capacidade do PT de dialogar com a sociedade brasileira tal como ela é: diversa, desigual, religiosa e atravessada por profundas diversidades culturais e disputas simbólicas. Ao reunir especialistas, lideranças, militantes e saberes populares, a proposta ajuda a formar sujeitos políticos mais preparados para atuar junto ao povo, interpretar a realidade e construir presença crítica nos debates que atravessam a vida cotidiana.
Esse esforço também reafirma o sentido propriamente inter-religioso da iniciativa. O PT reconhece que o Brasil é plural e que a vida religiosa do país não se resume a uma única tradição. Católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, como candomblé, umbanda e outras tradições afro-brasileiras, espíritas, povos de tradições indígenas, muçulmanos e tantas outras expressões de fé e espiritualidade compõem o tecido social brasileiro. Fortalecer uma rede inter-religiosa é, também, afirmar o respeito à diversidade religiosa e enfrentar a intolerância, o preconceito e a violência contra grupos historicamente discriminados.
Nesse processo, merece destaque a atuação do coordenador nacional do Setorial Inter-religioso, Guiterres Barbosa, que vem conduzindo, com consistência política e capacidade organizativa, o fortalecimento do Setorial e a ampliação de sua presença em escala nacional. Também é fundamental registrar a atuação de Tássia Rabelo, secretária nacional de Formação Política do PT e diretora da Escola Nacional de Formação, cuja visão estratégica reafirma a centralidade da formação política na vida partidária e seu papel decisivo na preparação de uma militância mais qualificada, consciente e enraizada na realidade do país.
O lançamento da Rede Nacional de Formação, realizado em 13 de abril, expressa esse acúmulo. A abertura do evento contou com a participação do comentarista político e jornalista Thomas Traumann, contribuindo para qualificar ainda mais a reflexão proposta através da realização de uma análise de conjuntura. Mais do que abrir uma nova frente de trabalho, o encontro mostrou que o Setorial Inter-religioso compreendeu uma questão decisiva do Brasil contemporâneo: a disputa política também passa pela formação de consciência, pela reconstrução de vínculos com o território e pela capacidade de dialogar com o povo em sua linguagem, em sua cultura e em sua experiência concreta de vida.
Ao fortalecer o Setorial Inter-religioso e consolidar uma Rede Nacional de Formação, o PT se conecta ainda mais com as bases, amplia sua presença social e reafirma que a defesa da democracia e da justiça social também exige diálogo sério com a pluralidade religiosa do país. Em um Brasil profundamente plural, mas também profundamente atravessado pela fé, organizar esse campo com responsabilidade política, respeito à laicidade e compromisso com a dignidade humana é parte da construção de um projeto popular para o presente e para o futuro.
Quem deseja participar da Rede Nacional de Formação do Setorial Inter-religioso do PT pode realizar sua inscrição por meio do formulário disponível aqui
[1] Professor de Universidade Pública. Pós-doutor em Ciência Política (UFMG) e doutor em Sociologia (UFMG). Atuou como coordenador executivo do Centro Nacional Fé e Política Dom Helder Câmara da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e atualmente colabora na coordenação de Formação Política do Setorial Inter-religioso do PT Nacional.
