Solidariedade ao Padre Júlio Lancellotti
Nota ecumênica e inter-religiosa de solidariedade do Setorial Inter-Religioso do PT Fortaleza ao padre Júlio Lancellott
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Nós do Setorial Inter-Religioso do PT Fortaleza, cujos filiados compõem igrejas cristãs, comunidades de fé, povos de terreiro, religiões de matriz africana, lideranças religiosas, agentes pastorais, movimentos ecumênicos e inter-religiosos, bem como pessoas comprometidas com a dignidade humana, a justiça social e a defesa da vida, manifestamos nossa profunda solidariedade ao Padre Júlio Lancellotti diante das recentes medidas que resultaram em sua censura e silenciamento público.
Tal decisão, que inclui a suspensão da transmissão de celebrações religiosas e a interrupção de suas manifestações em redes sociais, ocorre em um contexto marcado por campanhas de desinformação, calúnia, difamação e pela crescente cultura do ódio, que atinge de forma violenta aqueles e aquelas que assumem uma postura ética, profética e comprometida com os pobres, as pessoas em situação de rua, as populações marginalizadas e historicamente excluídas.
Como expressões diversas da fé e da espiritualidade, reconhecemos no ministério do Padre Júlio um testemunho coerente com os valores fundamentais que atravessam nossas tradições: o cuidado com a vida, o respeito à dignidade humana, a solidariedade concreta e a defesa dos que sofrem. Seu trabalho pastoral, construído ao longo de mais de quatro décadas, dialoga profundamente com os princípios do Evangelho e com os saberes ancestrais dos povos de terreiro, que ensinam que ninguém caminha só e que a vida só floresce quando há partilha, axé, cuidado e justiça.
Esta situação nos remete a memórias históricas de perseguição às vozes proféticas. No campo cristão, recordamos especialmente as décadas de 1970 e 1980, quando sacerdotes, teólogos, leigos e leigas comprometidos com a Teologia da Libertação foram silenciados, censurados ou afastados de seus territórios de missão. Entre os povos de terreiro, conhecemos, desde sempre, a experiência da violência institucional, do racismo religioso, da criminalização das práticas ancestrais e do silenciamento sistemático de lideranças espirituais que ousaram existir e resistir.
Padre Júlio fez, de forma livre e consciente, uma opção radical pelos últimos, assumindo os riscos de estar ao lado dos que o sistema insiste em descartar. Como ensina Jesus de Nazaré:
“Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mt 16,25).
“Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa, essa a salvará” (Lc 9,24).
Da mesma forma, os povos de terreiro aprendem com seus ancestrais que viver é servir, que o axé se renova no cuidado com o outro e que a espiritualidade verdadeira se manifesta na defesa da vida, especialmente da vida ferida, violentada e invisibilizada.
Respeitamos as instâncias institucionais e as responsabilidades próprias de cada tradição religiosa. Contudo, afirmamos que silenciar uma voz profética não é apenas um ato administrativo: é um gesto que fere comunidades inteiras, interrompe processos de cuidado e atinge diretamente aqueles e aquelas que mais precisam.
Nossa solidariedade se estende às pessoas em situação de rua, às comunidades atendidas, aos voluntários, agentes pastorais, militantes sociais, povos de terreiro e organizações que, cotidianamente, constroem essa obra de amor, acolhimento, partilha e resistência. A todos e todas, deixamos uma palavra firme: não desanimem. A obra da justiça é maior que qualquer instituição religiosa, política ou econômica. A vida sempre encontra caminhos para florescer.
Inspirados pelas palavras de Jesus — “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25,40) — e pelos ensinamentos ancestrais das religiões de matriz africana, que afirmam a centralidade da comunidade, do cuidado e do equilíbrio, reafirmamos nosso compromisso ecumênico e inter-religioso com a defesa da vida, dos direitos humanos, da liberdade religiosa e da justiça social.
Seguiremos unidos e unidas, em fraternidade, sororidade e ancestralidade, certos de que, se tentarem calar as vozes proféticas, outras se levantarão; se fecharem caminhos, novos terreiros, novas comunidades e novas trilhas nascerão.
Padre Júlio não está só.
Os pobres não estão sós.
A justiça, o axé e o Reino da vida não se calam.
Setorial Inter-Religioso do PT Fortaleza-Ce
