Por Éden Valadares (*)
Eu estava ali, diante da televisão, e confesso que o coração apertou. Não por medo. Por orgulho. Pelo orgulho de ver um filho do chão batido, um homem que tem o suor do vaqueiro escorrendo na alma, encarar os olhos de quem sempre nos viu por cima do ombro e dizer, sem gritar, sem xingar, sem pedir licença: eu cheguei. E não peço permissão para ficar.
A noite de ontem deixou de ser um debate televisivo e se transformou em uma página da História. Jerônimo Rodrigues, filho do povo, negro de pele marcada, indígena de sangue guerreiro, olhou para ACM Neto e devolveu cada pedra com a firmeza de quem construiu a própria vida na base do braço e da dignidade. Enquanto Neto esnobava com a arrogância de quem nasceu em berço esplêndido e acha que governar a Bahia é um direito de família, Jerônimo lembrou que governo se faz com o povo, não com o título de herança.
Quem é baiano e baiana sabe como sempre doeu ver aquela cara de desprezo do neto das oligarquias. Como arde na pele de cada pobre ouvir aquele tom debochado, aquele olhar de desdém. Mas como foi lindo, como foi glorioso, ver Jerônimo não se rebaixar. Não precisou. A história falou por ele. A origem falou por ele. A força de quem vem do interior, de quem sabe o que é acordar antes do sol para ganhar o sustento da família, de quem aprendeu que a vida não dá moleza pra ninguém, essa força não se compra com dinheiro velho nem se intimida com pose de sucessor.

Aquilo ali foi a luta de classes nua e crua, bailando na frente das câmeras. Foi o vaqueiro contra o coronel. Foi o indígena contra o latifúndio. Foi o preto livre contra o senhor de engenho que nunca aceitou que o mundo mudou. E quando Jerônimo respondeu com a calma de quem tem a verdade do lado, eu vi nossos pais, nossas avós, nossos irmãos e irmãs, vi todos os que vieram antes de nós e que nunca tiveram voz, vi a força do povo baiano se levantando naquele homem.
A fala não foi apenas política. Foi poética. Foi histórica. As palavras de Jerônimo — e só poderiam ser ditas por Jerônimo — espalharam imagens de luta, de revolta, mas também de resiliência, de respeito. Foi o parente vivo; o negro de cabeça erguida; a força incontornável da cabocla. A ancestralidade derrotando a linhagem. Cada frase tinha o cheiro da poeira da terra que suplica por chuva, o gosto do aipim cozido na lenha, o som do berrante no gado, a cor dos rios que descem da Chapada, o ritmo da capoeira, a força das romarias e também dos atabaques. Ali, naquela troca de olhares, naquela postura altiva do governador contra a empáfia do rival, a Bahia se viu. A Bahia inteira, a verdadeira, a que não aparece nas colunas da alta sociedade, se reconheceu e se sentiu gigante.
E não adianta tentar rebater com análises de especialistas, com pesquisas, com manobras tecnicistas. O que Jerônimo fez ontem não cabe em gráfico. Cabe no peito. Cabe na memória de quem sempre foi pisado e viu um dos seus na linha de frente, sem medo, sem recalque, com a cabeça erguida e o coração do tamanho do mundo. ACM Neto pode ter a herança, o sobrenome e os aliados com outros tantos sobrenomes. Mas Jerônimo tem a nossa carne, o nosso suor, a nossa fé. E isso, a Bahia sabe, dinheiro nenhum compra.
Essa cena já entrou para o almanaque da nossa resistência. Ela vai ecoar nos terreiros, nas igrejas, nas feiras, nos sindicatos, nas escolas do interior, nas rodas de samba, nas conversas de bar. Vai ser contada pros netos, pros bisnetos, como a noite em que um homem do povo calou a arrogância de uma elite que nunca nos respeitou. E quando Jerônimo virou as costas e saiu com a dignidade de quem cumpre uma missão, a gente teve certeza: a Bahia não é mais a mesma. Nunca mais será.
Com tiranos não combinam nossos corações. E ontem, meu coração bateu mais forte. Bateu baiano. Bateu vingado. Bateu livre.
(*) Secretário nacional de Comunicação do PT.