Desinformação como arma suja de guerra
Eliara Santana mostra a guerra híbrida de Flávio Bolsonaro, cujo objetivo não é só enganar: é construir percepções erradas com uso intencional de mentiras
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(*) Por Eliara Santana
“A desinformação, quando utilizada como arma de guerra, refere-se à disseminação deliberada de informações falsas, manipuladas ou fora de contexto para enganar, confundir e manipular opiniões públicas, governos e militares, sendo uma ferramenta central na chamada Guerra Híbrida“.
O trecho acima é da tese “A desinformação como ferramenta da guerra híbrida”, defendida em 2020 pelo capitão de Mar e Guerra do Corpo de Fuzileiros Navais (CMG FN), Alexandre Henrique Batista Barbosa, como requisito parcial para a conclusão do Curso de Política e Estratégia Marítimas da Escola de Guerra Naval. Trouxe esse conceito mais específico de desinformação, explicado sob o ponto de vista de uma “arma de guerra”, para que possamos refletir sobre essa estratégia, que está se tornando um problema incontrolável no Brasil e sendo usada, inclusive, pela campanha do candidato Flávio Bolsonaro.
No último fim de semana, o candidato compartilhou um vídeo para supostamente falar do endividamento das famílias – citando dados aleatórios e fazendo conexões absurdamente mentirosas. Ele, por exemplo, culpou o governo Lula pela abusiva taxa de juros no Brasil, atribuição do Banco Central que é defendida pela mídia, inclusive. O vídeo mistura dados da realidade com falseamentos e mentiras, criando intencionalmente uma confusão para as pessoas e manipulando percepções da realidade.
Mas o ponto central do vídeo foi o uso deliberado da desinformação para induzir a opinião pública a conclusões completamente equivocadas em relação a dois temas cruciais para o Brasil: as bets e o endividamento das pessoas e a pobreza, com a fome e a insegurança alimentar. Como não tem nenhum projeto para o país, o candidato precisa recorrer à manipulação de dados, fatos e informações para atrair o público. Vamos, portanto, aos fatos.
Primeiro, a questão da fome.
Em 2014 o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, atingindo esse status pela PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA. Era o governo de Dilma Rousseff, e as políticas públicas desenvolvidas desde 2003 pelas administrações petistas – como o Bolsa Família e o investimento em segurança alimentar – garantiram esse resultado. Naquele momento, o Brasil havia reduzido a subnutrição, uma chaga entre nós, para menos de 2,5% da população.
Em 2022, com o desmonte completo de programas sociais, que levaram a registros de insegurança alimentar grave, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. Era o governo Jair Bolsonaro, e dados mostram o resultado do desmonte: naquele momento, a fome crônica havia atingido 4,1% dos brasileiros, e a situação no país era mais grave do que a média global, com milhões de brasileiros sem saberem quando iriam fazer a próxima refeição.
Segundo levantamento da FAO/ONU, 61 milhões de brasileiros enfrentaram dificuldades para se alimentar entre 2019 e 2021, sendo que 15 milhões deles passaram fome. Para comprar, entre 2014 e 2016, eram menos de 4 milhões em insegurança alimentar grave. Na avaliação de Daniel Balaban, diretor do Programa de Alimentos da ONU no Brasil, “a pandemia não é a maior culpada pelo Brasil estar de volta a esses números extremamente altos de pessoas com fome. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Essa população precisa do apoio de políticas públicas para ser incluída na cidadania, incluída na sociedade”.
A verdade, sem manipulação, é que, com Jair Bolsonaro, os brasileiros voltaram a sentir fome e passaram a frequentar a fila do osso, buscando restos de ossos para terem o que comer.
Em 2025, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, pela segunda vez, graças ao investimento do Governo Lula na população mais pobre, sintetizada pelo Plano Brasil Sem Fome e várias outras iniciativas que garantiram que o país saísse novamente da categoria de insegurança alimentar grave.
De acordo com levantamento da ONU, a saída do Mapa da Fome em 2014 marcou a retirada de milhões de pessoas da miséria; a saída em 2025 ressaltou a redução da insegurança alimentar grave para menos de 2,5% da população.
Segundo Jorge Meza, representante da FAO/ONU no Brasil, em artigo publicado no jornal Estado de São Paulo em 14 de agosto de 2025, “a recuperação mostra que, com vontade política, participação social e coordenação entre esferas de governo, é possível reverter retrocessos em pouco tempo. Os dados de insegurança alimentar grave também são positivos: houve uma redução de 6,6% entre 2021 e 2023 para 3,4% no último triênio (2022-2024). São quase 7 milhões de pessoas que deixaram essa situação.
Desde 2023, o país reativou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e restabeleceu o papel do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, com forte participação da sociedade civil. Ações como a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos e da alimentação escolar, a valorização e o financiamento da agricultura familiar foram fundamentais nesse processo”.
E em 2026, o que faz Flávio Bolsonaro? Ignora todos os dados e informações e usa um vídeo de pessoas na fila do osso da época do governo do pai dele, Jair Bolsonaro, para dizer cinicamente que os brasileiros enfrentam a fome. O nome disso é patifaria, não há eufemismo que dê conta de suavizar.
Agora, sobre as bets.
O governo do presidente Lula sempre manifestou preocupação com o descontrole das apostas online – e sempre enfrentou embates, uma vez que as tentativas de regulamentação sempre se transformam em “controle” ou “censura” no dizer da extrema direita.
O governo intensificou a ofensiva do mercado das bets e sancionou a chamada Lei das Bets numa tentativa de regulamentar o mercado sem controle. O tema nunca saiu do rol de preocupações do governo, desde 2024. Agora, a verdade: foi a falta de regulação da atividade durante o governo Jair Bolsonaro que fez esse mercado explodir no Brasil.
Em 2018, as bets (ou apostas esportivas de quota fixa) foram liberadas no Brasil pelo governo Michel Temer. No entanto, de acordo com a Lei 13.756/2018, havia a necessidade de se criarem diretrizes para o funcionamento e a fiscalização do mercado de bets em dois anos a partir da sanção, mas isso não foi feito pelo governo Bolsonaro, que assumiu em seguida, e a bomba foi jogada no colo do governo atual. E foi dessa forma que o jogo do tigrinho, entre outros, tomou conta do Brasil. Mas, de modo cínico e manipulador, Flávio, que é Bolsonaro, se esquece do “detalhe” em seu vídeo.
Voltando aos elementos principais do conceito exposto no início do artigo: a informação é uma munição, e a desinformação é uma arma de guerra. Suja. Muito suja. E que está sendo usada sem qualquer controle no Brasil, consolidando uma perigosa realidade paralela.
A desinformação não é apenas sobre “enganar” as pessoas. É sobre construir percepções completamente erradas a partir da instrumentalização intencional de mentiras, como o pré-candidato fez em seu vídeo. Construir certas narrativas pra enganar é algo que sempre existiu, claro. Mas no mundo digital, essa escala atinge níveis assustadores e se torna uma arma estratégica e perigosíssima.”
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
