O discurso antivacina propagado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta a ganhar eco entre representantes da extrema direita brasileira justamente quando o Brasil trabalha para recuperar as coberturas vacinais e impedir o retorno de doenças que já tinham sido controladas ou eliminadas. Trump decidiu promover mudanças nas recomendações de vacinação infantil nos Estados Unidos e, na esteira, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), cassado, afirmou que não vai vacinar a filha e defendeu que o Brasil siga as regras do país norte-americano.
A ofensiva contra as vacinas ocorre em um momento especialmente preocupante para a saúde pública. Os Estados Unidos enfrentam, em 2026, o maior surto de sarampo desde 1991, com mais de 2,4 mil casos confirmados. No Brasil, novos casos da doença, principalmente em São Paulo, levaram o Ministério da Saúde a reforçar a vacinação e as medidas de vigilância.
Crianças, as maiores vítimas de Trump
Na segunda-feira, 10, o presidente norte-americano assinou uma ordem executiva que pretende reduzir o número de vacinas recomendadas para crianças. A orientação também prevê que a imunização contra sarampo, caxumba e rubéola, atualmente oferecida em uma única vacina tríplice viral, seja aplicada separadamente.
Trump afirmou que, décadas atrás, crianças recebiam uma quantidade muito menor de vacinas e associou, sem respaldo científico, o aumento dos diagnósticos de autismo à imunização. A afirmação contraria as evidências científicas disponíveis.
Em novembro de 2025, um comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) voltou a analisar as evidências sobre o tema e confirmou que não existe relação causal entre vacinas e transtornos do espectro autista. A análise considerou 31 estudos realizados em diferentes países e publicados entre 2010 e 2025.
A conclusão reafirma a posição da organização de que as vacinas infantis não causam autismo. O comitê também destacou que o conjunto de evidências disponíveis sustenta a segurança das vacinas utilizadas na infância.
A própria orientação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirma que não há evidências científicas de que separar a tríplice viral em três aplicações individuais traga benefícios. Segundo a agência, a vacinação é muito mais segura do que contrair sarampo, caxumba ou rubéola.
Especialistas também alertam que a divisão das vacinas pode aumentar o intervalo entre as doses e dificultar a conclusão dos esquemas vacinais, deixando crianças desprotegidas por mais tempo.
Eduardo Bolsonaro segue as regras de Trump
Na sexta-feira, 7, Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais em que critica a obrigatoriedade da vacinação para crianças brasileiras. A exigência está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece a obrigatoriedade da vacinação nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias.
“No Brasil, papai Lula obriga que todas as crianças se vacinem com tudo quanto é tipo de coisa. E se der alguma coisa errado, certamente ele não será o responsabilizado”, afirmou o ex-deputado.
No vídeo, o ex-deputado também relatou ter assinado uma declaração juramentada no Texas, estado onde vive com a família, para isentar a filha da obrigatoriedade de vacinação e conseguir matriculá-la em uma escola. Eduardo defendeu que o modelo adotado no estado norte-americano seja reproduzido no Brasil.
Caracterizando o pronunciamento de Bolsonaro como negacionista, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, divulgou um vídeo em suas redes sociais trazendo como a imunização infantil é importante.
“Liberdade é proteger nossas crianças contra doenças inevitáveis. Mas existem pessoas com esse sujeito aqui [Eduardo Bolsonaro] que tentam te convencer do contrário, inclusive não falando e mostrando o sofrimento e as mortes que acontecem quando a vacinação cai”, ressaltou o ministro em sua publicação.
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Sarampo volta a acender alerta
O contexto torna a ofensiva contra a vacinação ainda mais preocupante. O sarampo está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis e a redução das coberturas vacinais cria condições para que o vírus volte a circular.
Nos Estados Unidos, 2026 já registra o maior surto de sarampo desde 1991, com mais de 2,4 mil casos confirmados. O avanço ocorre justamente em meio à mudança de orientação promovida pelo governo Trump.
No Brasil, novos casos também levaram autoridades sanitárias a reforçar a vigilância. A circulação recente do vírus está relacionada à importação por viajantes que chegam do exterior, o que demonstra a importância de manter altas coberturas mesmo depois da eliminação da circulação endêmica da doença.
O Brasil chegou a perder, em 2019, a certificação de eliminação do sarampo após a reintrodução do vírus e a manutenção da transmissão por mais de 12 meses. O país recuperou o certificado em 2024, depois da retomada das ações de vacinação e vigilância epidemiológica.
Governo Lula retoma vacinação
Na contramão do movimento antivacina, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem trabalhando para recuperar as coberturas vacinais e fortalecer o Programa Nacional de Imunizações (PNI).
A estratégia envolve campanhas nacionais, ampliação da oferta de imunizantes, busca ativa por pessoas com doses atrasadas e ações específicas para regiões onde há risco de circulação de doenças.
Uma das iniciativas mais recentes é a Campanha Nacional de Multivacinação, iniciada em 3 de agosto. A mobilização tem como foco a população com doses em atraso, especialmente crianças e adolescentes de até 15 anos.
A campanha segue até 1º de setembro e terá o Dia D em 22 de agosto. Durante a mobilização, o SUS oferece diferentes vacinas previstas no Calendário Nacional de Vacinação. A proposta é que as equipes avaliem a caderneta de cada pessoa e, quando necessário, atualizem diferentes doses na mesma visita.
A iniciativa integra um esforço mais amplo de recuperação das coberturas vacinais após anos de queda. Além do sarampo, o governo também reforçou a proteção contra doenças que tiveram sua circulação reduzida ou eliminada graças à vacinação.
Entre as mudanças está a ampliação do esquema contra a poliomielite, com uma segunda dose de reforço aos 4 anos. Com a alteração, o calendário passa a contar com cinco doses da vacina contra a doença.
A campanha também oferece imunizantes contra poliomielite, sarampo, caxumba, rubéola, varicela, hepatites, febre amarela, influenza, Covid-19 e outras doenças previstas no calendário do SUS.
Vacinação reforçada em São Paulo
A mobilização contra os avanços do Sarampo no Brasil ocorre simultaneamente à Campanha Nacional de Multivacinação. Diante da identificação de novos casos em São Paulo, o Ministério da Saúde ampliou as recomendações de vacinação para interromper a circulação do vírus.
A orientação passou a contemplar pessoas de 6 meses a 59 anos nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, independentemente de terem recebido doses anteriormente.
Para crianças de 6 a 11 meses que vivem em áreas com circulação do vírus, também foi recomendada a chamada “dose zero”, uma aplicação adicional antes do início do esquema de rotina.