*Gutierres Barbosa
Os últimos seis meses marcaram uma nova etapa na construção do diálogo entre o Partido dos Trabalhadores e os diversos segmentos religiosos. Mais do que uma estratégia eleitoral, o trabalho desenvolvido pelo Setorial Nacional Inter-religioso do PT tem reafirmado um compromisso histórico com sua base social, popular e comunitária, presente nas igrejas, nas comunidades eclesiais de base, nos terreiros, nos movimentos de fé e política e nas inúmeras organizações religiosas que atuam diariamente na defesa da vida e da dignidade humana.
O PT nasceu conectado às expressões de fé do povo brasileiro, inspirado por valores religiosos que contribuíram para a sua construção. Ao longo dos anos, entretanto, as transformações sociais, o crescimento acelerado do segmento evangélico e a expansão das redes digitais produziram novos desafios para o diálogo político com parcelas importantes da população.
Foi nesse contexto que surgiram iniciativas fundamentais, como o Núcleo Evangélico do PT (NEPT), criado em 2015 para fortalecer o diálogo entre o partido e os milhões de brasileiros e brasileiras que professam essa fé.
Posteriormente, em 2020, a institucionalização do Setorial Nacional Inter-religioso ampliou esse horizonte, consolidando um espaço permanente de interlocução com as diferentes tradições religiosas presentes no país.
Esse processo avança com a consolidação dos Núcleos de Católicos e Católicas do PT e dos Núcleos de Povos de Terreiro, reafirmando o compromisso partidário com a liberdade religiosa, o combate à intolerância e a valorização da diversidade de crenças que compõem a identidade nacional.
Um trabalho permanente de base
Ao contrário do que muitos imaginam, o diálogo entre política e religião não está reduzido aos períodos eleitorais. A experiência acumulada pelo Setorial demonstra que a construção da confiança exige presença permanente nos territórios, escuta ativa e participação nas pautas concretas das comunidades.
Nos últimos meses, dezenas de encontros estaduais e regionais foram realizados em capitais e municípios brasileiros, reunindo lideranças religiosas, militantes, parlamentares, gestores públicos e representantes da sociedade civil. Esses espaços permitiram discutir temas como o combate à fome, a liberdade religiosa, a proteção ambiental, a educação, os direitos humanos, o enfrentamento da violência contra as mulheres e o fim da escala 6×1, além dos avanços das políticas sociais implementadas pelo governo Lula.
A ação nos territórios é estratégica porque as organizações religiosas estão profundamente enraizadas na vida cotidiana do povo. Igrejas, terreiros, centros religiosos e comunidades de fé desenvolvem trabalho social contínuo nos grandes centros metropolitanos, nas periferias e nas zonas rurais.
Ao mesmo tempo, pesquisas vêm demonstrando os impactos da circulação de desinformação em ambientes digitais religiosos. O monitoramento de conteúdos realizado por instituições como o Instituto Beréia, aponta a necessidade de ampliar espaços de diálogo qualificado e de circulação de informações verificadas, contribuindo para o fortalecimento da cidadania e da participação democrática.
Frutos de uma escuta ativa
Os dados mais recentes das pesquisas de opinião indicam movimentos importantes na relação entre o governo do presidente Lula e o eleitorado evangélico, apontando redução da rejeição e crescimento da aprovação ao presidente Lula no segmento. Também se observa um encurtamento da distância eleitoral em relação ao principal adversário. Embora pesquisas sejam influenciadas por diversos fatores, a escuta das comunidades religiosas tem contribuído para reconstruir vínculos que foram fragilizados nos últimos anos. O diálogo direto, a interação com lideranças locais e a valorização das experiências comunitárias demonstram que existe sintonia entre esse segmento e o campo democrático-popular.
Marcos importantes no semestre
O fortalecimento desse diálogo pode ser observado em três importantes momentos ocorridos recentemente.
O primeiro deles foi a participação do Setorial Nacional Inter-religioso do PT no ÉGBÈ – Encontro Nacional das Culturas dos Povos de Matriz Africana, realizado na Grande Belo Horizonte e reconhecido como o maior evento do segmento na América Latina. Na oportunidade, o Setorial reafirmou o compromisso do PT com a defesa da liberdade de crença, o combate ao racismo religioso e a valorização das tradições de matriz africana, que desempenham papel fundamental na cultura, na memória e na identidade do povo brasileiro.
O segundo marco foi a realização, em Brasília, do IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT. O evento reuniu militantes, pesquisadores, pesquisadoras, pastores e pastoras em torno do debate sobre fé, justiça e democracia. Representantes de diferentes tradições evangélicas — históricas, pentecostais e neopentecostais — marcaram presença, reafirmando a diversidade do campo evangélico e demonstrando que a democracia se constrói com respeito e diálogo.
O terceiro marco será a realização do I Encontro Nacional de Católicos e Católicas do PT, no próximo dia 30 de junho. O evento representa a continuidade de uma tradição histórica de participação política inspirada pela Teologia da Libertação, pelas Comunidades Eclesiais de Base, pelos movimentos de fé e política e pelas pastorais sociais que ajudaram a construir a democracia brasileira. A iniciativa vai reunir lideranças católicas de diversas regiões do país para debater o compromisso com o bem comum, fortalecer a presença pública de lideranças católicas comprometidas com a democracia, a justiça social, a ecologia integral, a defesa dos pobres e a construção de um projeto democrático-popular para o Brasil.
Diversidade religiosa e democracia
Os números da própria representação partidária ajudam a compreender a importância desse trabalho. Milhares de filiados e filiadas do PT participam ativamente de organizações religiosas. Entre os evangélicos, estima-se um contingente superior a meio milhão de filiados e filiadas em todo o país, além de centenas de vereadores e vereadoras, dezenas de prefeitos e prefeitas e inúmeras lideranças comunitárias comprometidas com os valores democráticos e com a construção de políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades.
Essa realidade desmonta a falsa narrativa de que existe incompatibilidade entre religiosidade e compromisso com a democracia. O crescimento dos núcleos religiosos do PT e a ampliação das atividades do Setorial Inter-religioso demonstram que existe uma base religiosa viva, organizada e comprometida com o projeto democrático-popular. Católicos, evangélicos, povos de terreiro e representantes de diferentes tradições religiosas encontram no partido um espaço legítimo para contribuir com a formulação de políticas públicas e com a construção de um Brasil mais inclusivo.
Nesse sentido, a reeleição do presidente Lula em 2026 é apresentada como fundamental para preservar a democracia, frear o avanço da extrema direita e do fascismo no Brasil e na América Latina, combater o ódio, assegurar a liberdade de crença e dar continuidade à implementação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da pobreza e das desigualdades.
No entanto, a articulação entre o PT e os segmentos religiosos vai além da dimensão eleitoral. O trabalho desenvolvido busca fortalecer vínculos comunitários, ampliar a presença territorial do partido, promover a escuta e o diálogo permanentes, enfrentar a desinformação e reconhecer o papel social de milhões de pessoas que vivem sua espiritualidade como expressão de solidariedade, participação cidadã e compromisso com o bem comum.
*Coordenador Nacional do Setorial Inter-religioso do PT