O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta sexta-feira, 24, que o desenvolvimento científico não pode ficar à mercê de oscilações orçamentárias ou da vontade política de ocasião.
Durante encontro com lideranças do sistema de ciência e tecnologia na sede da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em São Paulo, o presidente resgatou o histórico de exclusão social no acesso ao conhecimento no Brasil, destacando como o país demorou a enxergar a educação como um direito de toda a população, em especial dos jovens da periferia e do povo negro.
“Durante muito tempo a educação foi pensada para uma pequena parcela da população que nascia em berço privilegiado, porque a maioria não era para estudar”, afirmou. Lula defendeu a educação em tempo integral como “a solução para este país”.
O presidente criticou a lógica fiscalista que classifica a estruturação do país como despesa. “A primeira grande briga que eu fiz quando cheguei ao governo em 2003 foi proibir tratar educação como gasto. Porque tudo o que a gente faz é gasto, mas ninguém fala assim sobre ter que pagar R$ 1 trilhão de juros da dívida”, pontuou.
Para o presidente, a expansão do ensino superior e da pós-graduação exige uma visão estratégica de longo prazo do Estado brasileiro: “Quanto mais universidades e cientistas a gente fizer, mais dinheiro vai precisar para a educação. Porque mais pesquisa vai ter que fazer, e quanto mais coisas a gente descobrir, mais dinheiro vai ter que investir. Essa é uma lógica que tem que permear as pessoas que governam o país”.
Soberania e transição tecnológica
Ao tratar dos desafios globais contemporâneos, como a corrida por minerais críticos, terras raras e novas tecnologias, Lula alertou para a necessidade de o Brasil deixar de ser mero espectador das disputas entre as grandes potências. Para o presidente, o país precisa investir em ciência, pesquisa e formação profissional para dominar o conhecimento necessário à exploração de suas próprias riquezas.
“Se a gente não pesquisar e não investir, sem saber se vai dar certo ou não, a gente não vai entrar nessa disputa. A gente vai ficar vendo o Trump brigar com o Xi Jinping”, afirmou. Lula defendeu que os recursos existentes no território brasileiro sejam utilizados como base para a industrialização, a inovação e a geração de empregos de qualidade no país.
O presidente ressaltou que o Brasil possui um potencial extraordinário, mas precisa se qualificar para exercer soberania sobre seus recursos naturais. “Nós temos que nos qualificar para que a gente seja dono do que nós temos no nosso território”, declarou.
Nesse sentido, Lula rejeitou um modelo econômico baseado na simples retirada e venda de matérias-primas, sem processamento, desenvolvimento tecnológico ou geração de valor para a economia brasileira. “O Brasil não será exportador de terras raras e minerais críticos in natura”, garantiu.
Como exemplo da importância do investimento público em conhecimento, Lula citou a descoberta do pré-sal, resultado da capacidade técnica construída pelo país e da aposta continuada em pesquisa. “Quando a gente descobriu o pré-sal, aquilo foi resultado da teimosia de inventar, de investir em pesquisa. Porque, se você não investe em pesquisa, você não vai achar nada”, disse.