O programa oficial de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato da ultradireita à Presidência, não propõe ao eleitorado do país qualquer política pública séria voltada às crianças e às mulheres e à população em situação de vulnerabilidade. O documento de 76 páginas não aborda o combate à fome e à pobreza e o acesso público à educação. A peça destoa dos planos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato. Lula já afirmou: seu propósito é cuidar do povo brasileiro.
O candidato da extrema direita, que já sinalizou que tem como objetivo copiar o programa econômico do argentino Javier Milei no Brasil, que levou a população daquele país a um cenário de crise social, não cita em seu programa de governo o Bolsa Família. Lula anunciou, dia 17, o reajuste de 15% no piso do programa de transferência de renda, que passará de R$ 600 para R$ 691.
O candidato também não faz nenhuma menção à política de valorização do salário mínimo acima da inflação, para garantir às brasileiras e brasileiros o poder de compra. Esse é um claro compromisso do presidente Lula. Flávio e a sua equipe econômica não se comprometem com o reajuste. E no governo de seu pai, o mínimo não foi reajustado acima da inflação, uma das razões que explicam o fato de Lula ter encontrado, ao assumir o governo em 2023, 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, ou seja, passando fome.
Também não existem, na ideia de governo de Flávio Bolsonaro, os programas Minha Casa, Minha Vida e o Pé-de-Meia, benefício que hoje é pago a 7 milhões de estudantes que permanecem no ensino médio com auxílio de um benefício, o que auxilia na renda familiar. Lula já anunciou que vai estender o Pé-de-Meia a todos os estudantes da rede pública.
O petista também assumiu o compromisso de universalizar a educação em tempo integral e disse que vai apresentar um plano para educação com foco nos próximos 10 anos. Com as crianças nas escolas, as mães e pais podem ter a tranquilidade para trabalhar, pois são reduzidos os riscos de cooptação do crime e de violências.
Proteção às crianças e às infâncias
Em relação às crianças e aos jovens brasileiros, Flávio não conecta a educação ao futuro. Ele foca sobretudo em medidas punitivas contra a criminalidade.
Em sentido contrário, o plano de governo de Lula elenca os feitos do petista em benefício dos jovens, a exemplo do programa Bolsa Família e da aprovação da lei que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) digital. O presidente ainda aponta para o futuro ao anunciar a universalização da escola em tempo integral a partir de 2027.
“Estamos comprometidos com a proteção das crianças e de suas infâncias, do que são exemplo as medidas que implantamos, como os benefícios especiais do Bolsa Família para crianças e adolescentes, a proibição de celular nas escolas, os investimentos na construção de creches e pré-escolas por meio do Novo PAC, a expansão da educação em tempo integral, a retomada e fortalecimento do programa de vacinação, e o ECA digital”, afirma o programa de Lula.
O documento completa: “Continuaremos buscando ampliar e fortalecer as políticas para nossas crianças, por meio do enfrentamento da pobreza infantil, da garantia de acesso às políticas públicas e do direito ao brincar”.
As mulheres no centro das políticas públicas
Uma das prioridades do presidente para o quarto mandato é o enfrentamento à violência contra as mulheres. Lula lançou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, em fevereiro de 2026, conjuntamente com os Poderes Legislativo e Judiciário, e sancionou a Lei 14.611, que prevê igualdade salarial entre homens e mulheres.
No próximo mandato, Lula vai concluir a construção de 30 Casas da Mulher Brasileira e ampliar as salas lilás, que são espaços de acolhimento em órgãos públicos para atender mulheres e meninas em situação de violência.
Além disso, o petista propõe o fortalecimento do planejamento reprodutivo das mulheres e do acesso a métodos contraceptivos modernos no Sistema Único de Saúde (SUS), a concessão de mais oportunidades econômicas para elas e a ampliação do número de creches.
Já Flávio Bolsonaro sugere a disponibilização de um aplicativo de inteligência artificial chamado “ClarIA”, com acesso a serviços estatais e orientações como acompanhamento de medidas protetivas e agendamento de exames. “Não virei feministo”, ironizou o candidato, durante a live de lançamento da “ClarIA”.
Especialistas, influenciadoras e feministas, entretanto, não vêm sentido na proposta de Flávio. “É como se a inteligência artificial fosse a solução dos problemas. A mulher não precisa de uma amiga virtual. Precisa de creche universal, legalização do aborto, contraceptivo, transporte público, segurança”, ponderou Larissa Peixoto Vale Gomes, doutora em Ciência Política e pesquisadora na Universidade de Edimburgo, ao Jornal Nexo.