Mais uma empresa fraudulenta ligada a Barros é desmascarada na CPI

Saúde negociou compra de vacinas com a Belcher, investigada por suspeita de fraude na venda de testes rápidos. CPI ouviu Emanuel Catori, cuja empresa tem sede em reduto do líder de Bolsonaro na Câmara

A exemplo de negociações escusas entre a empresa Precisa Medicamentos e o Ministério da Saúde, outro esquema suspeito de compra vacinas envolvendo o deputado federal e líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros, foi desmontado pela CPI da Covid. Nesta terça-feira (24), os senadores ouviram Emanuel Catori, diretor da Belcher Farmacêutica, empresa que faria intermediação da venda, ao governo Bolsonaro, de vacinas do laboratório chinês CanSino, responsável pelo imunizante Convidecia. Pela oferta, 60 milhões de vacinas de dose única seriam compradas pela Saúde por U$ 17 cada, valor mais alto do que a Covaxin, negociada pela Precisa.

Do mesmo modo que ocorreu com a Precisa e a Davati – negociadora da AstraZeneca -, a CanSino rompeu contrato com a empresa no fim de junho, após desdobramentos da operação Falso Negativo, que desde março apura fraudes na compra de testes rápidos no Distrito Federal. Mesmo ciente do escândalo, o secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Arnaldo Correia de Medeiros chegou a assinar, no dia 4 de junho, uma carta de intenção de compra das vacinas.

As tratativas foram intermediadas por Barros, de quem Catori tentou, sem sucesso, negar qualquer favorecimento. Segundo a imprensa, o pai de um dos sócios da Belcher trabalhou com Barros quando ele foi prefeito de Maringá, reduto do deputado e onde a empresa tem sede. Apesar de admitir uma reunião na Saúde com Barros e o ministro Marcelo Queiroga no dia 15 de abril, Catori negou que tratou sobre o imunizante chinês.

O senador Humberto Costa (PT-PE) confrontou Catori pela inexperiência da Belcher com vacinas e desmentiu a tese de que Barros não atuou para facilitar o negócio com a empresa. “O Ministério da Saúde teve o mesmo modus operandi desde o início”, denunciou o senador. “Empresas sem experiência no ramo foram priorizadas para negociação de vacinas”, apontou Costa. Ele lembrou que, enquanto a pasta dava prioridade a empresas como a Davati, Precisa e Belcher, ignorava ofertas de laboratórios sérios e reconhecidos, caso da Pfizer.

“É difícil acreditar que não houve ajuda do senhor Ricardo Barros nessa negociação, ele teve papel no marco legal, indicou a Belcher como intermediária na compra dessa vacina, [teve] protagonismo no Comitê da Covid-19 da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Comércio Internacional, fez essas reuniões”, enumerou o senador.

Catori informou que manteve contato com os empresários bolsonaristas Carlos Wizard e Luciano Hang, o “veio da Havan”, para tratar de doações de 9 milhões de doses da CoronaVac, produzidas pela Sinovac, ao governo. O mesmo tema teria sido tratado na reunião de abril no ministério. “Entre fevereiro e março a Belcher foi convidada para contribuir tecnicamente com grupo de empresários interessados a doar vacinas, insumos e equipamentos para o SUS. Objetivo era humanitário”, discorreu o empresário.

Wizard e Hang

Costa estranhou a cronologia, uma vez que já no dia 6 abril a empresa assinou carta de confidencialidade com a CanSino. No dia 13, se reuniu com a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde. No dia 14, observou o senador, o empresário também participou de reunião na embaixada da China, com Wizard e Hang.

“Os dois são um fenômeno, são negacionistas convertidos”, ironizou Costa. “Pessoas que durante todo o tempo combateram a vacina , o isolamento social,  o uso de máscara… e de repente se convertem à defesa da vacina”, espantou-se.

“No dia 15 houve reunião com Queiroga. Difícil de acreditar que Vossa Senhoria ficou ali tratando de doação de vacinas”, insistiu o senador. “A Belcher iria fazer, sim, uma intermediação junto ao Ministério da Saúde e ao setor privado. É a cópia ipsis litteris do que a Precisa iria fazer”, pontuou. “Só não sei se iriam vender ao mercado privado tão caro quanto a Precisa”.

“A escolha da Belcher não se deu por acaso, não caiu do céu. Ela foi trabalhada por pessoas de dentro do governo, foi uma atuação política para promover esse casamento entre Belcher, Ministério da Saúde e CanSino. A CanSino viu que era fria e rompeu o contrato”, teorizou o petista. “Houve tráfico de influência, advocacia administrativa e outros crimes”.

Contradições

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) chamou a atenção para o robusto valor do contrato, de R$ 5 bilhões, e indagou quem seria facilitador que auxiliou o trânsito da empresa no Ministério da Saúde.

Carvalho observou que, em março, a Belcher e a CanSino apresentaram um plano à Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) para oferecer as vacinas ao setor privado, em um esquema “fura-fila”. O fato se deu antes, portanto, da reunião com o ministro. No entanto, o secretário Executivo Élcio Franco vinha tratando diretamente com a CanSino.

“Engraçado. Não era representante oficial em março mas apresentou um plano oficial para importação ao setor privado”, apontou o senador. Ele estranhou ainda o fato de a empresa mandar, no dia 14 de junho, e-mail ao Ministério da Saúde mesmo após rompimento do contrato com a CanSino quatro dias antes, “como se nada tivesse acontecido”. O depoente negou o envio do e-mail.

“Nossa luta é para mostrarmos ao Brasil que o governo Bolsonaro operou contra a compra de vacinas e só entrou no jogo quando passou a interessar do ponto de vista comercial”, disse o senador.

Imunidade de rebanho letal

Carvalho exibiu um vídeo com o relato de uma mãe que perdeu o filho, infectado e morto pela Covid-19 porque acreditou na tese da imunidade de rebanho defendida por Bolsonaro.

Para o senador, a CPI tem cumprido um importante papel: “esclarecer como um governo larga a população à própria sorte, estimula o contágio, o consumo de medicamentos ineficazes, leva à 574 mil mortos e ainda transforma uma situação de emergência na possibilidade de intermediação de compra de insumos com superfaturamento para beneficiar amigos do presidente e sua família”.

Da Redação

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