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‘O Brasil envelhece rápido e nós, os idosos, hoje somos protagonistas da sociedade’

A petista Maria do Carmo Guido avalia os desafios da assistência e da promoção da autonomia. Governo investe R$ 500 mi em programa de apoio

Governo Lula cria programas de apoio e bem estar para a população idosaFoto: Divulgação/PT

O Governo Lula vai investir de R$ 500 milhões até 2027 na implantação do Programa de Acompanhamento Domiciliar à Pessoa Idosa (PADI), iniciativa que levará equipes multiprofissionais às residências de pessoas idosas, ampliando o cuidado e o suporte às famílias. O programa reflete a necessidade de fortalecer as políticas públicas voltadas ao envelhecimento da população brasileira. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, grupo que já representa aproximadamente 17% da população. Esse grupo é também a segunda parcela mais expressiva do eleitorado do país.

Em entrevista à Rede PT de Comunicação, a socióloga Maria do Carmo Guido, 77 anos, pós-graduada em Gestão e Políticas Públicas, pesquisadora da Economia do Envelhecimento e coordenadora do Setorial Nacional da Pessoa Idosa do PT, defende o combate ao idadismo [ou etarismo], o preconceito contra pessoas por conta da idade. As pessoas idosas do século 21, ressalta, seguem protagonistas da vida política e social. 

“Sou feminista, sou mulher velha, assumo que sou velha sem medo, militante, participante do século 21.” 

Ela também denuncia as diversas formas de violência que atingem essa população — especialmente a patrimonial, financeira e psicológica — e afirma que é necessário fortalecer a rede de proteção e consolidar  políticas em um próximo governo Lula. 

Leia os principais trechos da entrevista:

Rede PT de Comunicação:
Como você se define?

Maria do Carmo Guido:
Sou feminista, sou mulher velha, assumo que sou velha sem medo, uma velha bacana, militante, participante do século 21. Eu sou feminista desde que começou a primeira onda do feminismo no Brasil, nos anos 70. O feminismo ainda não acolhe a pauta das mulheres idosas, ainda está nos direitos reprodutivos, está nas questões do feminicídio, que é uma consequência da violência generalizada na nossa sociedade. 

O que é o manifesto feito pelo Setorial de Pessoas Idosas do PT, do qual você é coordenadora?

MCG: Esse manifesto que a gente fez é um alerta contra o idadismo. O que ocorre no Brasil hoje, como na maioria dos países, é o que a gente chama de uma revolução, que é a revolução do século 21, que é a transição demográfica.  O país está envelhecendo muito rapidamente, a taxa de natalidade está abaixando brutalmente. A expectativa de vida dos idosos está aumentando. Então, o Brasil está se tornando um país idoso. Pela primeira vez, o grupo etário, 60 mais, superou o grupo etário de 0 a 12 anos. Hoje somos 35 milhões de idosos no Brasil e já somos 17% da população. Na Europa, a média dos países tipo Portugal, França, Itália, é 25% da população. A gente vai chegar nisso em pouco tempo. Nós vivemos na nossa sociedade brasileira um idadismo estrutural. O idadismo estrutural, ou seja, é igual ao racismo estrutural. Todo mundo é idadista, não é? 

Qual é a diferença entre idadismo e etarismo? 

MCG: Olha, na verdade, tem um grupo mais intelectualizado, que trabalha com a questão do envelhecimento, que a gente optou por usar mais o idadismo. Porque o idadismo é focado na linguagem, assim como o racismo se refere à raça. Mas, o nosso foco é o idosismo, o preconceito contra a pessoa idosa. Nós, os idosos do século 21, a gente continua protagonista na sociedade. A gente tem uma prática política, uma prática social, e somos muito preservados hoje pelos avanços da medicina. Hoje, os idosos, somos protagonistas da sociedade.

É simbólico que o Brasil tenha na Presidência um homem de 80 anos como Lula, que é super atuante e dinâmico? 

MCG: Eu acho maravilhoso isso, porque, olha, o que esse homem é? Ele é mais do que um homem, um presidente, ele é uma entidade. O Lula extrapolou todas as categorias. Mas os nossos adversários usam esse argumento do idadismo contra ele. É verdade que tem diminuído cada vez menos, porque ele é cada vez mais atuante, vigoroso. Mas ainda tem um resquício.  

Como enxerga os idosos em termos de representação na sociedade? 

MCG: Hoje somos 17% da população, a maior parte dos eleitores que apoiam o Lula são os eleitores 60+. Eu tenho 77 anos e sou vigorosa. As mulheres, então, são mais apoiadoras ainda, porque nós temos uma sabedoria, porque bate nas nossas costas a interseccionalidade do preconceito. E uma outra estatística, onde está havendo uma disputa política pela direita, mas eu não sei como que a direita vai fazer, porque ela não oferece nada: [dizem] que tem pouca entrega para a pessoa idosa. A direita só tem retirada de direitos.

Dados do eleitorado brasileiro mostram que os 60+  são o segundo grupo etário de eleitores no Brasil. Nós somos 23,16% dos eleitores. A gente só está atrás do grupo etário de 45 a 59 anos, Que é 25,39%. Os jovens são 11% e tal.  Nós temos que transferir essas benesses na campanha do Lula para os idosos, que somos nós a maioria dos eleitores.

Que políticas destaca no Governo Lula como importantes para a realidade das pessoas idosas? 

MCG: Vamos fazer um recorte de classe. Tem uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo que indica que  78% dos idosos são dependentes das políticas públicas. Porque a receita, a renda desses idosos e idosas, provém, basicamente, das aposentadorias, das pensões, que são as viúvas ou companheiras, e do BPC. É um pessoal que convive com baixíssima renda. Os governos petistas entregaram não só o Bolsa Família, como o Vale Gás, como o Luz para Todos, como a água, [com programa de] cisternas. Então, todas essas coisas chegam nos lares que são suportados por mulheres idosas que precisam disso. Nós, os idosos, precisamos do SUS.

Uma política pública importante que o nosso governo acabou de lançar é o Programa de Acompanhamento Domiciliar (PAD), para a pessoa idosa. Os arranjos domiciliares, hoje, mudaram. Então, grande parte das pessoas idosas vivem sozinhas. As famílias hoje são pequenas. Se você soubesse como padecem os idosos que moram sozinhos e têm, por exemplo, uma dificuldade de mobilidade!

A política nacional do cuidado, que é capitaneada pelo Ministério do Desenvolvimento Social, também é importante para essa faixa etária? 

MCG: É uma grande política pública. Talvez, será uma das maiores. Hoje está em fase de implantação. A Política Nacional de Cuidados tem três públicos prioritários. Os idosos, os PCDs [pessoas com deficiência]e a primeira infância. Os idosos são prioritários dentro do prioritário, porque nós somos a maioria da população. 

O que poderia ainda ser ampliado dentro da rede de apoio que existe para a pessoa idosa no Brasil? 

MCG: Acredito que é preciso criar um pacto de três poderes que atinja a população idosa, que envolva governo federal, estados e municípios. O Brasil tem a legislação do Estatuto da Pessoa Idosa. É um estatuto maravilhoso. É uma lei que protege. Mas, as leis aqui no Brasil não são seguidas. A Lei Maria da Penha é uma lei perfeita, mas a gente continua sendo assassinada. A Lei Afonso Arinos, ofensas raciais, é uma lei antiga.  Criminaliza o ofensor. Quem fizer uma ofensa racial vai para a cadeia. Mas tem coisa mais banal do que desumanizar a população preta nesse Brasil? A mesma coisa em relação ao Estatuto da Pessoa Idosa.

Que tipo de atitude no Brasil vulnerabiliza o idoso? Que tipo de violência é a mais comum? 

MCG: Nós sofremos vários tipos de violências. Está em voga hoje, por causa da crise, a violência patrimonial. O que está acontecendo nas famílias? O tio, o irmão, o sobrinho, pega o cartão do aposentado, vai lá e recebe o benefício e bota o aposentado na casinha do cachorro. Tem uma outra violência patrimonial que está sendo praticada e alguns acadêmicos começaram a enfatizar para ela, que é a violência que foi escancarada um pouco com a questão do INSS. Quando eu me aposentei, antes da aposentadoria cair na minha conta, eu já comecei a ser assediada pelo BMG.  A violência financeira é praticada pelos familiares e pelo Estado, que permitiu que instituições financeiras descontassem na folha, que bancos oferecessem crédito consignado. A gente sofre violência financeira, violência psicológica o tempo todo, e a violência física. Os idosos são espancados. Principalmente as mulheres idosas são espancadas dentro dos lares. 

O que ainda precisaria avançar num próximo Governo?

MCG: Nós precisamos nessa próxima gestão do presidente Lula, que a gente pegue com as duas mãos essa questão da rede de proteção para a pessoa idosa, que é a rede SUAS, e que a gente consiga fazer com que recursos do MDS cheguem até os estados e os municípios para que a gente bote para funcionar essa rede de proteção. A gente precisa fazer a intersetorialidade das políticas que mais afetam os idosos com os ministérios que trabalham essas políticas e que tem recurso.  Então essa é a minha grande expectativa em relação ao Lula 4. Que a gente chegue lá dentro e pegue com as duas mãos esses ministérios que podem trazer recursos intersetoriais que vão nos beneficiar.