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O golpe está aí. Cai quem quer

Éden Valadares analisa como a extrema direita latino-americana repete uma cartilha previsível, baseada no medo, no ultraliberalismo e no ataque às instituições democráticas

Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PTFoto: Divulgação

*Éden Valadares

A ausência de programa, o descompromisso com o desenvolvimento e a falta de criatividade da direita latino-americana produzem dois efeitos práticos imediatos: uma grande facilidade de construir unidade de ação e, ao mesmo tempo, se tornar invariavelmente previsível.

O cenário eleitoral das últimas disputas na nossa região deixa nítido qual é a agenda comum dos partidos, movimentos e, sobretudo, das candidaturas do campo da direita. Validados por casos de “sucesso” como Bukele, Milei, Noboa, Kast, Keiko ou Espriella, o programa eleitoral direitista fundamenta-se em quatro pilares interdependentes. segurança pública, liberalismo econômico, conservadorismo social e ataque às instituições democráticas.

No Brasil, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro incorpora essa receita com hermética disciplina. As propostas internacionais são acopladas à realidade brasileira sob a narrativa unificada de “Retomada da Ordem e da Prosperidade”.

Está tudo lá. Mesmo que seja difícil documentar, já que a campanha do PL não apresenta um conjunto de propostas organizadas como um tradicional Programa de Governo, os eventos, as postagens, as entrevistas e os elementos discursivos copiam e colam essa fórmula, para eles, incontornável.

Senão, vejamos.

Ignorando os quatro anos de mandato do próprio pai, Jair Bolsonaro, período no qual os índices de criminalidade cresceram, as ramificações das organizações criminosas se espraiaram nas estruturas de poder e a política de armamento desenfreado acabou por robustecer o arsenal bélico das facções, Flávio apresenta as mesmas propostas dos pares da extrema-direita latino-americana como soluções para a segurança pública no Brasil: abrir mão da soberania nacional e delegar aos EUA o combate às facções criminosas a partir da classificação destas como organizações terroristas; construir megapresídios midiáticos e alargar a política de encarceramento; reduzir a maioridade penal; e aumentar severamente o enquadramento criminal.

No campo da economia — novamente sem qualquer compromisso com a realidade do que foi o governo Bolsonaro —, Flávio fala em austeridade fiscal radical, corte de impostos e desregulamentação dos direitos trabalhistas como medidas imediatas — e mágicas. Busca combinar a defesa de causas ultraconservadoras, a exemplo dos valores da “família tradicional”, o combate ao feminismo, a denúncia dos supostos males da imigração, a defesa do controle das fronteiras e a revisão da demarcação de terras indígenas, com o ataque às instituições democráticas — difusamente personificado no Judiciário, na imprensa e nos partidos políticos — que desemboca no combate ao “arbítrio institucional” e na necessidade de anistia a Jair Bolsonaro e demais condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro.

O conjunto desses elementos, muito longe de representar alternativas de políticas públicas reais, são instrumentos de conexão com sentimentos presentes, em maior ou menor grau, na sociedade. De Honduras ao Chile, da Argentina a El Salvador, como foi no Peru e no Equador, a extrema-direita brasileira não busca a racionalidade das propostas concretas, com identificação de metas, prazos e previsões orçamentárias. Ela foca o subjetivo, as sensações. Mira nas desilusões e decepções para engrossar um caldo cultural que já fervilha nas bolhas de sentimentos manipuladas pelas redes sociais e seu modelo de negócio baseado no manejo e controle de desejos e, acima de tudo, frustrações.

O desafio do campo democrático e popular, portanto, não está na identificação da estratégia “trumpista” e seus apoiadores. Ela é facilmente identificada — e já está sendo implementada. Nosso objetivo é impossibilitar que ela se imponha, é criar vacinas, contrapor argumentos, ter capacidade de mobilização social permanente nos territórios e nas redes, e não permitir que as eleições no Brasil sejam capturadas pela mesma armadilha que aprisionou o processo de disputa na América Latina.

(*) Secretário Nacional de Comunicação do PT