Por Alberto Cantalice (*)
A vassalagem frente aos interesses estrangeiros sempre foi a tônica das classes dominantes brasileiras. Os senhores da terra e do comércio de escravizados nunca se preocuparam com a constituição de um projeto de nação nos trópicos. Seus rebentos foram buscar lustro na Universidade e em Paris. Não à toa, como diz o presidente Lula, o Brasil foi um dos últimos países da América a erguer uma universidade.
A institucionalização do Brasil só começou a ganhar forma com a vinda da Corte de Dom João VI, fugindo de Napoleão Bonaparte em 1808. Cabe ressaltar que até essa data a colônia era uma mera exportadora dos frutos da terra e do ouro das Minas Gerais para Portugal. Isso, por si só, já demonstra a diferença abissal entre a colonização dos EUA, do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia e a dos países colonizados pelas então potências ibéricas: Portugal e Espanha.
Incapazes de romper com o escravismo colonial, como escreveu Jacob Gorender, que nos EUA levou a uma guerra entre o Sul escravista e o Norte industrialista, com a vitória do Norte, aqui no Brasil, sem guerra o “Sul venceu”, completou Darcy Ribeiro. Nos legando a vergonhosa herança de ser o último país a abolir a escravização.
A ausência de projeto, a visão torpe, tacanha e mesquinha nos colocou à margem da Revolução Industrial e nos consolidou como um país exportador primário: primeiro do açúcar, depois do café, da borracha, entre outros.
A ausência de um enfrentamento entre o atraso e o progresso, e o massacre a todas as formas de insubordinação dos de baixo: Palmares, Balaiada, Canudos, Malês, Inconfidência Mineira, entre muitas outras, criaram um sólido vínculo entre as nascentes forças militares e as oligarquias agraristas.
Vem daí o epíteto de “coronel”, dado o poder de mando dos senhores que tinham poder de vida e de morte em seus territórios. É deste cenário que surge a ingerência das Forças Armadas todas as vezes que há contestação sólida ao status quo dominante. Fato inaugurado com a Proclamação da República em 1889, liderada por Deodoro da Fonseca, como uma resposta dos latifundiários à abolição da escravatura.
Séculos 20 e 21: o viralatismo das elites
O menosprezo pelo desenvolvimento do país atravessou os séculos. Incapazes de ousar, os “donos” do poder optaram pelo mais fácil: exportar sua produção e importar os bens produzidos no estrangeiro.
O fortalecimento dos EUA pós 1ª guerra e após a Doutrina Monroe, derivou os olhos da burguesia brasileira para o “irmão do Norte”. Entrou com toda força no território brasileiro o American way of life. Trazido inicialmente pelos jornais e depois consolidado pelo cinema, as rádios e a televisão.
Sem nenhum espírito de ousadia criativa, optou-se para a substituição de importações: trazendo para cá as multinacionais ao invés de investir na construção de parques industriais nacionais. A presença do capital estrangeiro no país sem contrapartida nacional levou a uma brutal remessa de lucros para o exterior e ampliou a dominação econômica dos EUA sobre a economia brasileira.
A 2ª Guerra Mundial e a decisão do governo brasileiro em aderir a luta contra o Eixo – Alemanha, Itália e Japão –, depois de uma certa indecisão, permitiu que Vargas garantisse, além do armamento, a construção, pelos EUA, da CSN, da FNM e da Álcalis. Foi a partir da guerra que as Forças Armadas brasileiras elegeram as forças norte-americanas como espelho. Já que até aquele momento eram francesas as formações militares por aqui.
O espírito nacionalista de Vargas preocupava os EUA, principalmente depois da criação da Petrobras como uma empresa estatal, já que o petróleo vinha se tornando a principal commoditie do mundo. Foi aí que o “viralatismo” ampliou a sua presença. Foi uma batalha difícil não permitir a entrega da nossa empresa. O golpe de 1964, dez anos depois, foi o coroamento dessa subordinação.
Atualmente, com a financeirização da economia, a associação entre o capital nacional e os fundos americanos faz com que parte dos financistas daqui operem diretamente contra os interesses do país. Juntando-se isso à subordinação extremo-direitista dos bolsonaros e de seus asseclas, forma-se o caldo de cultura para que Marco Rubio [secretário de estado dos EUA] e seu chefe Donald Trump se arvorem em intervir política e economicamente nos rumos do Brasil.
Falta grandeza e vergonha na cara para grande parte da Faria Lima. Falta decoro e honestidade aos parlamentares e governantes estaduais que se subordinam a isso. A altivez e a defesa da pátria passam longe deles.
É obvio que temos que repudiar a ingerência da Casa Branca sobre o processo eleitoral brasileiro. Mas, com toda a certeza, o maior inimigo do Brasil é a quinta-coluna. Derrotá-los é uma questão de honra.
(*) Foi secretário de comunicação e vice-presidente do PT Nacional de 2013 a 2020. Atualmente é diretor de comunicação da Fundação Perseu Abramo.