‘Não quero um Estado sequestrado pelo orçamento secreto’, diz Lula
Em entrevista ao ICL, presidente também alerta sobre a tentativa da ultradireita de consolidar um projeto no Brasil: “Começam sonhando em fechar a Suprema Corte”
Publicado em
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático, nesta quarta-feira, ao criticar o “Orçamento Secreto”, uma herança da gestão anterior do extremista de direita Jair Bolsonaro. “Não quero um Estado em que a gente fique subordinado, quase que sequestrado, pelo orçamento secreto”, afirmou o presidente, nesta quarta-feira, em entrevista ao portal ICL.
O orçamento secreto foi criado em 2020 para garantir apoio de parlamentares – especialmente do Centrão – a Bolsonaro, permitindo a destinação de emendas sem transparência e sem clareza sobre a destinação de recursos. Segundo o presidente, esse esquema fere a autonomia do Poder Executivo. Lula defende que recuperar a capacidade de investimento do Estado é passo fundamental para que o governo seja capaz de cumprir sua agenda social e econômica com transparência.
“Todo mundo sabe que eu não concordo com o orçamento secreto; 60% do orçamento vai para a mão de deputado e senador. Isso não é correto. Não é correto nem para o Congresso, nem correto para o Executivo. Ou seja, nós temos que executar um orçamento porque a sociedade nos deu o mandato para governar esse país”, declarou.
O presidente elogiou a atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, destacando que ele está tomando as “medidas corretas” para devolver o controle do orçamento ao Executivo e acabar com a “promiscuidade” dos penduricalhos (verbas que excedem o teto do funcionalismo público) e do orçamento secreto, assegurando a transparência. “Não é possível que você não acabe com os penduricalhos na história desse país.”
O presidente voltou a enfatizar a necessidade de reformas no sistema político do país e disse que os partidos terão que compreender a urgência das mudanças. “Sabe, os partidos vão ter que compreender que não dá para continuar assim. Não é possível a gente continuar com essa promiscuidade”, afirmou.
Lula pontuou o volume excessivo de recursos destinados ao Fundo Partidário e ao Fundo Eleitoral pode distorcer a função dos partidos. Lula argumentou, ainda, que o atual modelo político dificulta a renovação e o surgimento de lideranças oriundas de movimentos sociais. O petista voltou a criticar o alto custo das campanhas. “As pessoas novas têm poucas chances de se eleger. Você pegar um cidadão do movimento social e querer fazer o deputado, é muito mais difícil hoje. Porque tudo está marcado. Você vai ver que a renovação vai ser muito pouca”, lamentou.
Democracia é muito mais que palavra abstrata
Lula reiterou que a proteção da democracia continua sendo prioridade no seu governo e também geopolítica. Ele alertou para o “cerco” promovido por setores da ultradireita no mundo, que tentam consolidar um esquema no Brasil, deslegitimando o sistema eleitoral e as instituições do país. “Há uma tentativa de consolidar um esquema de ultradireita nesse país, ah que passa por colocar um fim na democracia, porque eles começam sonhando em fechar a Suprema Corte, sabe?”, afirmou.
Para o Presidente, democracia é muito mais do que uma “palavra abstrata”. “A democracia é o que permitiu que um metalúrgico, um indígena e mulheres chegassem à presidência na América Latina”.
Lula sustentou que o conceito democrático vai além das urnas, alcançando a garantia de dignidade e inclusão social. Ele reforçou sua confiança plena na Justiça Eleitoral brasileira, definindo o próximo ciclo político como uma disputa direta entre a verdade e projetos de destruição das liberdades.
“A democracia é para o povo. O cidadão controlar o seu voto e exigir que as pessoas cumpram com o mínimo de programa que foi a razão pela qual a pessoa foi eleita. Primeiro nós precisamos defender a democracia tendo como significado o direito elementar de todo mundo ser cidadão de primeira classe nesse país.”
Mudanças no Judiciário
Ao tratar das reformas estruturais que julga necessárias para o Supremo Tribunal Federal, o presidente Lula destacou a importância de se discutir a implementação de mandatos fixos para os ministros, questionando o modelo atual de permanência vitalícia até a aposentadoria compulsória.
Ele defende que a Constituição Federal estabeleça exigências para o cargo e o tempo de atuação, visando minimizar erros e garantir que a corte foque exclusivamente na guarda da democracia. Lula declarou que a indicação pelo Executivo e o crivo do Senado são apenas o início de um compromisso que deve ser encarado com austeridade, separando a vida pública de interesses privados ou advocatícios de familiares.
A terra arrasada e a colheita
Ao projetar o cenário para as eleições de 2026, Lula adotou cautela, mas confirmou que sua motivação principal é impedir a volta de projetos fascistas ao poder. Ele definiu 2026 como o “ano da colheita”, referindo-se ao momento em que as reformas econômicas e sociais iniciadas em 2023 estarão consolidadas.
“Nós pegamos um país de terra arrasada, efetivamente. Você não tinha mais Ministério da Cultura, mais Ministério do Trabalho, não tinha Ministério de Direito Humano, não tinha Ministério de Economia e Social, não tinha Ministério da Mulher. Você não tinha nada. O Ibama tinha 700 funcionários há menos do que 2010. Então, foi um trabalho muito árduo para que a gente reconstruísse”, afirmou Lula, relembrando o ano de 2023, quando tomou posse.
O Brasil teve que ser reconstruído após a gestão de Bolsonaro e esse processo, disse Lula, levou dois anos. “Por isso é que nós criamos o lema União e Reconstrução, porque a gente não queria ficar falando mal do outro governo. Eu ganhei as eleições, eu tenho que governar. Eu não posso ficar só criticando o outro governo, eu tenho que fazer as coisas acontecer. E nós fizemos coisas demais nesse país”, afirmou, demonstrando orgulho das realizações de seu mandato atual.
Caso sua candidatura se concretize em meados de 2026, o foco será um programa novo, voltado para questões estruturais e amparado por uma ampla frente democrática. “Eu tenho um acúmulo de experiência e quero navegar de cara erguida na frente do povo brasileiro”, concluiu o presidente.
Rede PT de Comunicação.
