‘A força (positiva) do fim da escala 6×1 nas redes’

Menções sobre a redução da jornada têm aumento expressivo, de 2.120%. Políticos da extrema direita são duramente criticados por serem contra os trabalhadores

Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

“Com o mote da necessidade de ter mais tempo para o que importa, o debate sobre o fim da escala 6×1 (trabalhar seis dias e folgar apenas um) e a adoção da escala 5×2 (trabalhar cinco dias e folgar dois) está ganhando positivamente o debate nas redes sociais. A maioria da população, 73%, apoia o fim da escala, e a possibilidade de um tempo de descanso maior e de qualidade, ao lado das famílias, está conquistando os brasileiros, que começam a construir a percepção de que essa escala de trabalho só é boa para quem explora a mão de obra.

Num país profundamente desigual como o Brasil, é um fato a se comemorar que esse tema seja de fato abraçado pelos trabalhadores.

Com uma linguagem direta e associações rápidas e fáceis – mais tempo para curtir os filhos, para estudar, para o lazer, para descansar – a campanha pelo fim da escala de trabalho 6×1, colocada em evidência pela Propostas de Emenda Constitucional que tramitam no Congresso, conquistou a população, sem sombra de dúvida. A mobilização pelo fim da escala ocupa expressivamente as redes desde o final de 2024. Segundo dados da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, divulgados em novembro daquele ano, houve um expressivo aumento – de 2.120% – nas menções sobre o tema, com 67% da população apoiando a PEC para acabar com a escala, enquanto somente 7% das publicações estavam contrárias à proposta.

Agora em 2026, o levantamento foi atualizado, e os resultados são ainda mais expressivos. Eles  mostram que 73% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1. A pesquisa também mostra que quase metade da população da Região Nordeste (48%) diminuiria as chances de votar em um parlamentar que se manifeste contrário à mudança. Além disso, 84% dos entrevistados defendem que o trabalhador tenha pelo menos dois dias de descanso por semana.

Segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, em março, 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala, e mesmo entre os eleitores que votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno a eleições de 2022, a aprovação do fim da escala segue em alta: 55% são a favor do fim dessa escala de trabalho.

Há alguns elementos muito importantes que precisam ser destacados a partir desse conjunto de dados:

-A pauta se mostrou inteligível para a população. Todo mundo entende a que ela se refere e o que significa uma redução nos dia de trabalho;

-A mobilização nas redes está se mantendo constante e relevante. A pauta se mantém firme em todas as plataformas, mostrando-se capaz de atravessas as bolhas (mesmo eleitores bolsonaristas são favoráveis ao fim da escala);

– Há um alto engajamento popular e tendência favorável à aprovação;

– O apoio popular ao fim da escala cresce substancialmente e consistentemente desde 2024, quando começou a ser discutido.

No pronunciamento em cadeia nacional no dia 7 de março, pelo Dia Internacional da Mulher, o presidente Lula estabeleceu um viés muito importante ao enfatizar que a escala 6×1 impacta fortemente a vida das mulheres, que têm jornadas duplas e até triplas. E esse é um mote muito forte que tem ganhado corpo e expressão no debate sobre o tema.

Por outro lado, políticos alinhados à direita e à extrema direita, como Ronaldo Caiado (União Brasil), Marcos Pereira (Republicanos), Valdemar Costa Neto (PL), André Fernandes (PL), Fernando Holiday (PL) e outros estão sendo duramente criticados nas redes pela postura contrária ao fim da escala. Mais do que serem contrários à mudança, eles estão esboçando justificativas que mostram, na verdade, que eles não defendem os trabalhadores. Caiado, por exemplo, disse que o debate é “um tema petista”; já Marcos Pereira, presidente do Republicanos, afirmou que “ócio demais faz mal”.

Pelo avanço positivo da pauta e o apoio massivo da população, alguns políticos muitos ativos nas redes estão fugindo da problematização sobre o tema.

É o caso, por exemplo, de Nikolas Ferreira, que ainda não abraçou um discurso muito convincente e só consegue dizer que o tema tem muito impacto e que precisa ser discutido seriamente. Gustavo Gayer, tão ativo em tantos assuntos, também não se manifesta adequadamente, e até escapuliu para não se manifestar em reportagem do ICL Notícias.

Eixos narrativos potentes

Em ligação estreita com a linguagem simples e direita, os eixos narrativos da campanha nas redes têm dois motes que estão bastante consolidados e ampliam o alcance:

1)O bem-estar para os trabalhadores – a ideia de ter mais tempo com a família, mais tempo para o lazer, mais tempo para cuidar da saúde

2)Quem não trabalha nem três dias por semana – como muitos políticos, segundo a percepção circulante – quer que os outros trabalhem “até morrer”. Nesse aspecto, a ideia de que defendem “mamata” toma um corpo que empareda para quem se propõe a ir contra o fim da escala.

Mídia e escala 6×1

Grande mídia abraçou um discurso de pânico contra o fim da escala 6×1.

Nas últimas semanas, observamos um aumento significativo de reportagens, em vários veículos da imprensa (O Globo, Metrópoles, CNN, BandNews, Folha, Estadão) sobre o fim da escala 6×1, pauta que está em debate no Congresso. Uma viés comum chamou muito a atenção: a tentativa de criação de pânico com a ideia de que a medida impacta a economia negativamente.

Esse era o repertório geral nas matérias, desdobrando-se para subtemas como “escala 6×1 aumenta o desemprego”, “prejudica os trabalhadores”, “ traz prejuízo para as empresas”, “pode diminuir os salários” – todas numa linha bastante catastrófica, de disseminação do pânico.

Interessante notar também que, à medida que o debate favorável ao fim da escala crescia nas redes, o tom na imprensa era exatamente o contrário, de mostrar que seria um “desastre”, um problema (claro, para os capitalistas).

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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