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‘Aguenta, companheiro, o povo vai vencer’: 47 anos depois, presidente escreve ao Lula de 1979

No lançamento da campanha em São Bernardo do Campo, o Lula de hoje confortou o jovem líder cercado pela ditadura, celebrou os sonhos realizados e prometeu: “Vamos ganhar mais uma”

“Eu sei que seu coração está apertado, sentindo o peso de milhares de trabalhadores em greve esperando sua direção. Eu lembro como se fosse ontem. Vou te dizer uma coisa: vai dar tudo certo”Foto: Ricardo Stuckert

Quarenta e sete anos separavam os dois Lulas. Um estava em 1979, com 33 anos, o coração apertado e o peso de milhares de metalúrgicos à espera de sua direção. O outro voltou ao mesmo lugar em 2026, aos 80 anos, depois de ajudar a derrubar uma ditadura, escrever a Constituição e vencer três eleições para presidente da República.

Entre os dois, uma vida inteira de lutas, conquistas, perseguições e recomeços.

Neste domingo, 16, durante o lançamento de sua campanha à reeleição em São Bernardo do Campo (SP), em um ato que reuniu 40 mil pessoas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva leu uma carta para o homem que foi um dia.

De volta à Vila Euclides, onde sua história se confundiu para sempre com a história dos trabalhadores brasileiros, Lula começou tentando acalmar o jovem sindicalista.

“Companheiro, eu sei que seu coração está apertado, sentindo o peso de milhares de trabalhadores em greve esperando sua direção. Eu lembro como se fosse ontem. Vou te dizer uma coisa: vai dar tudo certo”.

“O povo vai vencer”

O Lula de 1979 ainda não sabia como terminaria aquela greve. Não sabia se os trabalhadores suportariam a repressão da ditadura nem até onde iriam os patrões, a polícia e o governo para fazê-los desistir.

Sabia apenas que milhares de famílias dependiam daquela luta.

Em 13 de março daquele ano, cerca de 60 mil metalúrgicos ocuparam pela primeira vez o estádio da Vila Euclides. Sem palco e sem sistema de som, Lula subiu em uma mesa e falou à multidão. Suas palavras eram repetidas de trabalhador em trabalhador até alcançar aqueles que estavam mais distantes.

A paralisação mobilizou cerca de 200 mil operários, enfrentou a repressão do regime militar e ajudou a devolver à classe trabalhadora a confiança em sua própria força.

Quase meio século depois, o Lula presidente pôde finalmente contar ao Lula metalúrgico que aquele esforço não seria em vão.

“Vocês sairão vencedores dessa luta. Não vai ser fácil. Vai ter perseguição. Vão atentar contra a nossa soberania. Vai ter gente rica torcendo para você não aguentar, mas você nunca vai abrir mão da sua dignidade”.

O aviso parecia atravessar o tempo. Falava das perseguições que ainda viriam, mas também das pressões que o Brasil continua enfrentando quando decide caminhar com as próprias pernas e colocar os interesses do povo acima dos privilégios de poucos.

Foi então que o presidente ofereceu ao jovem companheiro a certeza de que ele tanto precisava ouvir:

“Aguenta, companheiro, que o povo vai vencer”.

“A democracia vai voltar”

Naquele momento, em 1979, o Brasil ainda vivia sob uma ditadura. O jovem Lula não podia saber que as greves do ABC ajudariam a abrir as portas para a redemocratização, que delas nasceria o Partido dos Trabalhadores e que ele próprio participaria da elaboração da Constituição de 1988.

O Lula de hoje sabia. E pôde contar.

“A democracia vai voltar. Você vai ajudar a escrever a Constituição. Vai ganhar uma, duas, três eleições para presidente e vamos ganhar mais uma. Não duvide”.

O metalúrgico que discursava em cima de uma mesa seria eleito presidente em 2002. Voltaria a vencer em 2006 e, vinte anos depois da primeira vitória, retornaria ao Palácio do Planalto pelo voto popular para reconstruir um país ferido pela fome, pelo abandono e pelo autoritarismo.

Agora, no mesmo gramado em que começou a conduzir multidões, Lula abriu a caminhada para conquistar o quarto mandato.

Os sonhos que atravessaram o tempo

Mas a carta não falou apenas de eleições. Lula contou ao jovem sindicalista o que realmente aconteceu com os sonhos que moviam aqueles trabalhadores.

O desejo era simples e imenso: que cada família tivesse café, almoço e jantar; que ninguém ficasse sem atendimento de saúde por não ter dinheiro; que todas as crianças pudessem estudar e construir um futuro melhor.

“Hoje eu estou infinitamente melhor. Seu sonho de cada família ter café, almoço e jantar, de o povo ter saúde de graça, de as crianças terem escola, está acontecendo”, afirmou.

Depois de uma vida dedicada a transformar esses sonhos em políticas públicas, Lula devolveu ao companheiro de 1979 o orgulho de tudo o que aquela luta ajudou a construir.

“Pode encarar os metalúrgicos de cabeça erguida, companheiro”.

A carta também recordou o 13 de maio de 1979. Naquele dia, depois de dois meses de mobilização, os trabalhadores reunidos na Vila Euclides conquistaram um reajuste salarial, derrubaram a intervenção no sindicato e provaram que a organização popular podia enfrentar a ditadura e vencer.

“Esse 13 de maio é só um começo”, disse o presidente ao jovem Lula.

Depois daquele dia viriam o PT, a redemocratização, a Constituição Cidadã, as eleições presidenciais, o combate à fome e milhões de brasileiros chegando pela primeira vez à universidade, à casa própria, ao emprego com direitos e a uma vida mais digna.

O abraço do Lula de hoje

A carta chegou ao fim no mesmo lugar onde tudo começou. O Lula de 2026 ainda não estava satisfeito. Depois de reconstruir o país, queria avançar mais, fazer mais e cuidar ainda mais do povo brasileiro.

“Aqui em 2026, a gente reconstruiu o Brasil, mas ainda não está satisfeito, porque o Brasil está pronto para muito mais”.

Quarenta e sete anos depois, o jovem metalúrgico e o presidente da República voltaram a se encontrar na Vila Euclides. Não eram dois homens diferentes. Eram a mesma coragem, a mesma teimosia e a mesma confiança de que o povo organizado é capaz de mudar a própria história.

“Um abraço do Lula de hoje, de onde tudo começou, na mesma Vila Euclides, 47 anos depois.”

Antes de se despedir, Lula deixou ao companheiro de 1979 e a todos os trabalhadores brasileiros a frase que nasceu naquele estádio e continua atravessando gerações:

“Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores”.