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Candidatas denunciam ataques e violência de gênero, mas avisam: seguem na política

Alvos de tentativas de intimidação, racismo e exposição de dados de familiares, candidatas se unem pela vida; PT cobra investigação e proteção para garantir mulheres na disputa eleitoral

“A democracia se fortalece quando as mulheres podem ocupar os espaços de poder com liberdade, segurança e respeito”, aponta Secretaria de Mulheres do PTFoto: Site do PT

A estratégia é conhecida: atingir a mulher, ameaçar sua integridade, avançar sobre sua vida privada e chegar até sua família para produzir medo e constrangimento, tendo como objetivo, na prática. afastá-la da vida pública. Atacar pessoalmente uma mulher que disputa uma eleição é também tentar negar a ela o direito de ocupar a política e de participar do processo democrático. 

“Não podemos naturalizar qualquer forma de ameaça, intimidação ou violência contra mulheres que exercem legitimamente seus mandatos e que usam sua voz e seu corpo em prol de assegurar os direitos do povo brasileiro”, afirma em nota, a Secretaria de Juventude do PT. 

A nota ainda assinala que a violência política de gênero “é um ataque não apenas às parlamentares e candidatas, mas à própria democracia”.

Em diferentes frentes, grupos neonazistas, comunidades red pill e outros grupos masculinistas têm atuado na disseminação de discursos que atacam a presença das mulheres na vida pública e política.

Em comum, essas redes mobilizam misoginia, racismo e violência para constranger mulheres, questionar sua legitimidade e tentar afastá-las dos espaços de poder. As ameaças chegam sempre por e-mail, mas existem particularidades. A estratégia não se limita às candidatas: alcança também a ideia de participação política das mulheres e, em alguns desses discursos, chega a questionar o direito ao voto feminino.

Atual vereadora de Natal e candidata a deputada federal pelo PT, Brisa Bracchi recebeu, na terça-feira, 1º, uma mensagem por e-mail com ameaças de morte e violência sexual. O conteúdo também apresentava informações pessoais sigilosas de familiares e manifestações discriminatórias relacionadas à orientação sexual da parlamentar e à sua atuação como mulher na política.

A mensagem foi enviada por alguém que utilizou um codinome associado a um grupo neonazista. O conteúdo descrevia as agressões, indicava uma data para a execução das ameaças e apresentava simulações do suposto ataque. A equipe jurídica da candidata preservou os arquivos e encaminhou o material às autoridades. O caso é investigado conjuntamente pela Polícia Civil do Rio Grande do Norte e pela Polícia Federal. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) também foi acionado, por meio da Ouvidoria da Mulher.

Mesmo diante das ameaças, Brisa afirma que manterá suas atividades parlamentares e eleitorais, adotando as medidas de segurança necessárias.

“Recebi por e-mail mensagem de ameaça de morte e estupro. O caso já está com a Polícia Federal e há indícios de que são grupos neonazistas. A gente repudia qualquer tentativa de interromper e atrapalhar a atuação política das mulheres e contamos com o compromisso das instituições para garantir a nossa integridade física”, diz.

Ataques em rede

Em Minas Gerais, a candidata a deputada federal Ana Elisa (PT-MG) também recebeu ameaças durante a madrugada na semana passada. Foram dois e-mails: o primeiro continha ameaças de violência sexual e conteúdo racista; o segundo reunia dados pessoais da candidata, incluindo números de documentos, nomes dos pais e endereço residencial. Diante dos ataques, Ana Elisa buscou apoio psicológico e decidiu não acessar mais os e-mails como forma de se proteger. As mensagens já foram encaminhadas à Justiça Eleitoral e à polícia.

“Precisamos de mais mecanismos de apoio e proteção tanto na Justiça quanto no partido. Eu não tenho mandato e, por isso, estou mais vulnerável, não tenho direito, por exemplo, à escolta. Em casos como esse, me sinto mais frágil para seguir em frente com a campanha”, desabafa. 

 

Ameaças ultrapassam o ambiente virtual

O que chama a atenção nos relatos é a semelhança entre as ameaças recebidas por mulheres de diferentes estados. A deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG) relata que não é a primeira vez que recebe ameaças de morte e estupro por e-mail, mas afirma que desta vez o conteúdo trouxe informações pessoais e dados de sua família.

“São ameaças brutais, violentas, que atentam contra a nossa dignidade e tentam nos amedrontar e nos tirar do processo eleitoral”, afirma.

Segundo ela, a resposta precisa envolver as instituições e também o próprio partido. Bella afirma ter cobrado proteção institucional do Estado e acionado a Justiça Eleitoral para garantir resposta e segurança às candidatas ameaçadas. Também defende que o PT preveja, em seu fundo eleitoral, estrutura para a proteção de mulheres que sejam alvo de ameaças.

A preocupação aumenta porque, paralelamente às ameaças virtuais, ela sofreu um ataque de vandalismo em seu comitê, na mesma data em que recebeu os e-mails. A autoria ainda é investigada.

“A gente nunca sabe quando a coisa vai sair do modo virtual e vai para o prático”, diz.

Os e-mails recebidos por ela e por Ana Elisa são assinados pelo mesmo remetente. Segundo ela, há ainda coincidências importantes com as mensagens recebidas no Rio Grande do Norte, o que, em sua avaliação, precisa ser investigado.

“É importante dizer que nós, mulheres, temos que caminhar juntas e nos proteger mutuamente”, afirma.

Ataques antes da candidatura

A violência também atingiu Juliana Garcia (PT-RN), candidata a deputada estadual. Ela relata que depois que sua presença em um aniversário da candidata ao senado e presidente do PT do Rio Grande do Norte, Samanda Alves, gerou especulações sobre uma possível candidatura.

Juliana conta que sua presença frequente ao lado da militância passou a ser usada para alimentar notícias locais sobre uma eventual candidatura. Em seguida, começaram os ataques, com acusações de que ela estaria “indo para o lado que protege os bandidos”, numa narrativa que, segundo ela, é difundida pela extrema direita.

Os ataques ganharam uma dimensão ainda mais cruel quando passaram a fazer referência à tentativa de feminicídio que Juliana sofreu no ano passado. Na ocasião, seu ex-namorado tentou matá-la dentro de um elevador, desferindo 61 socos contra ela. O caso foi noticiado em todo o Brasil.

“A sociedade está doente após o bolsonarismo”, declara.

Elas ficam, doa a quem doer

A deputada federal e candidata à reeleição pelo PT no Rio Grande do Norte, Natália Bonavides, está entre as mulheres citadas pela Juventude do PT como alvo de ameaças de morte, ataques racistas e violência política e de gênero. Segundo a nota da organização, os ataques também atingem familiares.

A JPT manifestou solidariedade a Natália, Brisa e Ana Elisa e às suas famílias e defendeu que as autoridades responsáveis adotem todas as medidas necessárias para investigar os fatos e garantir a segurança das vítimas.

“Não tenho medo de grito e nem de intimidação. Além de defender os interesses do nosso RN na Câmara Federal, nossa presença também é pra mostrar que a política é lugar de mulher, doa a quem doer”.

 

Estratégia para tirar as mulheres da política

Em nota, a secretaria nacional de Mulheres do PT denuncia que ataques, intimidações e tentativas de deslegitimação são mecanismos utilizados para constranger, silenciar e afastar mulheres da vida pública, especialmente aquelas que defendem projetos comprometidos com a democracia e com a ampliação de direitos.

“A democracia se fortalece quando as mulheres podem ocupar os espaços de poder com liberdade, segurança e respeito”, afirma o texto.