A probabilidade de inadimplência aumenta cerca de 20% após o início das apostas em bets, e 90,8% dos apostadores transferem mais dinheiro às plataformas do que recebem delas. Os dados são de um novo estudo sobre os impactos das apostas online na vida financeira dos brasileiros.
A piora também aparece em outros indicadores: os atrasos no cartão de crédito crescem 38,7%, enquanto o limite de crédito disponível cai 16%. Além disso, 82,5% dos apostadores não fizeram nenhum saque das operadoras nos seis meses analisados.
O estudo mostra que parte dos apostadores já enfrentava dificuldades financeiras antes da primeira aposta. Mesmo quando os pesquisadores levam essa condição em conta, porém, os dados continuam indicando uma piora após a entrada nas bets.
A pesquisa “Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil” (Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil, em português) é assinada pelo economista e professor do Insper Sérgio Firpo e por pesquisadores da StoneCo.
Para analisar essa relação, os autores acompanharam a vida financeira de clientes antes e depois da primeira transferência de dinheiro para uma bet, a partir de janeiro de 2025, quando teve início o mercado regulado de apostas online no país. Eles cruzaram informações sobre movimentações bancárias com dados de crédito do Banco Central e compararam os novos apostadores com pessoas de perfil semelhante que ainda não haviam começado a apostar.
Efeitos vão além do dinheiro perdido
A pesquisa indica que o impacto das bets não termina no valor gasto para jogar. Depois que uma pessoa começa a apostar, o limite de crédito oferecido pelos bancos cai, em média, 16%.
A queda é ainda maior entre pessoas que já tinham pouco crédito disponível. Na prática, isso significa que um apostador pode não apenas perder dinheiro com o jogo, mas também passar a ter menos crédito para fazer compras, enfrentar uma emergência ou organizar outras despesas.
Os pesquisadores também identificaram uma redução do dinheiro disponível nas contas dos apostadores. Os resultados, portanto, apontam para uma combinação de mais dívidas, menos recursos em conta e menor acesso ao crédito.
Governo Lula amplia controle sobre as bets
Os efeitos sociais e econômicos das apostas online têm levado o governo Lula a aumentar o controle sobre o setor. Entre as medidas adotadas pelo governo está a proteção de pessoas que já enfrentam dificuldades financeiras. Quem aderiu ao Novo Desenrola Brasil e parcelou uma dívida fica impedido de acessar plataformas de apostas por 12 meses. O bloqueio é vinculado ao CPF e vale para todas as bets autorizadas no país.
Outro programa de proteção é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear de uma só vez o acesso a todas as casas de apostas autorizadas e deixar de receber publicidade direcionada.
Na área da saúde, o governo lançou em julho uma campanha nacional de prevenção aos danos causados pelas apostas online. O SUS oferece acolhimento e tratamento para apostadores e familiares, inclusive por meio das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Ainda em julho, o Ministério da Fazenda impôs novas regras para o mercado de apostas online, com exigências para frear o assédio publicitário das bets e proteger o bolso e a saúde mental dos consumidores.
O presidente Lula segue defendendo o endurecimento das medidas. Em reunião com representantes das áreas de saúde, educação e economia no dia 1º de setembro, afirmou que as bets são “um mal para a sociedade” e que o Estado precisa adotar uma decisão mais drástica diante dos impactos das apostas.